Beato José de Anchieta


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Missionário e Evangelizador dos índios

“Aqui fizemos uma casinha pequena de palha, e a porta estreita de cana. As camas são redes que os índios costuram; os cobertores, o fogo, para o qual, acabada a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e a trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, de pano de algodão… A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio e mais raramente ainda, alguma caça do mato.”
Trecho de carta de Anchieta a Inácio de Loyola -1554.

O Menino

O Menino Corria o ano de 1540. Depois de quase cinqüenta anos das grandes viagens de portugueses e espanhóis, as pessoas mais esclarecidas começavam a aceitar o fato de que a Terra era redonda.
Em meio a um burburinho de idéias novas e técnicas de navegação que se modernizavam rapidamente, o menino José de Anchieta, numa das sete ilhas que formam as Canárias, via descortinar-se a seus olhos um novo mundo. O porto de Tenerife, o mais importante do arquipélago, era parada obrigatória dos navios portugueses. Ali se abasteciam para seguir viagem rumo ao Oriente e ao Novo Mundo.
Acostumado desde pequeno a contemplar embarcações que se lançavam à aventura de conquistar novos mares, terras e riquezas, José provavelmente já acalentava o sonho de viagens e novos conhecimentos. Quem sabe esse impulso para o descobrimento de outras paragens e culturas o tenha levado também a escolher a carreira sacerdotal, a fim de cumprir o seu destino de construir uma obra abrangente e renovadora em terras virgens.

O Ocaso

O Ocaso Um olhar para o passado… O padre José, aos sessenta e dois anos, tinha ainda no coração aquela inquietude e sede de conhecimento do menino. Mas, o corpo cansado queria descansar da vida dedicada à aventura, à peregrinação, ao desbravamento de um mundo misterioso. Seus olhos se enchiam de satisfação ao lembrar como estava contente o menino aventureiro que ainda tinha dentro de si: fora ele quem sonhara a vinda para o Brasil; o trabalho de evangelização; a fundação da vila que se tornaria a metrópole de São Paulo; a participação no nascimento da cidade do Rio de Janeiro; o ensino do latim; o aprendizado e a uniformização da língua dos índios brasileiros; as agruras dos tempos de refém em Ubatuba; as batalhas; as reconciliações. O menino lançava para o velho olhares de alegria não só pelas grandes realizações, mas também pelo dever cumprido da evangelização.

“Vi-me agora num espelho e comecei de dizer: Corcós, toma bom conselho porque cedo hás de morrer. Mas, com justamente ver o beiço um pouco vermelho disse: fraco estás e velho. Mas pode ser que Deus quer que vivas, para conselho.”
Trecho de poema de Anchieta.

No outono da vida, Anchieta só podia percorrer curtas distâncias a pé, apoiado no inseparável cajado: a corcunda já não lhe permitia mais andar a cavalo. Mesmo assim, não deixava de cumprir suas visitas pastorais, uma herança da época em que era provincial. Aproveitou o tempo entre elas para escrever oito dos doze autos para a catequese. Nessas obras ele falava diretamente ao coração dos curumins, que assim recebiam a palavra de Deus. “Pandeirinha linda, ao faminto povo dais com vossa vinda pão de trigo novo. Não é d’Alentejo esse vosso trigo, mas Jesus amigo é vosso desejo.” Antes do Renascimento, ao longo da Idade Média, todo teatro se representava nos adros da Igreja, isto é na entrada da Igreja, não dentro do recinto do templo. Lá então se faziam durante a Idade Média as chamadas representações sagradas que são comuns a todas as culturas. Os autos são representações de momentos fundamentais do cristianismo, então existem os autos de Natal, da Semana Santa, da Paixão.
Anchieta provavelmente conheceu, ou nas Canárias ou em Portugal, principalmente em Coimbra, essas representações. Então ele transpôs esse universo para o Brasil. Só que ele teve, vamos dizer, a inteligência, o bom senso de escrevê-los em tupi, e secundariamente em português, o que faz supor que os autos eram assistidos e até representados também por colonos… Esse teatro de Anchieta é as vezes muito informal, são lutas entre o bem e o mal representadas pelos anjos bons e anjos maus. O demônio entra a todo o momento, sai e é espancado… Os índios deviam divertir-se muito com essas representações.”
Depoimento de Alfredo Bosi
Professor de Literatura Brasileira – USP

Reritiba, palco dos últimos anos de Anchieta, viu também o padre José dedicar suas noites à oração e ao trabalho de escrever a história da Companhia de Jesus no Brasil. Mas, como em todas as outras fases de sua vida, fatos extraordinários o acompanharam nessa etapa. As crônicas da época registram que por muito tempo toda a região de Vitória foi castigada por implacável seca. A fim de pedir a clemência dos céus, Anchieta organizou uma procissão em louvor a Nossa Senhora. Logo depois, os céus se abriram e a tão esperada chuva veio finalmente. Anchieta agradeceu a enorme graça recebida nesta igreja, hoje restaurada. A obra de Anchieta como apóstolo do Novo Mundo não haveria de passar despercebida das autoridades da Igreja, desde a época em que vivia. Mas, coube a João Paulo II, que presidiu a beatificação do padre José em 1980, o reconhecimento do Vaticano por sua dedicação à causa da evangelização. O Ocaso 2 O Ocaso 3

As Origens

“Criou-se José em casa de seus pais… aos 14 anos foi enviado, com outro irmão de maior idade, à celebérrima Universidade de Coimbra, que então florescia no mundo, para que ali aperfeiçoasse a língua latina e atendesse a maiores ciências. Estas versou nas escolas dos padres da Companhia de Jesus e cresceu nelas de maneira que em breve tempo foi consumado em todo gênero de humanidades…”
Trecho de A Vida do Venerável Padre José de Anchieta de Simão de Vasconcellos,S.J. -1623.

A própria ascendência de Anchieta já parecia destiná-lo a um futuro de grandes realizações. Nascido em São Cristóvão da Laguna, na Ilha de Tenerife, teve como pai João Lopes de Anchieta, da província de Guipuscoa. Revolucionário, tomou parte na Revolta dos Comuneiros contra o imperador Carlos V, na Espanha. Condenado à morte, foi salvo por interferência de um parente militar ilustre, o capitão Inigo de Loyola (Inácio de Loiola, mais tarde fundador da Companhia de Jesus). Por precaução, mudou-se para as Canárias. A mãe de Anchieta, Mência Dias de Clavijo y Llarena, natural das próprias Canárias, era neta de conquistadores.

O Voto

Ao fazer voto de castidade diante do Altar de Nossa Senhora, na Catedral de Coimbra, Anchieta tinha 17 anos. O mundo vivia uma fase de revelações assustadoras. Alguns cientistas mais avançados, entre eles o polonês Nicolau Copérnico, provaram que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário. Surgiam as literaturas nacionais, e o Renascimento marcava a expansão de todas as artes. Nesse mundo em rápida mudança, a religião católica entrou em crise. O poder antes monolítico e incontestável da Igreja de Roma passou a ser desafiado. Em vários países surgiram movimentos para reformar a fé cristã. O protestantismo – representado em especial pelas fortes correntes do luteranismo e do calvinismo – rompeu com a Igreja de Roma.

A Companhia de Jesus

A Companhia de Jesus Surgia dentro do catolicismo romano um movimento contrário ao dos protestantes, movido pelo espírito de reforma e liderado pela Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loiola. Os jesuítas estabeleceram sólida base em Portugal, de onde partiram para o Novo Mundo com as graças do rei Dom João III. O objetivo era catequizar os habitantes das terras recém-descobertas.
No mesmo ano em que Anchieta entrou para a Companhia de Jesus, Manoel da Nóbrega, seu futuro parceiro no Novo Mundo, chegava ao Brasil. A recém-fundada Companhia surgira sob um novo signo. A era das navegações tinha revelado à velha civilização européia praticamente outro planeta a ser explorado. Nações antes voltadas apenas para o Velho Mundo se convenceram de que teriam de expandir sua influência além de seus limites.

“…A vista primeira junto ao mar em grande parte pela natureza de altíssimos montes todos alegres, enfeitados e verdes, que quase excedem o vôo das mais ligeiras aves, os pirineus, os Alpes, os olimpos tão afamados da Europa, não tem que ver com estes grandes montes. Arrebatavam os olhos dos navegantes, que correm a costa, não só sua altura imensa, mas suas formas admiráveis, a frescura do arvoredo e o quebrar de suas águas que vem correndo do mar…”
Trecho do livro A Vida do Venerável Padre José de Anchieta
de Simão de Vasconcellos, S.J. – 1623.

Anchieta no Brasil

Anchieta no Brasil Era dia 13 de julho de 1553, quando Anchieta chegou ao Brasil, o “paraíso terrestre”, como descreviam os historiadores contemporâneos do padre. A Terra de Santa Cruz podia ser considerada um sanatório onde aportavam doentes com tuberculose, varíola e outras doenças contagiosas. Anchieta tinha 19 anos. era o mais jovem dos jesuítas na esquadra do Governador Duarte da Costa. A saúde do noviço melhorava sensivelmente. Quando desceu em Salvador estava praticamente curado.
Para José de Anchieta e todos os jesuítas que vieram evangelizar o Novo Mundo, os índios eram pagãos a serem convertidos.
O próprio papa Paulo III havia publicado, em 1537, a bula Sublimis Deus, que considerava todas as raças iguais em face da redenção.
Os evangelizadores acreditavam que não havia salvação fora da Igreja e até imaginavam, antes de conhecer as condições de vida na América, que qualquer pessoa só poderia ser católica se vivesse de acordo com a civilização cristã européia.
O irmão José acabou se tornando o elo de aproximação definitiva entre os índios e os padres. Conseguiu unificar a língua falada pelos nativos, com a qual apresentou a doutrina cristã.

De Salvador a São Vicente

De Salvador a São Vicente O jovem Anchieta, então com vinte anos, já tinha destino certo: a Capitania de São Vicente. Lá iria ajudar o padre Manuel da Nóbrega na catequização dos nativos. A viagem de Salvador a São Vicente foi, porém, extremamente difícil. Na altura de Abrolhos, no sul da Bahia, as duas naus em que viajavam Anchieta e outros jesuítas foram surpreendidas por uma tempestade. Uma delas, arremessada pelas ondas contra os rochedos, espatifou-se. Milagrosamente, ninguém morreu. A outra, em que estava Anchieta, acabou presa nos recifes. Seus ocupantes viveram uma noite de terror com a força das ondas, que o tempo todo ameaçavam destruir a nau. No dia seguinte, o mar amanheceu calmo e eles conseguiram chegar à terra.
Ao procurar comida, tiveram um encontro com os índios do lugar. Na aldeia, Anchieta viu uma indiazinha muito doente, à beira da morte. Batizou-a Cecília. Depois de consertado o barco, veio a hora da partida. Anchieta seguiu contente, pensando: “O acidente com o barco foi obra da Providência Divina. Era o meio de salvar a inocente Cecília, que estava predestinada.”

A Língua tupi e a evangelização

“…Era destro em quatro línguas: portuguesa, castelhana, latina e brasílica, e em todas elas traduziu em romances pios, com muita graça e delicadeza, as cantigas profanas que então andavam em uso…”
Trecho do livro Chronica da Companhia de Jesus do estado do Brasil
de Simão de Vasconcellos, S.J. – 1663.

“Oú tubixá katú mamó suí nde reká, nde pópe imeengatú. Aroporaséi serú
xe abé, xe anametá.” Tradução: “Veio cacique valente de longe a te procurar e às tuas mãos se entregar. Também trago meu parente para comigo dançar”.

Decifrar o tupi foi uma das tarefas que Nóbrega confiou a Anchieta. Em seis meses ele completou o aprendizado e, em um ano, dominava a língua. Dois anos depois de ter chegado ao Brasil, escreveu a sua Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, publicada em Portugal somente em 1595. Além da gramática, Anchieta dedicava seus dias a ensinar o latim e o português a curumins e índios adultos. Aos irmãos jesuítas, ensinava a língua tupi. O repouso não chegava à noite para ele. Era nessa hora que escrevia manuais para os alunos, cartas sobre o trabalho dos jesuítas e obras diversas, entre elas um dicionário de tupi e um tratado sobre a flora, a fauna e o clima da Capitania de São Vicente.

“O tupi de Anchieta é o tupi do século XVI. Esse tupi praticamente morreu no sentido de que a língua tupi foi marginalizada, foi substituída pelo português. Não se deu no Brasil o que ocorreu, por exemplo, no Peru e no México, onde os índios locais tinham tradições até de língua escrita e cujo dialetos permaneceram… Isso não aconteceu no Brasil. A experiência de Anchieta foi até certo ponto abortada, uma experiência que não foi levada até o fim. Ele escreveu em tupi, mas, como não houve nos séculos seguintes sucessores para a língua, o tupi foi substituído pelo português.”
Depoimento do prof. Alfredo Bosi

O Planalto de Piratininga

O Planalto de Piratininga No colégio de Piratininga a atividade era intensa. Muito mais do que um centro de aprendizado para portugueses e índios, esse colégio significava o início de uma estrutura independente para os jesuítas, que aqui podiam formar novos padres sem precisar mandá-los a Coimbra. Era o primeiro posto avançado da Companhia de Jesus em terras indígenas, distante das vilas portuguesas do litoral. A insistência dos jesuítas em não limitar suas explorações do território à faixa litorânea deu a eles um conhecimento mais amplo das possibilidades da terra. E Anchieta foi enviado ao Planalto de Piratininga para desbravar os novos campos. Dessa experiência ele dizia: ” é um caminho mui áspero, creio que o pior que há em muita parte do mundo, de atoleiros, subidas e matos.”

“…Tratava-se de uma trilha que pouco diferia das trilhas dos nativos. Os nativos, como nós sabemos, caminhavam pela Serra do Mar em trilhas que pouco davam para passar um homem… …O caminho foi alargado, melhorado e foram encontrados, então, diversos indícios que mostram que ali houve uma estrada muito utilizada, muito batida…” …Se nós quisermos estudar a história de São Paulo, ela praticamente está escrita aqui na Serra do Mar, em momentos decisivos: a fase da evangelização, logo ao primeiro século de colonização, depois a época em que os tropeiros pediram um caminho melhor, e finalmente, a época de D. Pedro II, quando se podia subir com carros de tração animal.”
Depoimento de Benedito Lima de Toledo
Professor Arquitetura e Urbanismo – FAU.

No topo da serra, grande foi a sua surpresa. Encontrou ali um povoado de mamelucos, chamado Santo André da Borda do Campo. O chefe desse povoado era um homem ardiloso, que se insinuou a princípio como aliado e depois acabou criando dificuldades para os jesuítas: João Ramalho, um ex-náufrago português, casado com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, caçava índios para vendê-los como escravos. O objetivo dos jesuítas, porém, era chegar à aldeia indígena de Tibiriçá, no vale do Anhangabaú.
Cumprido o objetivo, trataram de se instalar e fundar o Colégio, o que não ocorreu sem sangue. Logo no primeiro ano, o povoado sofreu violento ataque de tribos que resistiam ao contato com portugueses. Em compensação, os tupis do campo mostravam-se amigáveis e dispostos à evangelização.

“…Os antropólogos hoje julgam que o ideal seria ter deixado os índios com a sua própria cultura. É o pensamento contemporâneo. Parece-me um pensamento mais justo, isto é, os índios permanecerem com a sua religião, com os seus ritos, com a sua cultura, mas, relativamente falando, é muito complicado pensar que um jesuíta do século XVI viesse aqui e se abstivesse totalmente de influir, quando ele veio exatamente com a finalidade de converter…”
Depoimento de Alfredo Bosi.

O sino da igreja ditava a rotina do povoado de Piratininga. Pela manhã curumins e índios adultos, espontaneamente ou por imposição, atendiam aos chamados do sino para a Ave-Maria. Depois, as crianças passavam aos estudos e os adultos iam cuidar de seus afazeres. No final da tarde, o sino chamava para mais uma aula de religião. E, ao cair da noite, guiados pelos jesuítas, curumins e pequenos mamelucos saíam em procissão, da porta da igreja até a cruz.

“A unificação da língua é um fenômeno de homogeneização das diversidades da cultura indígena e foi um processo extremamente facilitador da conversão, seja porque dessa forma você, digamos, escamoteava as diferenças e unificava os índios na ordem comum de grupos convertidos, seja porque a conquista da língua tupi, inclusive da gramática de Anchieta, foi uma maneira de penetrar no âmago da estruturação da linguagem indígena e transfigurá-la na linguagem cristã.”
Depoimento de Celeste Tangerino
Antropóloga O Planalto de Piratininga 2 O Planalto de Piratininga 3

Tamoios X Portugueses

Tamoios X Portugueses O padre Manuel da Nóbrega, sabedor da facilidade de Anchieta em aprender línguas, de se comunicar com os índios e da sua resistência física, não hesitou, no ano de 1563, em levá-lo junto para as negociações de paz entre os índios tamoios e os colonos portugueses da região de Ubatuba. Oito anos antes, os franceses tinham se estabelecido na Baía da Guanabara, onde logo se aliaram aos tamoios contra os tupis e os portugueses. Várias tentativas de expulsar os invasores tinham resultado num impasse, com os dois lados combatendo o tempo todo. Os indígenas de Iperoig – hoje Ubatuba – também foram convencidos a se aliar a seus irmãos da Guanabara, formando a Confederação dos Tamoios. O governador Mem de Sá encarregara Nóbrega de tentar fazer os tamoios de Ubatuba desistirem dessa aliança.
Os tamoios estavam em duas aldeias: uma na praia, chefiada pelo cacique Cunhambebe, e outra no alto do monte, sob o comando do cacique Pindobuçu.

Anchieta entrou nas aldeias falando em voz alta, como era costume dos índios, em perfeito tupi. Em pouco tempo ele e Nóbrega puderam construir um pequeno altar na cabana que os abrigava. Auxiliado por Anchieta, Nóbrega passou a rezar a missa diariamente. Os índios, movidos pela curiosidade e atraídos pelas cores dos paramentos, passaram a assistir às missas. Anchieta começou a fazer pregações em tupi, abrindo o caminho para evangelizar a tribo.
Com Anchieta como intérprete, Nóbrega tratava da paz e ficou sabendo que os tamoios também queriam a paz. Estavam cansados de perseguir e matar portugueses, mas nada tinham a reclamar dos franceses da Guanabara, que lhes davam armas, ferramentas e roupas. O único obstáculo à paz eram os tupis, inimigos dos tamoios e aliados dos portugueses.
A cordialidade dos tamoios mal disfarçava a sensação contínua de perigo iminente. Nóbrega e Anchieta ficaram isolados do mundo: os navios em que tinham vindo estavam na Guanabara, onde também se tentava um acordo. E permaneciam sob constante ameaça dos índios mais exaltados, irritados com o simples fato de a tribo ter recebido os dois jesuítas amigos dos portugueses.
Logo Anchieta ficou inteiramente só. Nóbrega voltou a São Vicente para finalizar o tratado de paz. Passava horas em meditação caminhando pela praia. Começou, então, a compor e a decorar os versos de um longo poema dedicado à Virgem Maria. Terminado o cativeiro, escreveu de memória o poema inteiro.

“Eis os versos que outrora, ó Mãe Santíssima,
Te prometi em voto,
Enquanto entre tamoios conjurados,
Pobre refém, tratava as suspiradas pazes, tua graça me acolheu em teu materno manto
E teu poder me protege intatos corpo e alma.”
Trecho do Poema da Bem Aventurada
Virgem Maria Mãe de Deus – Padre José de Anchieta

“…A situação dos reféns era muito difícil. Nessa época Anchieta começou a escrever, talvez para se fortalecer espiritualmente, um longo poema à Virgem. É uma história de Nossa Senhora feita em partes com os pouquíssimos elementos que o Evangelho faz e muitas lendas e mitos, que vieram desde o começo do Cristianismo. É uma história muito longa, com mais de cinco mil versos que ele teria escrito na areia porque não teria condições de escrita lá entre os tamoios, em Iperoig.”
Depoimento do prof. Alfredo Bosi.

“A mundana soberba
Entumece um coração orgulhoso
E a paixão violenta anuvia-lhe os olhos.
Ele não te contempla, ó Virgem,
Envolvida nesse ninho fulgurante de luz e no clarão de tua eterna virgindade
Não admite que pudesses ficar com voto o teu coração,
Pisando triunfante o disco variável da lua.
Não crê que de seu tálamo pudesse sair o sol radiante
Sem rangerem as portas nos seus gozos.”
Trecho do Poema da Bem Aventurada
Virgem Maria Mãe de Deus – Padre José de Anchieta

Por fim a paz foi acertada. Depois de cinco meses como refém, Anchieta partiu com uma ponta de tristeza: sentia deixar desamparadas as almas que estava conquistando para Cristo. Os índios também não esconderam sua melancolia pela partida do pajé branco que falava com Deus, lhes ensinava a doutrina cristã e tratava de suas doenças.
No mesmo ano de 1563, o perigo da morte, com a qual Anchieta convivera diariamente em Ubatuba, voltou a ameaçar o jesuíta e os índios do Planalto de Piratininga: em sua volta o esperava a epidemia de varíola, espalhada pelos europeus, que mataria trinta mil índios em toda a costa brasileira. Os férteis campos de Piratininga logo se transformaram num vasto hospital a céu aberto.
Nessa ocasião, Anchieta valeu-se do conhecimento das ervas nativas que tinha desenvolvido. Nos casos mais graves, recorria aos sangramentos – em média de dez por dia -, que apavoravam os índios, já bastante assustados pela doença que nunca tinham visto. Tamoios X Portugueses 2 Tamoios X Portugueses 3 Tamoios X Portugueses 4

São Sebatião do Rio de Janeiro

São Sebatião do Rio de Janeiro Debelada a epidemia de varíola, a ameaça dos tamoios fez Nóbrega chamar de novo Anchieta. Desta vez tinham de ir à Guanabara, ajudar na fundação de um forte e uma cidade para fazer frente aos franceses apoiados pelos tamoios. O governador Mem de Sá incumbiu da tarefa seu sobrinho Estácio de Sá, que, para povoar o vilarejo, chamou gente de outras capitanias e até de Portugal.
Mesmo com a resistência do inimigo, o povoado, que recebeu o nome de São Sebastião do Rio de Janeiro, começou a se tornar realidade em janeiro de 1565.
Ali os portugueses, depois de muita luta, expulsaram os franceses e derrotaram definitivamente os tamoios em janeiro de 1567. Durante esses dois anos, Anchieta serviu como mensageiro, levando notícias dos acontecimentos do Rio a Mem de Sá, na Bahia. Ainda em 1566, numa dessas idas e vindas, o irmão José finalmente realizou na Bahia, aos trinta anos, o sonho de se tornar sacerdote, pelas mãos de Dom Pedro Leito, bispo do Brasil, que fora seu colega de estudos em Coimbra.

Obra de Fé

Obra de Fé O trabalho de Anchieta foi decisivo para a implantação do catolicismo no Brasil. Com seu conhecimento e sua fé, percorreu a pé, a cavalo, em embarcações, boa parte do território brasileiro. Além de abrir caminhos que se transformariam em estradas, contribuiu para manter unificado o país nos séculos seguintes. Lançou os fundamentos da catequese e educação dos jesuítas no Brasil e começou a reverter o quadro iniciado desde o descobrimento, em que os nativos eram vistos apenas como propriedade da Coroa e, como tal, passíveis de ser escravizados. Com seus dotes inatos de comunicador, conseguiu com o indígena um amplo entendimento. O homem de muitas faces que foi Anchieta transparece com nitidez nas palavras do poeta paulista Guilherme de Almeida:

“Santo erguestes a cruz na selva escura.
Herói, plantastes nossa velha aldeia
Mestre, ensinastes a doutrina pura
Poeta, escrevestes versos sobre a areia. Golpeia a cruz a foice inculta e dura
invade a vila multidão alheia,
morre a voz santa entre a distância e a altura
apaga o poema a onda espumante e cheia.”

Oratório do Beato Anchieta

Oratório do Beato Anchieta Em 25 de janeiro de 2002, foi inaugurado, nas dependências da Igreja, um oratório dedicado ao Beato José de Anchieta, cuja canonização está em andamento. O Pe. José de Anchieta teve papel destacado não somente na fundação do colégio que deu origem à cidade de São Paulo, mas também por seu envolvimento total com a evangelização dos indígenas e com sua cultura, razão pela qual é considerado o Apóstolo do Brasil. O oratório abriga duas relíquias significativas do Beato José de Anchieta: parte de um fêmur do jesuíta, além do manto largamente utilizado em suas incessantes jornadas catequéticas. Ainda no oratório, encontra-se uma cópia da certidão de batismo de Anchieta e uma imagem de Nossa Senhora da Candelária, padroeira das Ilhas Canárias, local de nascimento do Beato.

Todo este conteúdo foi extraído do site da TV Cultura: http://www.tvcultura.com.br/aloescola/historia/anchieta/index.htm

FONTE: http://www.pateodocollegio.com.br/newsite/conteudo.asp?i=i1&pag_id=39
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Beato Pe. José de Anchieta, sj
Nascido em 19/03/1534 – falecido em 9/06/1597

Nasceu José de Anchieta em San Cristobal de La Laguna, Ilha de Tenerife, uma das ilhas Canárias, da Espanha, em 19 de março de 1534. Depois de estudar um pouco de latim na sua terra, foi para Coimbra, no Colégio dos jesuítas, onde se tornou um dos melhores alunos e aprendeu a falar tão bem o português que parecia ser sua língua materna. Entrou para a Companhia de Jesus aos 17 anos, e por razão de uma grave enfermidade, não pode estudar Filosofia. Não se sabe ao certo que doença seria essa, talvez um acidente que produziu um deslocamento ou fratura da espinha dorsal; fato é que essa enfermidade o acompanharia por toda a vida, e seria o motivo principal da sua vinda para o Brasil, na esperança de cura. Aqui conseguiu melhorar muito e pode realizar seu apostolado. Abençoada doença! Nas nossas mãos ela teria se tornado fonte de lamúrias, nas mãos de Anchieta se tornaram uma chuva de bênçãos para o Brasil!

Em 8 de maio pronunciou os primeiros votos religiosos, e partiu para o nosso país na 3ª expedição de missionários jesuítas, chefiados pelo Pe. Luiz da Grã. Depois de chegar à Baía, foi destinado a São Vicente e depois a Piratininga, ali chegando em janeiro de 1554. Em 25 de janeiro foi fundado o Colégio de São Paulo, dia da conversão desse apóstolo; aí permaneceu como mestre de gramática e começou a estudar a língua tupi.

Esteve presente em todos os empreendimentos importantes na Capitania de São Vicente. Em companhia do Pe. Manuel da Nóbrega, chegou a praia de Iperoig (hoje Ubatuba, SP) em 5 de maio de 1563 , para negociar o armistício com os confederados Tamoios, tendo permanecido refém. Em 1565 foi à Baía para ser ordenado sacerdote, o que aconteceu em 22 de agosto de 1566. Voltou ao Rio, que nessa época enfrentava as batalhas finais contra Tamoios e franceses. Foi acompanhando o Visitador, Beato Inácio de Azevedo e ficou no governo das casas de São Vicente e São Paulo, de 1567 até 1577. Nesse ano foi à Baía, onde o esperava a patente de Reitor do Colégio, mas esta foi trocada pela de Provincial, em fins de ano.

Desde 1585 pediu dispensa desse cargo por causa das suas enfermidades. O cargo de Provincial exigia que todos os anos ele visitasse todas as casas da Província, ou seja, do Brasil, o que sempre fez, exceto quando impedido pela pouca saúde. Chegando seu substituto em 1588, foi destinado a superior das casas do Espírito Santo. Aí ficaria o resto de seus dias, com exceção de algumas interrupções, em que foi à Baía, em 92, para a Congregação Provincial, ou ao Rio de Janeiro como Visitador, em 93 e 94. Além da Casa de Vitória, ocupava-se do governo igualmente das aldeias de Reritiba, Guarapari, Reis Magos e Carapina.

Estando em Vitória e sentindo-se próximo do fim, pediu que o levassem à Aldeia de Reritiba, onde faleceu no Senhor em 9 de junho de 1597. Levado de volta à Vitória, foi recebido solenemente por todo o povo e autoridades, tanto eclesiásticas como civis. Desde aí foi chamado de Apóstolo do Brasil. Reritiba chama-se atualmente município de Anchieta.

Anchieta seguiu em tudo as atividades próprias dos jesuítas e demais missionários daquela época. Não só as praticou, mas distinguiu-se logo como mestre. Em 1560, escrevia ao Padre Geral, Diogo Laínes, em Roma:

“Quase sem cessar, andamos visitando várias povoações, assim de índios, como de portugueses, sem fazer caso de calmas, chuvas e grandes enchentes de rios, e muitas vezes de noite por bosques muito escuros socorremos aos enfermos, não sem grande trabalho, seja pela aspereza dos caminhos, como pela incomodidade do tempo, maxime sendo tantas estas povoações e tão distantes umas das outras, que nem nós bastamos acudir a tão variadas necessidades, como ocorrem, nem, ainda que fôssemos muitos mais, poderíamos bastar. A isto se ajunta que nós, que socorremos as necessidades dos outros, muitas vezes estamos mal dispostos e, fatigados de sofrimentos, desfalecemos pelo caminho, de maneira que apenas o conseguimos levar a cabo. Deste modo não menos necessidade de ajuda parece terem os médicos, que os enfermos. Mas nada é árduo aos que têm por fim somente a glória de Deus e a salvação das almas, pelas quais não duvidarão dar a vida“.(1)

Desde quando o Beato José de Anchieta era ainda moço espalhou-se a fama de suas virtudes. Ser comparado ao “Ir. José”, era ser comparado a um santo. Com o passar do tempo essa impressão foi se intensificando. Escreve um seu companheiro de apostolado, com quem dividia suas canseiras:

“É este Padre um santo de grande exemplo e oração, cheio de toda a perfeição, desprezador de si e do mundo: uma coluna grande desta Província e tem feito grande cristandade e conservando grande exemplo: de ordinário anda a pé, nem há tirá-lo de andar, sendo muito enfermo. Enfim: sua vida é vere apostolica“(2)

A pé de São Paulo ao litoral, de São Vicente ao Rio de Janeiro, do Rio ao Espírito Santo, e daí para a Porto Seguro e Salvador…E isso em um homem em que suas repetidas doenças levaram freqüentemente à porta da morte. Seu superior chegou a desejar que Anchieta deixasse de ser Provincial e não recebesse nenhum outro cargo, pois temia que já seria muito se continuasse vivo! Mas nada disso o fez esmorecer. Era tenaz e corajoso, enfrentando muitos perigos para realizar a sua missão. Desejou ardentemente o martírio enquanto esteve prisioneiro dos Tamoios em Iperoig (hoje Ubatuba, SP). Bom enfermeiro, lá salvou muitos índios da morte, tratando suas doenças e ferimentos.

Inteligente, ativo, dotado de qualidades literárias, dominava também a língua tupi tanto conversando como escrevendo. Pregava aos índios, em tupi, e arrancava aplausos! Suas palavras encantavam e atraíam o povo, convertiam os inimigos, pacificavam os adversários. Fisicamente franzino, tinha porém um espírito robusto, semblante alegre e amável.

Tinha 63 anos de idade quando morreu. Dos 46 anos como jesuíta, passou 44 no Brasil. Dele se contam muitos prodígios, profecias e milagres, curas e ressurreições de mortos, e até mesmo a familiaridade com pássaros e animais ferozes, como um São Francisco, um Santo Antônio de Pádua. Dele se diz que levitava em êxtase. Enfim, suas virtudes e qualidades, suas criações científicas e literárias, e um grande número de prodígios, cercou-o de tal fama, que tornou-se o mais popular e venerado de todos os jesuítas do século XVI. Conheça melhor a vida deste grande apóstolo e não deixe de ler sua biografia!

(1)Minhas cartas, por José de Anchieta. p. 61 (editadas por ocasião dos 450 anos de fundação de São Paulo).

(2)LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil, II, p. 484FONTE: http://www.santosdobrasil.org/?system=news&action=read&id=205&eid=222

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2 Comentários

  1. Marli Carlini disse:

    Estou terminando uma POS em tradução, Português/Espanhol, meu tema de dissertação será sobre o Padre José de Anchieta e seu poema sobre a Virgem.
    Não falarei sobre todo o poema e sim uma pequena parte.
    Gostaria de saber como posso conseguir o texto em português e espanhol?
    Obrigada
    PS: Esse artigo me será muito útil.

    • NINO disse:

      Você pode encontrar o livro nas Edições Loyola, Distribuidora Loyola ou na Paróquia S. Luis na Av. Paulista, 2378

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