Humildade e grandeza de São Frei Galvão
O dia 11 de maio de 2007 marca, na história do Brasil e de São Paulo, um acontecimento religioso da maior importância: a solene canonização, por S. S. o Papa Bento XVI, de Frei Antonio de Sant’Anna Galvão, fundador do Mosteiro da Luz, na capital paulista.
Embora o humilde e magnânimo franciscano, nascido em Guaratinguetá em 1739, e falecido em São Paulo em 1822, tenha passado quase toda a sua vida na então Capitania de São Paulo, a boa fama de suas heróicas virtudes ultrapassou largamente os limites dessa capitania (que era, na época, muito mais extensa do que o atual Estado de São Paulo).
Sua causa é, pois, não apenas paulista, mas eminentemente brasileira. É Frei Galvão, aliás, o primeiro brasileiro nato a ser canonizado.
“Humilde e magnânimo”, dissemos.
Sim, Frei Galvão se destacou de modo exímio na prática de duas virtudes aparentemente opostas: a humildade e a magnanimidade. Para bem entendermos e apreciarmos a vida cheia de ensinamentos desse novo Santo, que a Igreja nos propõe como modelo a ser admirado e imitado, convém recordar brevemente o que nos ensina a doutrina católica sobre essas virtudes.
Segundo São Tomás de Aquino, a humildade é a virtude que modera o sentimento que cada pessoa tem de sua própria excelência.
A humildade, ensina ainda São Tomás, é uma virtude derivada da temperança. A pessoa verdadeiramente humilde não extingue em si a noção das próprias qualidades; ela apenas modera devidamente o desejo dessas qualidades e o apreço por elas, reconhecendo o que realmente é, ou seja, uma mísera criatura em infinita dependência com relação a Deus, fonte e sustentáculo de todo o bem.
É por isso que os antigos autores espirituais diziam que a humildade consiste na verdade. Não é verdadeira humildade atribuir-se faltas ou defeitos morais inexistentes, como tampouco ignorar as reais qualidades que se possui.
Ninguém foi tão humilde como Nossa Senhora, que, no entanto, respondendo à saudação de Santa Isabel, cantou:
“A minha alma glorifica o Senhor…. porque lançou os olhos para a baixeza da sua escrava; por isso de hoje em diante todas as gerações me chamarão bem-aventurada. Porque fez em mim grandes coisas Aquele que é poderoso….” (Luc. 1,46-49).
A humildade não impede que a alma faça uso pleno dos talentos que recebeu de Deus, como também não impede a prática da magnanimidade.
A magnanimidade, ou grandeza de alma (de magna anima, alma grande), é a virtude que inclina a empreender obras grandes, esplêndidas e dignas de honra, em qualquer gênero de virtudes.
É parte integrante ou potencial da virtude da fortaleza. É, por excelência, a virtude contrária à mediocridade.
À magnanimidade se opõem os vícios da presunção (que inclina a acometer empresas superiores às forças), da ambição (pelo qual a pessoa busca honras indevidas a seu estado e a seu merecimento), da vaidade (vício capital do qual procedem muitos outros pecados, principalmente a jactância, o afã das novidades, a hipocrisia, a pertinácia, a discórdia, as disputas e as desobediências).
Também se opõe à magnanimidade outro vício, o da pusilanimidade
(etimologicamente, pequenez de alma).
Pusilânime é quem, por excessiva desconfiança de si próprio e de suas próprias forças, ou por mal entendida humildade, não faz frutificar os talentos que recebeu de Deus.
Um teólogo contemporâneo descreve a magnanimidade com palavras que — julgue o leitor pelos capítulos que lerá a seguir — bem se aplicam à personalidade de Santo Antonio de Sant’Ana Galvão:
“A magnanimidade supõe uma alma nobre e elevada. …. O magnânimo é um espírito seleto, requintado, superior. Não é invejoso, não é rival de ninguém, não se sente humilhado pelo bem dos outros. É tranqüilo, lento, não se entrega a muitos negócios ao mesmo tempo, mas a poucos, grandes ou esplêndidos. É veraz, sincero, não fala demais, é amigo fiel. Jamais mente, mas diz o que pensa, sem preocupar-se com a opinião dos demais. É aberto e franco, não é imprudente nem hipócrita. É objetivo em sua amizade, não se obcecando por não ver os defeitos do amigo. Não tem excessiva admiração pelos homens, pelas coisas, pelos acontecimentos. Só admira a virtude, a nobreza, a grandeza, o que é elevado, e nada mais. Não se recorda das injúrias recebidas: esquece-as facilmente e não é vingativo. Não se alegra demasiadamente com os aplausos que recebe, nem se entristece com os vitupérios; ambas são coisas medíocres. Não se queixa pelas coisas que lhe faltam nem as mendiga. Cultiva a arte e as ciências, mas sobretudo a virtude. É virtude muito rara entre os homens, já que supõe o exercício de todas as demais virtudes, às quais dá como que o acabamento. Na realidade, somente os santos são verdadeiramente magnânimos” (Pe. Antonio Royo Marín O.P., Teología de la Perfección Cristiana, BAC)
Bem entendidas as duas virtudes — humildade e magnanimidade — na vida de Frei Galvão elas foram praticadas exímia e heroicamente, sem se excluírem nem se contradizerem.
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Fonte: Catolicismo















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