“Ó meu Jesus! É por vosso amor, pela conversão dos pecadores, pelo Santo Padre e em reparação dos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria!”
Muitas vezes esta frase brotou dos inocentes lábios de Jacinta, em meio às suas penitências pela salvação das almas.
Insaciável nas mortificações.
Desde
o momento em que ouviu da Santíssima Virgem o apelo para oferecerem sacrifícios Deus, a fim de evitar que os homens fossem condenados ao Inferno, a pequena pastora transformou-se numa chama que ardeu continuamente nessa intenção.
“Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão dos pecadores”, recorda a Irmã Lúcia, “que não deixava escapar ocasião alguma”.
Havia umas crianças, filhos de duas famílias da Moita, que batiam de porta em porta pedindo esmola. Encontramo-los, um dia, quando íamos com o nosso rebanho. Jacinta, ao vê-los, disse: – “Vamos dar nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conversão dos pecadores.” E correu a levá-las.
Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia ali algumas azinheiras e carvalhos. A bolota estava ainda bastante verde. No entanto, disse-lhe que podíamos comer dela. Francisco subiu numa azinheira para encher os bolsos, mas Jacinta lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o sacrifício de comer a amarga. E lá saboreamos aquele delicioso manjar! Jacinta fez disso um de seus sacrifícios habituais.”
Combinaram, então, sempre que encontrassem esses pobrezinhos, dar-lhes as suas refeições. E as crianças, satisfeitas com a generosa esmola, procuravam encontrá-los, esperando-os pelo caminho.
Assim que os via, Jacinta corria a levar-lhes todo o alimento do dia, alegre e animada.
Nessas ocasiões, os três comiam raízes de uma flor do campo, amoras, cogumelos ou fruta, se havia alguma ali por perto, em alguma propriedade pertencente a seus pais.
Estimulada por um extraordinário zelo das almas, Jacinta parecia mesmo insaciável na prática do sacrifício.
Conta sua prima que, certo dia, um vizinho ofereceu-lhes uma boa pastagem para o seu rebanho. Porém, ficava num lugar bastante longe, e estavam nos dias mais quentes do verão. Pelo caminho, encontraram os seus queridos pobrezinhos, e Jacinta correu a levar-lhes a esmola.
Sob um sol escaldante, a sede era cada vez maior e não havia um pingo de água para beber. A princípio, ofereceram o sacrifício com generosidade pela conversão dos pecadores. Mas, depois do meio-dia, era difícil resistir… Lúcia propôs de irem a um lugar próximo, pedir um pouco de água. Aceitaram, e lá foi ela bater à porta de uma velhinha, que, ao dar-lhe uma bilha com água, ofertou-lhe também um bocadinho de pão, aceito com reconhecimento, e logo distribuído entre os companheiros.
Em seguida, entregou a bilha a Francisco e lhe disse que bebesse.
– Não quero beber.
– Por quê? – Quero sofrer pela conversão dos pecadores.
– Beba você, Jacinta! – Também quero oferecer o sacrifício pelos pecadores.
Resultado: a água foi toda deixada na cova de uma pedra, para que dela bebessem as ovelhas… O calor, entretanto, tornava-se cada vez mais intenso.
As cigarras e os grilos juntavam o seu cantar ao das rãs numa lagoa vizinha, e faziam uma barulheira insuportável.
Jacinta, debilitada pela fraqueza e pela sede, pediu à prima, com aquela simplicidade que lhe era natural:
– Diga aos grilos e às rãs que se calem! Dói-me tanto a minha cabeça!
Francisco então lhe perguntou:
– Você não quer sofrer isto pelos pecadores?! A pobre criança, apertando a cabeça entre as mãozinhas, respondeu:
– Sim, quero. Deixe-as cantar.
E nunca se esquecia de levantar as mãozinhas e os olhos ao Céu, repetindo sua frase tão querida:
– Ó Jesus! É por vosso amor e pela conversão dos pecadores.
Admirável nos sofrimentos
Lúcia, a prima e amiga mais querida, a confidente de todas as horas, conservou para sempre uma enternecida lembrança daqueles últimos meses de Jacinta.
“Todo o tempo que me ficava livre da escola”, conta, “e de alguma outra coisa que me mandassem fazer, ia para junto dos meus companheiros. Um dia, Jacinta me pediu:
- Olhe! Diga a Jesus escondido que eu gosto muito d’Ele, que O amo muito, e que Lhe mando muitas saudades.”
“Outras vezes, quando ia primeiro ao quarto dela, me recomendava:
- Agora, vá ver o Francisco. Eu farei o sacrifício de ficar aqui sozinha.”
Mesmo enfraquecida pela doença, Jacinta não diminuiu a prática das mortificações. Certa manhã, sua mãe levou-lhe uma xícara de leite, e disse-lhe que o tomasse.
- Não quero, minha mãe – respondeu, afastando a xícara com a mãozinha.
Dona Olímpia insistiu um pouco e depois retirou-se, dizendo:
- Com essa falta de apetite, não sei como vou conseguir que ela tome alguma coisa!
Lúcia, que presenciara a cena, quando ficou a sós com a prima, perguntou-lhe:
- Como você desobedece, assim, a sua mãe, e não oferece este sacrifício a Nosso Senhor?!
Ao ouvir isto, Jacinta deixou cair algumas lágrimas, e disse:
- Agora não me lembrei!
E chamou pela mãe, pediu-lhe perdão e lhe disse que tomaria tudo quanto ela quisesse. A boa senhora trouxe de volta a xícara de leite, que a filha bebeu sem mostrar o mais leve desagrado. Quando sua mãe saiu, disse a Lúcia:
- Se você soubesse quanto foi difícil tomá-la! Mas não digo nada. Tomo tudo por amor de Nosso Senhor e do Imaculado Coração de Maria, nossa Mãezinha do Céu!
Noutra manhã, Lúcia a encontrou muito desfigurada, e perguntou se a prima estava pior.
- Esta noite tive muitas dores – respondeu – e quis oferecer a Nosso Senhor o sacrifício de não me virar na cama. Por isso não dormi nada…
Assim como Francisco, não lhe era mais possível trazer aquela áspera corda à cintura. E, como o irmão, também a entregou a Lúcia, dizendo-lhe:
- Guarde-a, pois tenho medo de que minha mãe a veja. Se eu melhorar, quero-a outra vez.
Pegando a corda, Lúcia notou que ela tinha três nós e estava manchada de sangue…
Com o tempo, aumentavam os incômodos e sofrimentos pró prios da bronco-pneumonia, suportados com admirável heroísmo e incansável desejo de salvar as almas. Lúcia pergunta-lhe um dia:
- Está melhor?
- Você sabe que não vou melhorar. Tenho tantas dores no peito! Mas não digo nada. Sofro pela conversão dos pecadores.
No entanto, como às vezes acontece nas doenças graves, Jacinta recuperou um pouco a saúde. Pôde ainda se levantar, e passava então os dias sentada na cama de Francisco. Foi nesse período de alguma melhora que a Santíssima Virgem lhes apareceu.
- Nossa Senhora veio nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu – contou ela à prima. – E a mim, perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-Lhe que sim. Disse-me que eu ia para um hospital, que lá sofreria muito. Que sofresse pela conversão dos pecadores, em reparação dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria, e por amor de Jesus. Perguntei se você ia comigo. Disse que não. Isto é o que me custa mais. Disse que ia minha mãe levar-me, e depois vou ficar lá sozinha.
Em seguida, Jacinta acrescentou:
- O hospital deve ser uma casa muito escura, onde não se vê nada, e eu estou ali a sofrer sozinha. Mas não importa: sofro por amor de Nosso Senhor, para reparar o Imaculado Coração de Maria, pela conversão dos pecadores e pelo Santo Padre.
Os dias passaram, e chegou o momento de Francisco ser levado para o Céu. Com a inocência e a confiança de quem se tornara íntima de Jesus e de sua Mãe Santíssima, Jacinta recomendou ao irmão:
- Dê muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora, e diga-Lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem, para converter os pecadores e reparar o Imaculado Coração de Maria.
Depois da morte de Francisco, embora soubesse que ele havia partido para junto da bondosa Senhora, sofreu muito com sua ausência. Passava longos momentos em silêncio, meditando, e se lhe perguntavam no que pensava, respondia:
- No Francisco. Quem me dera vê-lo!
E seus olhos se enchiam de lágrimas.
Fonte: http://www.arautos.org/view/show/230-jacinta-e-a-conversao-dos-pecadores
http://www.acnsf.org.br/article/267/Admiravel-nos-sofrimentos.html
(Livro Jacinta e Francisco Prediletos de Maria – Monsenhor João Clá)
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