A prática da mortificação corporal ou interior tem acompanhado a Igreja desde os seus primórdios, remonta aos apóstolos e foi praticada por muitos santos.
Pela mortificação, unimo-nos mais íntima e perfeitamente ao sofrimento redentor de Cristo que suportou a ignominiosa morte de cruz para nos remir dos nossos pecados com o Seu preciosíssimo sangue. Ele, o cordeiro sem mancha, a vítima salutar, ensina-nos que a dor é o melhor caminho de santificação, de crescimento espiritual, de purificação dos nossos pecados, de expiação pelos dos outros e de amor a Deus e às almas.
Deste modo, os sacrifícios voluntários que nos propomos realizar podem ter como finalidades:
- a reparação da honra ultrajada de Deus, da santíssima Virgem ou dos Santos;
- a conversão dos hereges e dos pobres pecadores nos quais estamos todos incluídos; neste sentido é lícito e até recomendável oferecer a Deus sacrifícios por amigos, familiares, vizinhos e por todos os que nos rodeiam e não O conhecem. Também pela Pátria.
- o alívio e libertação das almas do purgatório com a reparação das suas negligências;
- a união com o nosso Divino Salvador por meio do sofrimento. Este é, indubitavelmente, o motivo por excelência de toda a mortificação;
- a exaltação e vitória da Santa Igreja, sobre os seus inimigos internos e externos.
Pela prática da mortificação, aprendemos o valor do sacrifício, da renúncia e da abnegação, além de experimentarmos uma profunda união com o Redentor.
Além disso, a mortificação, particularmente a corporal, é também um meio de nos disciplinarmos e conseguirmos o auto-domínio das nossas más inclinações, paixões desordenadas e apetites desregrados. Assim, uma das finalidades principais da mortificação consiste em neutralizar as influências malignas que o pecado original continua a exercer nas nossas almas, inclusive depois de termos sido regenerados pelo baptismo.
A nossa regeneração em Cristo, apesar de vencer completamente o pecado em nós, deixa-nos ainda muito longe da rectidão e da paz originais. O Concílio de Trento reconhece que a concupiscência, isto é, a tríplice inclinação da carne, dos olhos e da soberba, faz-se sentir em nós, inclusive depois do baptismo, com o fim de nos levar sempre a uma maior firmeza no combate diário pela nossa santificação pessoal, o que supõe a aceitação dos sofrimentos involuntários e das cruzes quotidianas, bem como a imposição consciente, moderada e prudente de novos sofrimentos que nos unam mais ao sofrimento redentor de Cristo, correspondendo isto a uma autêntica vida cristã.
Trata-se pois de aniquilar, em nós, o homem velho, dominado pelo pecado, a fim de dar lugar ao homem novo, regenerado, de tal modo pela graça que, já não viva para si e para o pecado, mas somente para Cristo e para a vida nova que Ele lhe oferece, vida de santidade, de verdade e de amor.
Torna-se, então, necessário reduzir, praticamente à impotência, à inércia e à esterilidade, a influência em nós deste homem velho, o que só será possível pela prática da mortificação. É preciso impedir que ele nos dê o seu fruto próprio, que é o pecado, e anular a sua acção em toda a nossa vida moral.
Nesta perspectiva, A mortificação cristã deve estender-se a todos os homens e chegar a todas as actividades em que a nossa natureza se desenvolve.
Todavia, a prática da mortificação é, na actualidade, causa de polémica e até de escândalo por parte de muitos, que não compreendem nem o seu significado ascético e místico, nem os seus frutos na vida dos que a praticam.
No que concerne à mortificação corporal, As reservas da maior parte das pessoas, mesmo aquelas que se dizem católicas, são ainda maiores, dada a complexidade do problema e a falta de informação sobre a prática em questão.
Muitos são os que se negam, rotundamente, a aceitar que outros se mortifiquem. Consideram masoquista, retrógrada, ultrapassada e sem fundamento a prática da mortificação, principalmente a dos sentidos. Na sociedade actual, marcadamente consumista, materialista e ateia, o sofrimento cristão não é visto com bons olhos, facto este, facilmente comprovado pelas inúmeras tentativas de legalizar, por exemplo, a prática da eutanásia. Para tais indivíduos, a vida não terá qualquer sentido se nela formos obrigados a experimentar o sofrimento. Imagine-se, então, se esse sofrimento de que falo não nos é imposto, mas procurado por nós. Os supostamente tolerantes da modernidade não toleram a mortificação e o sofrimento voluntário.
Curiosamente, são precisamente esses hipócritas, que rejeitam a mortificação corporal cristã, os mesmos que aceitam outro tipo de mortificações corporais como as dietas exageradas a fim de perder peso, as exaustivas horas num ginásio, etc., etc. trata-se, pois, de saber se o que os incomoda é, de facto, a prática da mortificação ou a finalidade dela.
De muitos modos, pode praticar-se a mortificação. Em primeiro lugar, é importante sublinhar que a Igreja, na sua prudência de mestra e no seu amor de mãe, não nos recomenda mortificações excessivas que prejudiquem a nossa saúde ou nos levem à vaidade, ao orgulho e à soberba de nos julgarmos melhores do que os outros porque nos mortificamos e os outros não.
A Igreja recomenda e sempre recomendou, primeiramente, que aceitemos as pequenas contrariedades da vida diária, as alfinetadas, as pequenas cruzes, uma vez que só assim aprenderemos a suportar o sofrimento e a cruz. Há que ser fiel no pouco, no pequeno, para que haja constância e fidelidade no grande e no muito. O único que Deus exige de nós é que aceitemos a Sua divina vontade e a cumpramos paciente, resignada, alegre e amorosamente na nossa vida, o que não raras vezes é extremamente difícil, dada a nossa inclinação para o pecado, causando-nos grande sofrimento.
Se aprendermos a aceitar estas pequenas dores quotidianas, seremos fiéis nas grandes mortificações voluntárias corporais ou interiores que, mais tarde, nos queiramos impor.
Acrescente-se a tudo isto que quem se sente chamado por Deus à prática de mortificações corporais mais intensas deve ser acompanhado e orientado por um prudente director espiritual que saiba compreender esta necessidade de crescer em amor a Deus, a estimule e a dirija da melhor forma possível, a fim de que quem a ela se sente vocacionado não caia na vaidade, nem se sinta atormentado pela falta de compreensão e de estímulo a uma prática tão piedosa, excelente e santa; sempre tão recorrente na Igreja.
Deste modo, para nos mortificarmos diariamente não é necessário muito. Basta seguir algumas destas indicações, não todas, precisamente para não cair na soberba:
- jejuar pelo menos uma vez por semana. Recomenda-se a sexta feira para melhor nos associarmos à paixão e Morte de Nosso Senhor e às Suas dores, agradecendo-Lhe de todo o coração por nos ter remido. Também é recomendável o sábado em honra da Santíssima Virgem, visto que este dia da semana sempre Lhe foi consagrado pela Igreja. Este jejum pode ser feito de várias formas:
-a pão e água durante todo o dia ou somente durante umas horas determinadas previamente;
-um jejum de líquidos durante todo o dia ou numa parte dele;
-um jejum mais leve, o mais recomendável pela Igreja, para quem inicia a prática da mortificação. Consiste em abster-se apenas de uma refeição durante o dia.
- não beber água quando se tem sede; É uma excelente prática de mortificação.
- abster-se de carne na sexta-feira;
(Esta indicação, não só é uma mortificação que podemos oferecer a Nosso Senhor, como é absolutamente obrigatória e para ser seguida. Muitos católicos não sabem, mas continua a ser preceito que nos abstenhamos de carne durante todas as sextas-feiras do ano)
- suportar, com paciência, resignação e até com alegria, o frio, o calor, a fome, as calúnias, as injustiças e toda a espécie de inconvenientes e dores, físicas ou morais, que, à primeira vista, nos parecem insuportáveis; aqui também se incluem as pessoas por quem nutrimos uma antipatia natural. Tentar suportar as suas fraquezas e rezar por elas é, já por si, um acto de amor e de conformidade com a vontade de Deus.
Não pretendo esgotar o assunto com este texto, nem que esta lista seja o único critério de escolha. Esta é uma das muitas possíveis para iniciantes, para alguém que esteja, agora, a dar os primeiros passos nesta prática bimilenar da Igreja.
Muitas outras coisas se podem fazer no âmbito de uma tentativa de mortificação. Cabe a cada um procurar o que lhe é particularmente mais doloroso e difícil de suportar.
Por vezes, o mais doloroso é mesmo suportar alguém de quem não gostamos, comer algo que não apreciamos, sorrir para alguém por quem nutrimos alguma antipatia. Como isto é difícil! Oferecer ao Senhor aquilo que nos é mais dificultoso suportar é que é a verdadeira mortificação.
Depois de conseguirmos carregar estas pequenas cruzes, (que a meu ver não são nada pequenas), poderemos, com a ajuda do director espiritual, avançar para mortificações mais intensas. No entanto, recordemos que isto não é de forma nenhuma obrigatório e só deve praticar este tipo de mortificações quem tiver uma sólida formação doutrinal, moral e espiritual e quem a isso se sinta impelido por Deus. Estas mortificações mais intensas, recorde-se, só devem ser praticadas com autorização expressa do director espiritual ou a pedido dele. Ninguém se aventure a avançar para mortificações corporais mais intensas sem pedir licença ao seu director espiritual que, naturalmente, deverá ser um sacerdote piedoso, doutrinariamente ortodoxo, sábio e prudente.
Igualmente importante é a assistência regular e fervorosa ao Santo Sacrifício da Missa, fonte e origem por excelência de toda a mortificação. É da missa, renovação não sangrenta do sacrifício da Cruz, que nos advém o chamamento ao sacrifício e a força para o praticar.
Mortifiquemos, antes de mais, as nossas paixões, más inclinações, apetites; vaidades, opiniões. Humilhemo-nos perante um irmão, reconheçamos as nossas misérias e indignidade. Isto sim é sólida e verdadeira mortificação, porque a humilhação, o aniquilamento nos custam a todos.
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Fonte: Vida Espiritual Católica
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