Marta Bruno
Repórter
Inversão de sentido: para o arcebispo de Mariana (MG), o afastamento de Deus se dá porque “a perda de valores está trazendo consigo a desorientação da própria humanidade”
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Lyrio Rocha, diz que ciência e fé andam juntas e que lucro faz do Natal festa pagã
Dom Geraldo Lyrio Rocha
*Presidente da CNBB
Como a CNBB orienta as paróquias e congregações a trabalharem o tema do Natal de forma mais prática e de modo que vá além dos festividades e troca de presentes?
Hoje praticamente em todo o Brasil se faz uma bonita preparação para o Natal, primeiramente através da liturgia do advento, cada vez mais valorizada e cultuada. Os padres estão empenhados nas celebrações especiais do sacramento da confissão, na preparação da comunidade para a mensagem, com a realização das novenas de Natal, com as ações de solidariedade social junto às comunidades, nas ações realizadas nas paróquias, tudo para que a boa nova chegue a todos e não seja ocultada pelo comércio que se torna mais intenso nessa época do ano. Neste período, a vocação ganha nova compreensão e dimensão, mas é bom lembrar que a Igreja está atuando o ano todo e que a mensagem deve ser lembrada todos os dias, independente da data, da comemoração e dos acontecimentos nas paróquias. Além disto, a novena do Natal se expandiu por todo o Brasil de forma admirável. Vou dar o exemplo da própria Arquidiocese de Mariana (de onde o presidente da CNBB é arcebispo). Aqui nós distribuímos mais de 100 mil exemplares da novena do Natal neste ano, o que mostra que nosso povo está buscando celebrar o Natal com mais profundidade, em um clima mais de fé e recuperando os autênticos valores do Natal em uma sociedade secularizada. O problema é que, infelizmente, em muitos lugares, o Natal está se paganizando, tornando-se simplesmente a festa de desperdício, da ostentação e do consumismo, da busca pelo lucro, da troca de presentes.
Para o senhor e para a Igreja Católica, qual o verdadeiro significado dessa data?
Verdadeiramente, o Natal é a festa do nascimento do salvador da humanidade, Jesus Cristo. Ele é o Deus que se fez homem, que veio ao mundo com um propósito. Ele nasceu como criança pequena, frágil e foi depositado em uma manjedoura, na gruta de Belém. É esse o grande sentido do Natal. E a data desperta no coração humano sentimentos de bondade, de solidariedade, de fraternidade, de amor, de paz. Mas a grande mensagem do Natal é a mensagem da paz que Jesus Cristo passou para o mundo e que precisamos valorizar nos dias de hoje. Na noite em que nasceu Jesus, os anjos proclamaram “glória a Deus nas alturas e paz na Terra”. Foi um momento único para tudo que viria depois, para as nossas vidas, para a história da humanidade. Aliás, estamos precisando muito dessa paz que Cristo nos comunica a partir do seu nascimento e do milagre da vida. Hoje estamos vivendo em uma sociedade atribulada pelas incertezas, pela violência que cerca as grandes cidades, pelo ódio no coração do homem, pela maldade de quem está longe de Deus, pela corrupção que está em vários níveis de poder, não apenas na política. Tudo isso vai tirando a paz que deveria permanecer no coração das pessoas. Quantos países infelizmente vão celebrar a noite de Natal em clima de guerra, de destruição, de amargura entre os povos? Isso é uma tristeza para todos nós, que devemos buscar a paz através da justiça e de Jesus Cristo. O Natal deve ser celebrado na paz, ao mesmo tempo em que afirmamos que a paz é fruto da justiça, como recordou a Campanha da Fraternidade deste ano, tirada da palavra do profeta Isaías: “sem justiça não há paz”. Neste ano, a campanha teve como tema a Fraternidade e a Segurança e como lema, “A paz é fruto da Justiça”. Ao longo do ano, discutirmos questões ligadas à violência urbana. O debate não foi apenas nas paróquias, mas foi levado também para dentro de empresas, escolas. O tema é de grande importância não somente para a igreja, mas para todos os cidadãos, pois a violência atinge a todos e a fraternidade deve ser praticada por todos.
Como manter a fé diante de tantos problemas sociais e espirituais, como os países em guerra que o senhor citou e a insegurança com que o brasileiro convive e que foi tema da Campanha da Fraternidade deste ano?
Os problemas que vivemos desafiam a nossa fé. E a fé cristã não é apenas um sentimento vago, sem explicação, abstrato. A fé é uma escolha, uma opção de vida por Jesus Cristo e por sua mensagem. Nós, cristãos, acreditamos que a mensagem de Jesus Cristo é capaz de transformar o coração das pessoas e as estruturas da sociedade, mesmo com todas as dificuldades e empecilhos sociais a que muitas pessoas são expostas todos os dias. Isso não pode ser um obstáculo para essa escolha de vida, mas uma razão a mais para buscar a Deus e colocar em prática sua mensagem de amor, esperança e fé.
O que o senhor acha que leva as pessoas, nesta época do ano, a valorizarem tanto o consumo, em detrimento da verdadeira mensagem do Natal?
Infelizmente a festa do Natal está se paganizando. Perde-se o sentido verdadeiro do Natal e transforma-se na festa do consumismo, da troca dos presentes. É muito bonito quando as homenagens enfatizam o homenageado, que é Jesus Cristo. Mas, infelizmente, o Natal está cada vez mais se paganizando de uma forma que para muitos passa despercebido o evento que está sendo celebrado. Nesse caso, o Natal se reduz meramente às expressões exteriores. Elas até são válidas, mas desde que reflitam o que se passa no coração humano, que é, na celebração do Natal, a vinda do salvador da humanidade à Terra para trazer a paz a todo o gênero humano.
Essa época do ano é a ideal para passar essa mensagem. Mas, na sua opinião, o que falta para efetivar essa ação de forma definitiva, tanto através das Igreja, como da s famílias, das escolas e de outras instituições?
Falta, exatamente, recuperar o sentido autêntico do Natal. A data, celebrada no dia 25 de dezembro, cristianizou uma festa pagã. Os pagãos, em Roma, no dia 25 de dezembro celebravam o nascimento do sol. Então, a Igreja, também em Roma, começou a celebrar nesse mesmo dia o nascimento de Jesus Cristo, mas com um outro sentido, enfatizando que o verdadeiro sol que ilumina toda a humanidade é Jesus. Porque os evangelhos e outros escritos do Novo Testamento não nos dizem qual foi o dia exato do nascimento de Jesus. Por isso a Igreja estabeleceu 25 de dezembro para cristianizar a festa pagã. Agora estamos vivendo o processo inverso: a festa cristã está sendo paganizada, sobretudo por conta da busca pelo lucro, o que normalmente acontece de forma exagerada e exacerbada. Na raiz de tudo está a perda dos grandes valores cristãos: a noção de Deus, o sentido de Cristo na vida das pessoas. Essa perda de valores está trazendo consigo a desorientação da própria humanidade que, sem os valores explicitados, perde também os grandes referenciais e os grandes paradigmas que temos que conquistar através das igrejas. Esses valores precisam muito, e cada vez mais, intensificar sua ação evangelizadora e missionária a partir dos cristãos.
Os chamados “novos ateus” sustentam a ideia de que ciência e filosofia se sobrepõem a Deus. Por que o senhor acha que esse tipo de princípio está ganhando cada vez mais adeptos, principalmente entre a juventude e os intelectuais?
Cada vez que o ser humano se afasta de Deus acaba se afastando das outras pessoas e de si mesmo também. O grande pensador, um dos pais da psicologia, chamado Jung, diz que, quando o ser humano se coloca na intimidade do seu próprio ser, na raiz do seu ser, aí sim ele encontra a Deus. Ninguém precisa fazer essa busca longe, porque Deus está muito perto, está conosco. Jesus Cristo é chamado o Emanuel, que quer dizer “Deus conosco”. Portanto, Deus não é uma ideia abstrata nem um ser longínquo. Deus se faz presente no Natal, que é exatamente a festa da presença de Deus. É quando entendemos que Deus se encarna, se faz homem e, veio à Terra e se chama Jesus Cristo, o verdadeiro salvador da humanidade.
O senhor acha que é possível unir ciência e fé? Ou os dois aspectos são completamente excludentes e se negam?
Penso que ciência e fé se complementam. A ciência nos garante conhecimento, informação, crescimento. Porém, o espaço imenso da existência humana e sobretudo da descoberta é Deus. Enquanto isso, a fé surge para complementar a própria ciência, a busca pelo conhecimento humano. Não existe contraposição entre ciência e fé. Essa oposição é completamente falsa. Aliás, ela já foi superada no século XIX. Quem está trazendo novamente a oposição ciência e fé não está avançando. Ao contrário, quem pensa assim está fazendo um retorno às discussões do século XIX. Então, para nós, a ciência e a fé se complementam e não existe qualquer tipo de oposição entre uma e outra.
No ano de 2010 haverá eleições. Como o senhor acredita que é possível combater a corrupção em períodos eleitorais e ao longo do pleito? As denúncias de corrupção no Distrito Federal revelam que essa é uma chaga que não se fecha?
O correto é haver uma apuração rigorosa do que está acontecendo, em qualquer nível de governo e independentemente do período, se o ano é de eleição ou não. O que está acontecendo em Brasília deve ser apurado de forma rigorosa, rápida, transparente e, acima de tudo, justa. Isso vale para qualquer tipo de denúncia que envolva corrupção. Significa que é preciso assegurar a todos o amplo direito de defesa. Não se deve fazer qualquer tipo de pré-julgamento. Isso é muito perigoso, porque não podemos cometer injustiça. Aí também está incluída a mensagem de Cristo para o Natal e para qualquer tempo. Porque a busca pela paz só se efetiva através da justiça. Jesus falava e continua falando, através da sua palavra, diretamente ao coração das pessoas. Assim ajudou quem o buscou e a todos nós, mesmo que a atitude provoque reações inesperadas por parte dos governantes e de quem está à frente do poder.
Fique por dentro
Quem é dom Geraldo
Neste ano,dom Geraldo Lyrio Rocha, 67anos, completa 25 anos de episcopado. Além de celebrações em sua homenagem,o arcebispo de Mariana (Minas Gerais) ganhou selo alusivo às bodas de prata episcopal.O material começou a ser postado na última segunda-feira, nas agências dos Correios de Mariana. Em 2007, foi para a Arquidiocese de Mariana.No mesmo ano, foi eleito presidente da CNBB com 92% de votos. Natural de Fundão (Espírito Santo), estudou filosofia no em Belo Horizonte (Minas Gerais), Teologia, na Pontifícia Universidade Gregoriana,em Roma, Itália.DomGeraldo tem mestrado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino (Roma) e especialização em Liturgia, pelo Pontifício Ateneo Santo Anselmo(Roma). Antes do episcopado, foi reitor, pároco e professor de Liturgia, Filosofia, e de Teologia.
Marta Bruno
Repórter
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=711521
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Infelizmente hoje o Natal se tornou na verdade uma chuva de consumismo!
Onde as pessoas só pensam em bens materiais e se esqueceu que no Natal se comemora o aniversário de Jesus Cristo. È pra Ele que se deve voltar toda a nossa atensão. Celebrando o Natal selebra também a unidade das familia.