A serva de Deus , com o Decreto de Beatificação assinado pelo Papa Bento XVI, no dia 16 de dezembro 2006, foi proclamada Bem-Aventurada no dia 20 de outubro do ano de 2007, na Diocese de Tubarão, em uma celebração eucarística presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano.
Albertina Berkenbrock – conhecida pelo povo da Diocese de Tubarão como “a nossa Albertina” – nasceu no dia 11 de abril de 1919, na comunidade de São Luís, paróquia São Sebastião de Vargem do Cedro, município de Imaruí, Estado de Santa Catarina. Filha de um casal de agricultores, Henrique e Josefina Berkenbrock, teve mais 8 irmãos e irmãs. Foi batizada no dia 25 de maio de 1919, crismada em 9 de março de 1925 e fez a primeira comunhão no dia 16 de agosto de 1928.
Aos 12 anos de idade, no dia 15 de junho de 1931, às 16 horas, Albertina foi assassinada porque quis preservar a sua pureza espiritual e corporal e defender a dignidade da mulher, por causa da fé e da fidelidade a Deus. E ela o fez, heroicamente, como verdadeira mártir.
O martírio e a conseqüente fama de santidade espalharam-se rapidamente de maneira clara e convincente. Afinal, ela foi uma menina de grande sensibilidade para com Deus e com as coisas de Deus, para com o próximo e com as coisas do próximo. Isso se depreende, com nitidez, de sua vida, vivida na simplicidade dos seus tenros anos.
Seus pais e familiares souberam educar Albertina na fé, no amor e na esperança, as virtudes teologais da religião cristã. Transmitiram-lhe, pela vida e pelo ensinamento, todas as verdades reveladas na Sagrada Escritura. E ela aprendeu a corresponder a tudo com grande generosidade de alma. Buscar em Deus inspiração e força para viver, tornou-se algo espontâneo. Rezava, pois, com alegria, seja sozinha, seja na família, seja na comunidade. Aprendeu a participar ativamente da vida religiosa, em todos os seus aspectos.
Quando chegou o tempo da catequese preparatória para os sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia, Albertina chamou a atenção pela forma como se preparou: com muita diligência e grandeza de coração.
A “primeira confissão” tornou-se porta aberta para se confessar freqüentemente.
A “primeira comunhão” foi uma experiência única, a tal ponto que ela própria afirmou: – “Foi o dia mais belo de minha vida!”.
A partir de então, não deixou mais de participar da Eucaristia, tornando esse sacramento “fonte e cume de sua vida cristã”. Gostava de falar, na sua forma simples de expressar-se, do mistério eucarístico como experiência do amor de Deus, compreendendo que a Eucaristia é o memorial da morte e ressurreição de Jesus, ato supremo do amor redentor.
Albertina cultivou uma devoção muito filial a Nossa Senhora, venerando-a com carinho, tanto em casa como na capela da comunidade. Participou, com intensidade, da oração do rosário junto com os familiares. Na simplicidade de coração, recomendou, seguidamente, a Maria – Mãe de Jesus e Mãe da Igreja – a sua alma e a sua salvação eterna.
Ela deixou crescer dentro de si uma afinidade muito grande com o padroeiro da comunidade, São Luís. Uma coincidência providencial, esta devoção ao Santo, que é modelo de pureza espiritual e corporal. Certamente, preparando-a também para um dia defender com sua vida este grande valor.
A formação cristã, vivida e ensinada pela família, introjetou em Albertina virtudes humanas extraordinárias: a bondade, a acolhida, a meiguice, a docilidade, o serviço. Teve uma obediência responsável; foi incansável nas atividades de trabalho e estudo; teve espírito de sacrifício; soube ter paciência, confiança e coragem.
Essas virtudes humanas foram visíveis na convivência em casa, pois sempre ajudou os seus pais e irmãos; foram visíveis na comunidade, uma vez que sempre amou todas as pessoas, o que a tornou muito admirada; foram visíveis na escola, tendo em vista que sempre se aplicou aos estudos, sempre esteve ao lado dos colegas mais necessitados de ajuda e jamais revidou ataques de menosprezo dirigidos a ela.
http://www.youtube.com/watch?v=W__3024lG7A
Os relatos que existem sobre ela comprovam o que está se afirmando em relação às virtudes humanas. Senão, vejamos: “(…) ajudava os pais nos trabalhos da casa e da roça (…) foi dócil, obediente, incansável, sacrificada, paciente (…) mesmo quando os irmãos a mortificavam, às vezes até lhe batiam, ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus que amava sinceramente”; “(…) gozava de grande estima na escolinha local, particularmente por parte do professor, que a elogiava por suas condições espirituais e morais superiores à sua idade, que a distinguiam entre os colegas de escola”; “(…) ela se aplicou ao estudo”; “(…) jamais faltou à modéstia”; “(…) foi uma menina boa, estimada por colegas e adultos”; “(…) às vezes, alguns meninos punham à prova a sua mansidão, modéstia, timidez e repugnância por certas faltas (…) Albertina então se calava (…) nunca se revoltou, menos ainda nunca se vingou, mesmo quando lhe batiam”; “(…) era uma pessoa cândida, simples, sem fingimentos”; “(…) sabia destacar sua beleza feminina vestindo-se com simplicidade e modéstia”.
Além dessas virtudes humanas, a formação cristã também modelou em Albertina as virtudes cristãs essenciais na medida em que, embora fosse uma menina de tenra idade, as entendeu e viveu: transpirando fé, amor e esperança no dia-a-dia; captando, de modo extraordinário, as verdades reveladas na Sagrada Escritura; tendo uma inclinação forte para as coisas de Deus e da religião; vivenciando com grandeza o mandamento do amor a Deus e ao próximo (cerne do cristianismo); santificando-se pela prática dos sacramentos recebidos do Batismo, da Reconciliação, da Eucaristia e da Crisma; valorizando a vida plena e a dignidade da mulher.
Essas virtudes cristãs foram visíveis no dia-a-dia de sua vida familiar e comunitária. Inúmeros relatos demonstram isso, como por exemplo: “(…) falava muitas vezes da Eucaristia e dizia que o dia de sua “primeira comunhão” fora o mais belo de sua vida”; “(…) recomendava a Maria sua alma e sua salvação eterna”; “(…) seus divertimentos refletiam seu apego à vida cristã (…) gostava de fazer cruzinhas de madeira, colocava-a em pequenas sepulturas, adornava-as com flores”; “(…) mesmo quando os irmãos a mortificavam, às vezes até lhe batiam (…) ela sofria em silêncio, unindo-se aos sofrimentos de Jesus que amava sinceramente”; “(…) o seu professor a elogiava por suas condições espirituais e morais superiores à sua idade que a distinguiam entre os colegas de escola”; “(…) aprendeu bem o catecismo, conheceu os mandamentos de Deus e seu significado”; “(…) se pensarmos na maneira como sacrificou sua vida, conforme declarou seu professor-catequista, ela tinha compreendido o sentido do sexto mandamento no que tange ao valor da castidade, da pureza espiritual e corporal”; “(…) sua caridade era grande (…) gostava de acompanhar as meninas mais pobres, de jogar com elas e dividir o pão que trazia de casa para comer no intervalo das aulas”; “(…) teve especial caridade com os filhos do seu assassino, que trabalhava na casa da família (…) muitas vezes Albertina deu de comer a ele e aos filhos pequenos, com os quais se entretinha alegremente, acariciando-os e carregando-os ao colo (…) isso é tanto mais digno de nota quanto Indalício era negro, sabendo-se que nas regiões de colonização européia uma dose de racismo sempre esteve presente”.
http://www.youtube.com/watch?v=o79qLBYnK0Q
Todas essas virtudes humanas e cristãs mostram que Albertina, apesar de sua pouca idade, foi uma pessoa impregnada da Trindade Santa. Correspondeu à vocação de santidade que recebeu no dia do batismo. Foi uma gigante de fé, de amor e de esperança. Viveu os valores do Evangelho de modo admirável.
Por todo o exposto, não há razão para estranhar a coragem e a fortaleza cristã manifestadas por Albertina no momento de seu martírio, a fim de defender a vida plena e a dignidade da mulher.
A Diocese de Tubarão e a Igreja do Brasil podem orgulhar-se em apresentar uma jovem como modelo de santidade para a juventude dos tempos de hoje e de sempre: a Bem-Aventurada ALBERTINA.
Dom Jacinto Bergmann, Bispo de Tubarão.
A sua Morte Histórica
Tudo corria normalmente até que chegou o dia 15 de junho de 1931.
Perdera-se um boi pelos pastos. Albertina o procura a pedido dos pais. Anda de cá para lá, olha, chama pelo “Pintado”, mas nada! De longe, Maneco Palhoça, que rumina dentro de si o plano de conquistar a menina para seus intentos eróticos, acompanha-a com o olhar e estuda como se aproximar dela e fazer-lhe a proposta.
Albertina, apesar de seus 12 anos, aparentava mais idade e tinha um corpo já bastante desenvolvido. Era alta e forte, acostumada ao sol e aos trabalhos da roça. Tinha cabelos louros tendendo ao castanho, olhos verde-escuros. Era bonita, uma mocinha. Como não desejá-la?
Maneco andava armado de punhal. Jurara que haveria de usá-lo no dia da festa do padroeiro, 21 de junho. Acabaria com a vida de dois desafetos. Hoje, porém, não o traz à cintura. Carrega um canivete tão bem afiado que corta os cabelos do braço como uma navalha. Aquele punhal, era preciso escondê-lo por ser velho conhecido dos moradores de São Luís. Poderia denunciá-lo… Em vez do punhal usaria o canivete. Quem sabia da existência dele?…
Albertina procura o boi fugitivo. De repente vê ao longe alguns chifres e corre naquela direção. Mas eram outros bois, que estavam amarrados. Como surpresa, porém, encontra perto deles Maneco carregando feijão na carroça. À pergunta de Albertina pelo boi desaparecido, o homem lhe dá uma pista falsa para encaminhá-la ao lugar onde poderia satisfazer seus desejos sem chamar atenção.
Maneco que já tinha violentado outra menina, disse naquela manhã: – Hoje tenho que matar alguém! Pensou: – Se Albertina não aceitar, vou usar o canivete…
Albertina seguiu a indicação de Maneco, embrenhou-se pela mata. Repentinamente percebe que os gravetos estalam, as folhas farfalham… Ela pensa ser o boi. Eis, porém, que, dá de cara com Maneco. Fica petrificada. Sozinha, no mato, com aquele homem na frente!
Ainda naquela manhã ela levara comida a seus filhos, como fazia sempre. Havia certa familiaridade entre Albertina e Maneco: ela o chamava de “Maneco preto”, como todo mundo, sem que ele se ofendesse.
Chegara o momento supremo! Maneco lhe propõe seus intentos. Albertina, decidida, não aceita. Sabe o que é o pecado e o recusa perentoriamente. Começa então a tentativa do assassino de se apossar de Albertina, mas ela não se deixa subjugar. A menina é forte. Aos pontapés, quase derruba o assassino. A luta é longa e terrível. Ela não cede. Derrubada, por fim, ao chão, agora está toda nas mãos do agressor. Ainda assim, defende-se, agarra seu vestido e se cobre o mais que pode.
Maneco, derrotado moralmente pela menina, vinga-se, agarra-a pelos cabelos e afunda o canivete no pescoço e a degola.
Está morta Albertina! Seu corpo está manchado de sangue… Sua pureza e virgindade, porém, estão intactas.
O Seu Sepultamento
Em torno das 18 horas do dia 15 de junho Albertina, morta, retorna à casa paterna… Não dá para traduzir em palavras os sentimentos dos pais e familiares, particularmente de sua mãe. Ver sua filha degolada, banhada em sangue! Ao mesmo tempo, que serenidade naquele rosto! Parecia dormir…
Em meio a tanta dor havia um conforto: Albertina tinha resistido, conservara sua pureza e virgindade…, do contrário não teria sido morta! Isso era claro, mas que custaria à parteira que ajudou Albertina a vir ao mundo, Martha Mayhöfer, ali presente, verificar? Ela verifica e testemunha: – Albertina não perdeu a virgindade.
O velório é cheio de emoção, lágrimas, orações e… raiva. Só Albertina está serena. Parece dizer: – Vocês ainda não compreenderam o que eu fiz? Dei minha vida por amor à castidade. Isso é um sinal para o mundo, de modo especial para minhas colegas de idade. Virá um dia em que vocês falarão de mim. Virão aqui junto ao lugar onde morri, virão a meu túmulo e rezarão pedindo proteção e graças. E eu, do céu, responderei. Não chorem. Em mim, a Igreja ganhou uma “santa” e uma “mártir”. Um dia vocês verão: bispos, padres, e até o papa se ocuparão comigo.
Dia 17 de junho, sob forte chuva, Albertina foi sepultada bem no centro do cemitério de São Luís.
Todos voltam para casa e se perguntam se foi sonho ou realidade o que aconteceu. E comentam: – Albertina não era uma menina qualquer. Era uma menina especial. Sua morte também não foi morte qualquer, foi morte especial, foi morte de “mártir” e, por isso, morte de uma “santa”. Sim, Albertina é uma “santa mártir”. É assim que o povo pensa. E nesses casos, quase sempre, a voz do povo é a voz de Deus.
Martírio de Santidade
É indiscutível a intenção pecaminosa do assassino: violar a pureza de Albertina, deflorar sua virgindade. Esse testemunho, ouvido de sua própria boca por colegas de prisão, é fundamental para determinar a exis-tência ou não de verdadeiro mar-tírio.
Que Albertina reagiu a essa pro-vocação, é evidente pelo fato de ter-se deixado matar. Se não bastasse este fato, também disto há o testemunho do assassino.
Com base nesses dois elementos, já no dia da morte de Albertina começou a formar-se entre o povo a convicção de que Albertina morreu mártir e, por isso, é santa.
Na verdade, não foi só pelo modo como Albertina morreu que o povo pensou assim. Todos também conheciam a educação cristã que ela recebera na família e na catequese. Sabiam de sua maneira de viver, de seu bom comportamento, de sua piedade e caridade.
Também é verdade que a fama de martírio cresceu ainda mais quando o povo foi informado do testemunho da parteira.
Por causa da fama de martírio de Albertina e de favores especiais obtidos por sua invocação, muitíssimas pessoas, individualmente ou em grupos, deram início a romarias ao lugar de sua morte e a seu túmulo no cemitério de São Luís. Pode-se afirmar que essa interminável peregrinação nunca foi interrompida, mesmo após 70 anos da sua morte. Disso são testemunhas as flores, as velas, os ex-votos depositados em seu túmulo, especialmente no lugar de seu “martírio”. E que dizer dos livros e cadernos que rapidamente se enchem de relatos de graças e de pedidos de proteção?
Pelos mesmos motivos são muitíssimas as mulheres que nesta região trazem o nome de “Albertina”. Só para exemplificar, na paróquia de Imaruí, de 1932 a 2000 são 226 as pessoas que foram batizadas com esse nome; na paróquia de Vargem do Cedro, de 1933 a 2000 são 48; na paróquia de Armazém, de 1940 a 2000 são 121…
Pelas mesmas razões ainda, apesar de o processo de beatificação ter ficado estagnado por cerca de 40 anos, o povo continuou a visitar o lugar onde Albertina foi morta e seu túmulo, a pedir-lhe graças…, como que levando adiante o processo de beatificação por própria conta.
Não há, pois, hesitação em afirmar que Albertina deve ser declarada mártir e santa: esta é a crença unânime do povo de Deus que a conhece.
A tudo isso se deve acrescentar que muito cedo começaram a correr relatos de graças alcançadas por intercessão de Albertina.
fonte:Beata Albertina
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