Igreja condena seitas que molestam crianças


Print Friendly

D. Joaquim Lopes, Bispo de Viana, representou Angola no Sínodo dos Bispos, que se realizou no Vaticano, em Roma, em Outubro passado. Na reunião, bispos de todo o mundo debruçaram-se sobre um tema que preocupa os católicos, a Bíblia e o papel da palavra de Deus na vida e na missão da Igreja no momento actual. Em entrevista ao “Jornal de Angola”, D. Joaquim Lopes fala da sua presença no Sínodo, aborda a preparação da visita do Papa Bento XVI a Angola e dá a sua opinião sobre as seitas religiosas que acusam crianças de feitiçaria.

Adelina Inácio |

Jornal de Angola – Como estão os preparativos da visita do Papa Bento XVI a Angola?
Dom Joaquim Lopes – Todo mundo já foi informado, pela voz do próprio Papa, na basílica de S. Pedro, no Vaticano, em Roma, que ele vem a Angola logo a seguir aos Camarões. Essa visita vai efectuar-se no mês de Março. A Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé (CEAST) ainda não anunciou o programa. A CEAST vai organizar esta visita juntamente com o Governo da República de Angola, porque o Santo Padre vem na dupla qualidade de chefe da Igreja Católica e de Chefe de Estado do Vaticano. Uma comissão já esteve em Luanda. Vamos ter uma reunião extraordinária na CEAST, no próximo dia 15 de Dezembro. Creio que a partir desse dia, a Comunicação Social será informada de toda a programação da visita Papal. Os organismos estão a trabalhar e nós estamos a gizar a programação. Só a partir dia 15 de Dezembro ela pode ser tornada pública.

JA – Porque razão a visita do Papa vai limitar-se a Luanda?

JL- Contrariamente ao périplo que fez o Papa João Paulo II, em 1992, que visitou cinco capitais de província e também a República de São Tomé e Príncipe, desta vez o Papa Bento XVI fica apenas por Luanda. Se repararem nas últimas viagens, quando se desloca, o Papa não tem feito uma grande deambulação nos países em que visita. Compreende-se, devido à idade do Santo Padre e à sua agenda. Sair de Luanda implica accionar imensos mecanismos de segurança e organização. Muita agente não imagina, mas o Papa tem uma agenda tremendamente carregada, às vezes mais do que outro Chefe de Estado. O Santo Padre vai fixar-se durante três dias em Luanda. As representações das dioceses e a cristandade virão à capital. No programa vamos divulgar os locais para os fiéis e a população participarem nos actos públicos.

JA- Além de missas, que outras actividades religiosas se vão desenvolver durante a visita do Papa?

JL- Há sempre uma missa solene que envolve a população em geral em espaços vastos. Não sei se a Cidadela Desportiva será capaz de comportar a moldura humana que Luanda possui. Mas vamos estudar e depois comunicar em que lugar será a missa. Esse é um dos momentos altos da visita do Papa, o encontro com a população. O Santo Padre terá também encontros privados, por exemplo, com membros da CEAST, com os religiosos e religiosas de Angola, com os leigos empenhados e, evidentemente, com autoridades do Estado. A visita será objecto de um organograma que, como disse, a partir do 15 de Dezembro é comunicado a toda a população.

JA- Representou a Igreja Católica angolana no Vaticano. Pode descrever essa representação?

JL- Estive no mês de Outubro, no Vaticano, no sínodo, reunião em que os bispos da Igreja Católica se debruçaram sobre um tema que preocupa a Igreja, a Bíblia. Foi de 5 a 26 de Outubro e estiveram a trabalhar bispos de todo os continentes, falhou apenas a República Popular da China. Abordamos o papel da palavra de Deus, ou da Bíblia, na vida e na missão da Igreja no momento actual que o mundo atravessa. O sínodo é no fundo uma assembleia, a reunião magna dos Bispos de todo mundo. Cada país é representado por um bispo. Este sínodo foi ordinário e realiza-se normalmente de três em três anos. Em 2009, há um sínodo extraordinário, em Roma, exclusivamente para África. Nele vão participar alguns bispos da nossa Conferência Episcopal. Este sínodo está a ser preparado e até tem a ver com a visita do Papa. O Santo Padre vai aos Camarões entregar aos bispos de África, de forma simbólica, o documento final da preparação do Sínodo Africano.

JA- O que pensa das seitas religiosas que maltratam crianças?

JL- Chegou-me aos meus ouvidos, com algum eco, este assunto. A Igreja pronunciou-se, na diocese do Uíje, e noutras dioceses. Este fenómeno já está a ser analisado e tem muito a ver com questões culturais ainda não bem reflectidas ou amadurecidas. Por vezes, são aproveitadas também por seitas, agremiações ou associações de características místicas – mais do que religiosas e que, sem qualquer critério filosófico ou teológico, apenas por indução, sob ponto de vista dos aspectos tradicionais ligados a actividades do tipo fetichista, têm violentado as crianças e não só.
Acho que as sociedades despertaram para o problema e estão a envidar esforços para eliminá-lo. A Igreja continua o seu trabalho e vai colaborar com o Estado para detectar e procurar solucionar e até avisar as autoridades para uma intervenção mais rápida, quando estes casos surgirem. Estou convencido que o Estado está a fazer o seu papel. Temos um bom ordenamento jurídico neste campo.

JA- Qual tem sido o contributo da Igreja Católica neste caso?

JL- Sabemos que algumas casas de bispos da Igreja Católica têm recebido crianças acusadas de feitiçaria. Estamos a sensibilizar os fiéis, porque quando a religião não liberta as pessoas e se torna uma super-estrutura ideológica e fanática, não é religião. É exactamente o contrário de religião. A religião só tem sentido se realmente ajuda a equilibrar as pessoas e as anima para uma vida cada vez mais plena e um verdadeiro amor ao próximo, ao mundo, à sociedade e à construção do bem comum.
Quando há atitudes deste género, que tendem para o ramo da feitiçaria, da opressão, da atribuição de poderes do tipo fetichistas sobre as pessoas e, pior ainda, com as crianças, isto tem de ser banido com a maior urgência e com atitudes que, de facto, façam com que as pessoas deixem de imediato esse tipo de prática. Caso contrário, se pactuarmos, estaremos a contribuir para um autêntico desastre, a destruição da personalidade das pessoas e, tratando-se de crianças, atinge uma gravidade ainda maior.

JA – Qual a diferença entre igreja e seita religiosa?

JL – A linguagem depende, por vezes, também da sua utilização. Igreja significa assembleia, comunidade, povo reunido. Seita, geralmente, pelo menos em português, indica um grupo pequeno, de proporções mais reduzida e geralmente mais aguerrido, mais lutador, que procura um lugar ao sol, geralmente pelo fanatismo. Há códigos de Direito, como o francês, em que a palavra “seita” não é admitida. Mas, na maioria dos códigos ocidentais, religiosos e igrejas são quase sinónimos e indicam grupos volumosos. Talvez possamos encontrar uma nova definição de seita, que não seja ofensiva no sentido das pessoas que tomam parte nessas agremiações se sintam discriminadas.

Fonte: http://www.jornaldeangola.com/artigo.php?ID=96185&Seccao=politica

Mais Reportagens:

Faça um comentário