PRIMEIRA PARTE
MATERIAIS PARA OS SERMÕES
A dignidade do Padre
I
Idéia da dignidade sacerdotal
Diz Sto. Inácio mártir que a dignidade sacerdotal tem a supremacia entre
todas as dignidades criadas2. Santo Efrém exclama: “É um prodígio espantoso
a dignidade do sacerdócio, é grande, imensa, infinita3. Segundo S. João
Crisóstomo, o sacerdócio, embora se exerça na terra, deve ser contado no
número das coisas celestes4. Citando Sto. Agostinho, diz Bartolomeu Chassing
que o sacerdote, alevantado acima de todos os poderes da terra e de todas
as grandezas do Céu, só é inferior a Deus5. e Inocêncio III assegura que o
sacerdote está colocado entre Deus e o homem; é inferior a Deus, mas maior
que o homem6.
Segundo S. Dionísio, o sacerdócio é uma dignidade angélica, ou antes
divina; por isso chama ao padre um homem divino7. Numa palavra, concluí
Sto. Efrém, a dignidade sacerdotal sobreleva a tudo quanto se pode conceber8.
Basta saber-se que, no dizer do próprio Jesus Cristo, os padres devem
ser tratados como a sua pessoa: Quem vos escuta, a mim escuta; e quem
vos despreza, a mim despreza9. Foi o que fez dizer ao autor da Obra imperfeita:
Honrar o sacerdote de Cristo, é honrar o Cristo; e fazer injúria ao sacerdote
de Cristo, é fazê-la a Cristo”10. Considerando a dignidade dos sacerdotes,
Maria d’Oignies beijava a terra em que eles punham os pés.
II
Importância das funções sacerdotais
Mede-se a dignidade do padre pelas altas funções que ele exerce. São
os padres escolhidos por Deus, para tratarem na terra de todos os seus
negócios e interesses; é uma classe inteiramente consagrada ao serviço do
divino Mestre, diz S. Cirilo de Alexandria11. Também Sto. Ambrósio chama ao
ministério sacerdotal uma “profissão divina”12. O sacerdote é o ministro, que
o próprio Deus estabeleceu, como embaixador público de toda a Igreja junto
dele, para o honrar, e obter da sua bondade as graças necessárias a todos
os fiéis.
Não pode a Igreja inteira, sem os padres, prestar a Deus tanta honra,
nem obter dele tantas graças, como um só padre que celebra uma missa.
Com efeito, sem os padres, não poderia a Igreja oferecer a Deus sacrifício
mais honroso que o da vida de todos os homens: mas o que era a vida de
todos os homens, comparada com a de Jesus Cristo, cujo sacrifício tem um
valor infinito? O que são todos os homens diante de Deus senão um pouco
de pó, ou antes um nada? Isaías diz: São como uma gota de água… e todas
as nações são diante dele, como se não fossem13.
Assim, o sacerdote que celebra uma missa rende a Deus uma honra
infinitamente maior, sacrificando-lhe Jesus Cristo, do que se todos os homens,
morrendo por ele, lhe fizessem o sacrifício das suas vidas. Mais ainda,
por uma só missa, dá o sacerdote a Deus maior glória, do que lhe têm dado
e hão de dar todos os anjos e santos do Paraíso, incluindo também a Virgem
santíssima; porque não lhe podem dar um culto infinito, como o faz um sacerdote
celebrando no altar.
Além disso, o padre que celebra oferece a Deus um tributo de reconhecimento
condigno da sua bondade infinita, por todas as graças que ele há
sempre concedido, mesmo aos bem-aventurados que estão no Céu. Este
reconhecimento condigno nem todos os bem-aventurados juntos o poderiam
prestar; de modo que, ainda sob este ponto de vista, a dignidade do padre
está acima de todas as dignidades, sem exceptuar as do Céu.
Mais, o padre é um embaixador enviado pelo universo inteiro, como
intercessor junto de Deus, para obter as suas graças para todas as criaturas;
assim fala S. João Crisóstomo14. Santo Efrém ajunta que o padre trata familiarmente
com Deus15. Para o padre, numa palavra, não há nenhuma porta
fechada.
Jesus Cristo morreu para fazer um padre. Não era necessário que o
Redentor morresse para salvar o mundo: uma gota de sangue, uma lágrima,
uma prece lhe bastava para salvar todos os homens; porque, sendo esta
prece dum valor infinito, era suficiente para salvar, não um mundo, mas milhares
de mundos.
Pelo contrário, foi necessária a morte de Jesus Cristo para fazer um
padre: pois, doutro modo, — onde se encontraria a Vítima que os padres da
lei nova oferecem hoje a Deus, Vítima santíssima, sem mancha, só por si
suficiente para honrar a Deus duma maneira condigna de Deus? O sacrifício
da vida de todos os anjos e de todos os homens não seria capaz, como
acabamos de dizer, de prestar a Deus a honra infinita, que lhe presta um
padre com uma só missa.
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