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Líderes mundiais temem que lição de Auschwitz seja esquecida

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Líderes mundiais temem que lição de Auschwitz seja esquecida

Por Alexandra Prado Coelho
28.01.2005
Um apito, travões, uma porta a abrir-se de repente. No campo de Auschwitz-Birkenau ouviu-se ontem o som de um comboio a chegar. O mesmo som que entre 1941 e 1945 anunciava a chegada de mais condenados à morte. No 60º aniversário da sua libertação pelo Exército Vermelho o mais terrível dos campos da morte nazis estava coberto de neve.

Junto da velha linha de comboio, no local onde as SS faziam a selecção entre os que iam morrer imediatamente nas câmaras de gás e os que iam trabalhar até à morte, juntaram-se, numa impressionante homenagem, dezenas de chefes de Estado e responsáveis políticos, sobreviventes e membros da unidade soviética que libertou o campo no dia 27 de Janeiro de 1945.

Assistiram também à cerimónia em Auschwitz muitos jovens, num sinal da preocupação em passar a memória da Shoah às novas gerações, numa altura em que os últimos sobreviventes já não viverão muito mais. Todos os discursos foram marcados pela ideia de que lembrar sempre o horror do Holocausto é a única forma de impedir que ele se repita. E que – com os sinais que existem no mundo – isso não está garantido.

Foi para passarem essa memória, esse testemunho, que, apesar de idade avançada, os sobreviventes voltaram a Auschwitz e assistiram às cerimónias durante horas, debaixo de grossos flocos de neve, enrolados em cobertores, junto aos barracões onde, há 60 anos, no limite das suas forças, viram, sem ainda compreender bem, os soldados soviéticos entrar. “A neve estava a cair como hoje, estávamos vestidos com fatos às riscas e alguns de nós descalços”, recordou o sobrevivente polaco Kazimierz Orlowski.

O primeiro discurso coube ao antigo prisioneiro político e ex-chefe da diplomacia polaca, Wladislaw Bartoszewski, que falou em nome das vítimas não-judaicas para lançar uma acusação: “Os governos do Reino Unido e dos EUA sabiam bem o que se passava em Auschwitz-Birkenau. Nenhum país do mundo reagiu de forma apropriada à gravidade do problema”.

Falou, em seguida, a antiga presidente do Parlamento Europeu e antiga deportada em Auschwitz, Simone Veil, em nome das vítimas judaicas, para pedir ao mundo que se una contra “o ódio ao outro”. O mesmo apelo foi feito pelo presidente do Conselho dos Sinti e Roms da Alemanha, em nome da comunidade cigana (também condenada ao extermínio por Hitler). “O aumento da violência por razões racistas contra os Sinti e os Roms, a maior minoria da Europa, não atrai a atenção indispensável dos meios políticos e da opinião pública”, alertou Romani Rose.

“Temos medo…”

O mesmo medo surgiu nas palavras do Presidente israelita, Moshe Katsav. “Temos medo do anti-semitismo. Temos medo da negação do Holocausto, temos medo de uma abordagem distorcida da juventude da Europa”, confessou. E não deixou de criticar os aliados: “Era possível ter salvo vidas”.

O chefe de Estado que falou em nome dos libertadores, o russo Vladimir Putin, deixou também um forte sinal de preocupação com o mundo actual. “O terrorismo não é menos perigoso ou pérfido que o fascismo. E não é menos impiedoso: milhares de pessoas inocentes já caíram vítimas dele”. Mas se estas palavras tinham muito a ver com os problemas da Rússia com a república rebelde da Tchetchénia, Putin reconheceu também que o seu país enfrenta novamente problemas de crescimento do anti-semitismo. “Mesmo na Rússia, que fez mais do que outros para salvar as outras nações, vemos manifestações desta doença, e também eu me envergonho”.

Victor Iuschenko, o novo Presidente da Ucrânia, filho de um sobrevivente de Auschwitz, prometeu, num discurso emocionado, não permitir que volte a haver anti-semitismo no seu país.

Presente também na cerimónia esteve o Presidente alemão, Horst Koehler, representante do país que foi o grande responsável pela Shoah. Mas se a Alemanha pôs em prática o extermínio, outros países começam também a assumir as suas responsabilidades. O Presidente francês, Jacques Chirac, foi o primeiro líder deste país a reconhecer a responsabilidade da França, que permitiu a deportação de 76 mil judeus.

Ontem, em Budapeste, também o primeiro-ministro húngaro, Ferenc Giurcsani, numa cerimónia com membros da comunidade judaica da Hungria, reconheceu o “pecado” do seu país ao não defender os seus cidadãos judaicos. “A Hungria teve governos que não cumpriram os seus deveres. Não cometeram erros; cometeram pecados”.

Pela culpa, pela responsabilidade, pela memória, pelo medo de que o mundo esqueça, pelo medo de que volte a acontecer, milhares de velas iluminaram ontem em riscos de fogo as linhas percorridas pelos comboios que, há 60 anos, traziam os que vinham para morrer.

fonte: http://dossiers.publico.pt/noticia.aspx?idCanal=1383&id=1214406

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