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Lúcifer na Cidade de Deus e Conceito de Lúcifer na Umbanda e Lúcifer e a Rebelião Angélica

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Creio que Santo Agostinho (354-430) foi o segundo autor cristão a identificar o nome de Lúcifer com o diabo (o primeiro foi Orígenes). No tratado A Cidade de Deus ele usou a tradução da Vulgata para o verbete de Isaías 14:12 “Como caiu Lúcifer, que nascia de manhã?”, citando-a junto a um bom número de outras passagens avulsas para compor a história da origem do diabo. Trata-se de um arranjo providencial para proporcionar uma réplica crítica à doutrina dos maniqueus.

“Santo Agostinho Ora por Todo o Império Romano”

iluminura de uma edição francesa (séc. XV) da Cidade de Deus

Biblioteca Real da Bélgica, Bruxelas.

Abaixo da passagem em questão transcrevi parte do capítulo final de O Livre-Arbítrio no qual Agostinho pretende explicar como o pecado do orgulho levou o diabo “a passar do estado de anjo bom que era ao de demônio”. — S.M.

A Cidade de Deus

(Contra os Pagãos)

CAPÍTULO XV

Como se deve entender Isto: “O diabo peca desde o princípio”?

Não entendem que, se as palavras de São João a respeito do o diabo: O diabo peca desde o princípio indicam algo natural no demônio, não é pecado. Que responder aos testemunhos proféticos, quer ao que Isaías diz, figurando o diabo na pessoa do príncipe de Babilônia: Como caiu Lúcifer, que nascia de manhã?, quer às palavras de Ezequiel: Estiveste nas delícias do paraíso de Deus, estás adornado com toda a classe de pedras preciosas? Dá-se a entender em tudo isso que algum tempo esteve sem pecado. Mais expressamente o diz pouco depois: Em teus dias caminhaste sem vício. Se não se dá interpretação mais apropriada para isso, temos de, necessariamente, entender aquelas palavras: Não se manteve na verdade, assim: Esteve na verdade, porém não se manteve nela. E estas: O diabo peca desde o princípio, devemos entendê-las assim: Não peca desde o princípio de sua criação, mas desde o princípio do pecado, que começou a ser pecado com sua soberba. E o que está escrito no Livro de Jó, quando fala do demônio: Este é o princípio da obra de Deus, feito para escárnio de seus anjos, com o que parece concordar o salmo que diz: Este dragão que formaste para que o escarneçam, não deve ser entendido de maneira que pensemos haver sido criado desde o princípio para que os anjos o escarnecessem e sim que, depois do pecado, se lhe cominou semelhante pena.

Seu princípio é ser criatura do Senhor. Não existe natureza alguma, mesmo a do mais vil inseto, que não haja sido criada por Aquele de quem procede toda medida, toda beleza, toda ordem, bases indispensáveis de toda concepção, de todo pensamento. Como não seria o autor da criatura angélica, que a excelência de sua natureza eleva acima das outras obras de Deus?

O Livre Arbítrio

Capítulo 25

Confronto entre o orgulho e a sabedoria

74. O que pôde mover a vontade de nossos primeiros pais (Adão e Eva)? Mas a vontade não fica solicitada a um determinado ato, a não ser por meio de algum objeto, o qual vem a perceber. E se cada pessoa tem o poder de escolher o que aceita ou rejeita, ninguém possui o poder de escolher o que vai aceitar ou rejeitar. Ninguém pode determinar qual o objeto cuja vista o impressionará.

Ora, é preciso reconhecer: a alma fica impressionada pela vista de objetos, sejam superiores, sejam inferiores, de tal modo que a vontade racional pode escolher entre os dois lados o que prefere. E será conforme o mérito dessa escolha que se seguirá para ela o infortúnio ou a felicidade.

Assim, no paraíso terrestre, havia como objeto percebido: vindo do lado superior, o preceito divino, e vindo do lado inferior, a sugestão da serpente. Pois nem o que o Senhor ia prescrever, nem o que a serpente ia sugerir foi deixado ao poder do homem.

Contudo, ele estava certamente livre de resistir à vista das seduções inferiores, pois o homem tendo sido criado na sanidade da sabedoria achava-se isento de todos os liames que dificultavam a sua escolha. Podemos compreender isso pelo fato de os próprios insensatos chegarem a vencer-se e se elevarem até à sabedoria, ainda que lhes seja penoso renunciar às doçuras envenenadas de seus hábitos funestos.

O que moveu a vontade do demônio para se voltar para o mal?

75. Aqui pode ser colocada uma questão: uma vez que o primeiro homem encontrou-se na presença de dois objetos percebidos, de ordem oposta: de um lado, o preceito vindo de Deus e, de outro, a sugestão da serpente pergunta-se de onde teria vindo ao próprio demônio o desígnio de preferir a impiedade que o precipitou do alto de seu trono? Na verdade, se não tivesse sido impressionado pela vista de objeto algum, ele não teria escolhido de fazer o que fez. Pois, se nada lhe tivesse ocorrido ao espírito, não teria voltado de modo algum sua intenção para o mal. Logo, de onde lhe veio ao espírito o pensamento, fosse qual fosse o conteúdo dessa sugestão, de formar esse projeto que o levou a passar do estado de anjo bom que era ao de demônio?

Pois, realmente, aquele que quer, por certo quer alguma coisa. E ele não poderia querer esse intento se não lhe fosse assinalado exteriormente pelos sentidos, ou se não tivesse sido apresentado a seu espírito de alguma maneira secreta.

É preciso distinguirmos duas espécies de objeto de conhecimento: uma provindo de uma sugestão exterior premeditada, como foi o caso da tentação do demônio, a quem o homem cedeu, tornando-se pecador; outra provindo das realidades que estão submetidas à atenção de nosso espírito, ou à percepção de nossos sentidos corporais.

O que poderia vir a cair sob o pensamento direto do espírito, por certo, não seria a imutável Trindade, que não somente escapa ao domínio de nosso entendimento, mas ainda ultrapassa de muito a alma. Cai sob a ação do espírito, precisamente, o próprio espírito pelo qual temos consciência de viver. Em seguida o corpo, ao qual o espírito governa. É porque em cada ação ele move os membros que devem ser postos em movimento, quando preciso. Enfim, também, os sentidos corporais, que têm por objeto direto o conhecimento dos seres corpóreos.

O orgulho — principal fonte de toda má opção

76. Que a alma mutável possa se contemplar, comprazer-se de certa maneira em si mesma, na contemplação da suprema sabedoria, a qual sendo imensa não é a própria alma, isso vem de que ela, por não ser igual a Deus, possui entretanto belezas que, depois de Deus, podem encantá-la.

Sua beleza torna-se perfeita quando, perdendo-se de vista no amor de Deus imutável, esquece-se totalmente em sua presença.

Mas se, ao contrário, indo por assim dizer a seu próprio encontro, ela se compraz em si mesma, como por uma espécie de arremedo perverso de Deus, até pretender encontrar o seu gozo na própria independência, então se faz tanto menor quanto mais deseja se engrandecer.

Esse é o sentido das palavras: “O orgulho é o começo de todo pecado” (Eclo 10,13). E destas outras: “O início do orgulho humano é afastar-se de Deus” (Eclo 10,12).

Foi esse o pecado do demônio que acrescentou a inveja, a mais odiosa, até persuadir ao homem esse mesmo orgulho, em razão do qual ele tinha consciência de ter sido condenado. Mas aconteceu que a punição infligida ao homem foi destinada a corrigi-lo, mais do que a dar ao mesmo homem a morte.

Visto que o demônio apresentou-se ao homem como exemplo de orgulho, o Senhor apresentou-se a nós como exemplo de humildade e com a promessa de vida eterna. [...] Outrossim, se alguma sugestão procedente do apetite de bens inferiores vier a solicitar nossa atenção, deveríamos ser reconduzidos ao bem, pelo exemplo da condenação e dos tormentos eternos do demônio.

Textos extraídos de:

AGOSTINHO. A Cidade de Deus (Contra os Pagãos), parte II. Trd. Oscar Paes Leme. Petrópolis, Vozes, 2001, p 35.

AGOSTINHO. Confissões, De Magistro (Do Mestre). Trd. J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina; De magistro, tradução de Ângelo Ricci. São Paulo, Abril, 1980, p XIV. (Figura).

AGOSTINHO. O Livre-Arbítrio. Trd. Ir. Nair de Assis Oliveira. São Paulo, Paulus, 1995, p 237-240.

Fonte: http://vampirevich.multiply.com/journal/item/63

Conceito de Lúcifer na Umbanda

O seguinte texto provém do livro “No Reino dos Pretos-Velhos” (Pallas, 2003). Seu autor, Jose Maria Bittencourt, é presidente de vários Terreiros e Tendas de Umbanda no Paraná, membro do Círculo de Escritores e Jornalistas de Umbanda do Brasil, membro do Conselho dos CONDU (Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda) do Rio de Janeiro, presidente Fundador da Confederação Umbandista do Paraná, diplomado Pela Federação Espírita dos Cultos Africanos do Estado da Paraíba (Grau de Babalorixá), etc. — S.M.

A ORIGEM DO MAL

Havia na Côrte Celestial um anjo chamado Lúcifer, também chamado O Anjo Belo. O primeiro dos Querubins, possuidor de grandes conhecimentos o que o distinguia entre os demais anjos da Corte de Deus. Sucedeu que estranhos sentimentos de orgulho e vaidade começaram a penetrar no coração do Anjo Belo, levando-o a conspirar contra Deus, com o propósito de assumir o trono Di- vino. Não querendo o Pai Celestial eliminá-lo decidiu expulsá-lo do Paraíso, juntamente com os seus adeptos. Foi desta maneira que milhões de espíritos rebeldes, comandados pelo Anjo Belo, formaram o seu Reino.

O Positivo e o Negativo

Eis uma tese defendida por nós Umbandistas: Deus criou o Mundo, buscando em tudo a perfeição. Para que pudéssemos equilibrar a sua perfeição, foi estabelecida por Deus a dualidade, isto é, os opostos. Assim, em tudo existe o masculino e o feminino: Luz e trevas, água e fogo, polo negativo e polo positivo, etc. Isto posto, digo que também a nossa religião tem o seu lado oposto: Umbanda e Quimbanda. A Umbanda é o lado positivo, o lado bom da via espiritual, que conduz seus filhos pela estrada do bem até a presença do Supremo Mestre. A Quimbanda é o lado negativo, o lado oposto, com seus dogmas falsos, tendo à sua frente o Senhor absoluto das trevas sua Alteza Lúcifer, também conhecido como o Anjo Belo.

Saravá à Vossa Majestade,

Saravá ao seu Estado Maior,

Saravá ao Reino dos Exus.

Tudo se transforma

Há uma Lei Universal, ditada pelo Pai Amantíssimo, Supremo Criador do Universo, segundo à qual nada permanece em seu estado primitivo; tudo se transforma. Assim sucede com a Quimbanda que, com o auxílio da Umbanda (lado positivo), procura elevar-se a um plano melhor. Procurarei exemplificar da seguinte maneira; Existe o que chamamos hierarquia, como Exército, assim: soldado, cabo, sargento, sub-oficial, aspirante, tenente, capitão, major, coronel, general e marechal. As denominações são permanentes, porém seus ocupantes são transitórios, pois periodicamente há promoções no corpo das tropas, passando o soldado a cabo, o cabo a sargento, seguindo a escala hierárquica até o limite máximo, isto é, o capitão e majores, por fim o general a marechal, sendo feitas as promoções por merecimentos.

Por outro lado, existem também os chamados Golpes de Estado, onde as promoções obedecem a outros critérios. Na Quimbanda sucede algo semelhante: Há promoções e Golpe de Estado, mas os postos honoríficos permanecem os mesmos. Os ocupantes dos diversos postos procuram se elevar em posto ou espiritual. Quando um posto é promovido, em espiritual é eliminado, daí passando a trabalhar na Umbanda como Caboclo ou Preto Velho. O Estado Maior da Quimbanda vive em transformações seguidas, a Sua Alteza (posto máximo ocupado pelo Maioral), já sofreu e vem sofrendo várias modificações dos seus ocupantes, pois, segundo dados colhidos, a Sua Alteza é sempre um jovem de 33 anos, esbelto, cabelos louros e de fina educação. Mas, como pode permanecer para sempre no seu posto, pois outros jovens cobiçam o Posto Máximo. Tecendo outras considerações, afirmo que há recuperação dos elementos, porquanto o Pai Santíssimo está sempre nos dando oportunidade para a nossa recuperação espiritual, nunca deixando de lado os filhos menos esclarecidos. Se existe a Quimbanda, é pelo fato de distinguirmos o bem do mal. Como poderia haver a distinção se houvesse apenas um polo? Portanto, a Quimbanda é em suma, um mal necessário, pois se constitui no primeiro passo de nossa elevação espiritual.

Quiumbanda

A quiumbanda se constitui num verdadeiro flagelo do espaço sideral e da Terra. Os membros desta hoste são os chamados Quiumbas, os serrafilas das Quiumbandas, onde a sua disposição em fazer o mal está sempre presente, pois é só o que sabem fazer. Tendo sido marginalizados do astral, procuram de todas as maneiras a infiltração na sociedade, a fim de saciarem os seus desejos mesquinhos, espalhando a confusão entre os seres humanos. Quiumbas são espíritos atrasadíssimos composto de diversas classes, sendo que muitos ainda não encarnaram uma única vez. Exímios em mistificação, muitas vezes fazem-se passar por Caboclos e Pretos-Velhos, e até mesmo por Exus. Mas, há a Polícia do Astral, sempre vigilante na defesa de sua jurisdição contra esses verdadeiros salteadores do espaço. Quando apanhados são mandados conforme o seu estado, para hospitais, escolas, ou, em alguns casos, para prisões’ do astral. No entanto, o castigo da prisão costuma ser insuficiente para alguns. O que mais aterroriza aos Quiumbas é o perigo de não poderem encamar por um certo período, por isso é que fazem mil promessas aos encarregados da justiça do astral, buscando outra oportunidade de recuperação. Quando têm oportunidade de recuperação e não a aproveitam, são eliminados, isto é, impedidos de encarnar. Este é o maior castigo imposto a um Quiumba pela Polícia do Astral, nossos amigos Exus, que se encontram sempre vigilantes, protegendo-nos, juntos com a nossa generosa Umbanda. Por tudo o que foi dito, é fácil concluir que ser Exu é possuir um certo grau de elevação espiritual.

Texto extraído de:
BITTENCOURT, José Maria. No Reino dos Pretos-Velhos. Rio de Janeiro, Pallas, 2003, p 103-105.
Fonte: http://vampirevich.multiply.com/journal/item/65

Palavras do monsenhor Corrado Balducci, em seu livro Le possessione diabólica.


Satã é, antes de mais nada, uma criatura de Deus, tal como o homem, embora dotado de poderes e de uma natureza muito superiores. Mais precisamente é um anjo decaído.

Mesmo os anjos, antes de poderem desfrutar da eterna beatitude, foram postos à prova. E uma boa parte deles se rebelou, embora não tenham tido — como os humanos — a possibilidade de redenção, pois estavam plenamente conscientes de sua condição e da posição da divindade. Desde aquele momento fala-se em demônios e inferno.

Enquanto os anjos usam seu poder com prop6sitos positivos, os demônios os usam com fins maléficos e perversos, pois estão cheios de 6dio por Deus e pelos seres humanos. O senhor teve o poder de mandar todos os anjos rebeldes para o inferno, privando-os assim de qualquer oportunidade de fazerem o mal. Em sua infinita sabedoria e bondade, porém, permitiu que muitos deles permanecessem sobre a terra e exercessem seus poderes maléficos; contudo, apesar da vontade deles, os demônios representam um incentivo e um meio para se atingir a perfeição moral. Neste sentido, podemos dizer que o demônio é um instrumento e um coeficiente perene de santidade. Este desígnio é mais apropriado para a economia divina, que sabe como usar tudo, mesmo as piores de todas as coisas, para fazer algum bem.

Lúcifer e a Rebelião Angélica

Billy Graham

Pouca gente faz idéia da parte profunda desempenhada pelas forças angélicas nos acontecimentos humanos. Daniel é quem mais dramaticamente revela o conflito constante e amargo entre os santos anjos fiéis a Deus e os anjos das trevas aliados a Satanás (Daniel l0:11-14). Este Satanás, ou diabo, chamava-se antes “Lúcifer, o filho da aurora”. Juntamente com Miguel, ele deve ter sido um dos dois arcanjos, porém foi lançado para fora dos céus com as suas forças rebeldes, e continua a lutar. Satanás poderá parecer que esteja vencendo a guerra, porque às vezes ganha batalhas importantes, mas o resultado final é certo. Um dia ele será derrotado e despojado de seus poderes eternamente. Deus destruirá os poderes das trevas.

Muitos perguntam: “Como poderá ter surgido este conflito no universo perfeito de Deus?” O apóstolo Paulo denomina-o “o mistério da iniqüidade” (II Tessalonicenses 2:7). Embora não tenhamos obtido o volume de informações de que gostaríamos, de uma coisa estamos certos: Os anjos caíram porque haviam pecado contra Deus. Em II Pedro 2:4, as Escrituras dizem: “Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo”. Talvez o trecho correspondente em Judas coloque o encargo da responsabilidade mais diretamente nos ombros dos próprios anjos. “Os anjos”, escreveu Judas, bem refletidamente, “não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio”.

Assim, a maior catástrofe da história da criação universal foi a desobediência a Deus por parte de Lúcifer, e a conseqüente queda de talvez um terço dos anjos que se juntaram a ele na sua maldade.

Quando isso aconteceu? Em alguma ocasião entre a aurora da criação e a intromissão de Satanás no Jardim do Éden. O poeta Dante calculou que a queda dos anjos rebeldes teve lugar vinte segundos após a sua criação, originando-se do orgulho que tornou Lúcifer pouco disposto a esperar a época em que teria o conhecimento perfeito. Outros, como Milton, colocam a criação e a queda angélicas imediatamente antes da tentação de Adão e Eva no Jardim do Éden.

A questão importante, porém, não é “Quando foram criados os anjos?”, mas “Quando caíram”. É difícil supor que a sua queda tenha ocorrido antes de Deus ter colocado Adão e Eva no Paraíso. Sabemos como um fato que Deus descansou no sétimo dia, ou no fim de toda a criação, e proclamou que tudo era bom. Implicitamente, até que aquele tempo, mesmo a criação angélica era boa. Poderíamos então perguntar: “Por quanto tempo estiveram Adão e Eva no Paraíso antes da queda dos anjos e antes de Satanás tentar o primeiro homem e a primeira mulher?” Esta pergunta deverá permanecer sem resposta. Tudo que podemos dizer positivamente é que Satanás, que caíra antes de tentar Adão e Eva, foi o agente e leva a maior culpa porque não havia ninguém para tentá-lo quando pecou. Por outro lado, Adão e Eva viram-se diante de um tentador.

Desse modo, pegamos a história onde ela começou. Tudo principiou misteriosamente com Lúcifer. Ele era o mais inteligente e o mais belo de todos os seres criados do céu. Era provavelmente o príncipe reinante no universo abaixo de Deus, contra Quem ele se rebelou. O resultado foi insurreição e guerra no céu! Ele deu início a uma guerra que vem lavrando no céu desde o momento em que ele pecou e foi trazida para a terra pouco depois da aurora da história humana. Parece até uma crise do mundo moderno.

Isaías 14:12-14 registra a origem do conflito. Antes da sua rebelião, Lúcifer, um anjo de luz, é descrito em termos cintilantes em Ezequiel 28:12-17: “Tu és o sinete da perfeição, cheio de sabedoria e formosura. Estavas no Éden, jardim de Deus; de todas as pedras preciosas te cobrias… Eras querubim da guarda ungido, e te estabeleci. Permanecias no monte santo de Deus, no brilho das pedras andavas. Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti… Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor”. Quando o anjo Lúcifer se rebelou contra Deus e Suas obras, alguns calcularam que cerca de um terço das hostes angélicas do universo se teriam unido a ele na rebelião. Assim, a guerra que começou no céu continua na terra e verá o seu clímax no Armagedon [...].

Leslie Miller, no seu excelente livro Tudo sobre anjos, assinala que as Escrituras às vezes se referem aos anjos como astros. Isso explica por que antes de sua queda Satanás era chamado “a estrela da manhã”. E a esta descrição João acrescenta um detalhe significativo: “Sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra” (Apocalipse 12:4).

Rebelião no Céu

O apóstolo Paulo compreendeu e falou da guerra de rebelião nos céus quando se referiu ao antigo Lúcifer, agora Satanás como “o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Efésios 2:2). Declara ainda que ao lutarmos contra o reino organizado das trevas demoníacas, nós combatemos “os dominadores deste mundo tenebroso… as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Efésios 6:12).

Podemos considerar toda iniqüidade e transgressão contra Deus como “obstinação” contra a vontade de Deus. Esta definição aplica-se aos seres humanos atuais do mesmo modo que os anjos.

Os Cinco “Hei de” de Lúcifer

Lúcifer, o filho da aurora, foi criado, como todos os anjos, para glorificar a Deus. Entretanto, em vez de servir a Deus e louva-lo para sempre, Satanás desejou reinar sobre o céu e a criação no lugar de Deus. Ele queria a suprema autoridade! Lúcifer disse (Isaías 14): “Hei de subir ao céu”. “Hei de elevar meu trono acima dos astros de Deus”. “Hei de sentar, me igualmente no monte da congregação”. “Hei de me elevar acima da altura das nuvens”. “Hei de ser como o Altíssimo”. Sempre hei de… hei de… hei de… hei de…

Lúcifer não estava satisfeito de se achar subordinado ao seu criador. Queria usurpar o trono de Deus. Exultava ao pensamento de ser o centro do poder do universo — ele queria ser o César, o Napoleão, o Hitler do universo inteiro. O espírito do “hei de” é o espírito da rebelião. O seu ato foi audacioso, querendo destronar o Altíssimo. Ali estava um perverso intrigante que se via ocupando a suprema posição de poder e glória. Queria ser adorado, não adorar.

O desejo de Satanás de substituir a Deus como regente do universo deve ter estado enraizado num pecado básico que leva ao pecado de orgulho, por mim já mencionado. Por baixo do orgulho de Satanás movia-se furtivamente o mais mortal dos pecados, o pecado da cobiça. Ele queria o que não lhe pertencia. Cada guerra até aqui travada começou virtualmente devido à cobiça. A guerra no céu e na terra entre Deus e o diabo brotou certamente do mesmo desejo — o desejo ardente daquilo que somente a Deus pertencia.

Hoje em dia, como sempre no passado, virtualmente ninguém peca sozinho. As influências do pecado são contagiosas. A Bíblia fala do “dragão… e seus anjos” (Apocalipse 12:7), indicando que, juntamente com Lúcifer, miríades de anjos também resolveram contestar a autoridade de Deus e subseqüentemente perderam sua posição elevada. Eles resolveram participar do “programa de guerra” de Lúcifer. Como resultado de sua queda, esses anjos foram “reservados para o juízo” (11 Pedro 2:4) e têm sua parte juntamente com Lúcifer no “fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41). Mas até que isto aconteça eles constituem uma força poderosa — capaz de causar devastação entre pessoas, famílias e nações! Cuidado, eles são perigosos, perversos e mortíferos! Querem ter a você sob seu controle e pagarão qualquer preço para apanha-lo!

Satanás, o príncipe, decaído do céu, decidiu guerrear contra Deus até o fim. Ele é o artífice mestre, que tem planejado destruição em todos os séculos desde que se rebelou pela primeira vez. O espírito de “hei de” e o seu ódio implacável a Deus fizeram seu trágico registro nos anais da história humana. Na sua guerra contra Deus, Satanás utiliza a raça humana, que Deus criou e amou. Por isso, as forças do bem de Deus e as forças do mal de Satanás vêm travando um conflito mortal desde a aurora de nossa história. A menos que os líderes e estadistas mundiais entendam a verdadeira natureza desta guerra, eles continuarão a ser cegos a guiar cegos. Poderão apenas remendar um pouco aqui e ali. Não acharemos solução final alguma para os grandes problemas mundiais enquanto esta luta espiritual não tenha sido resolvida. E será resolvida na última guerra da história — Armagedon. [...].

Passado, Presente e Futuro em Perspectiva

Lúcifer tornou-se Satanás, o diabo, o autor do pecado. E o pecado é que tem sempre enganado, perturbado, traído, corrompido e destruído tudo que toca.

Porventura jamais terá um fim esta Batalha dos Séculos, esta guerra contra Deus cobiçosamente concebida em Lúcifer e perpetrada na terra?

A luta não se trava apenas na terra, mas também no céu. “Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos… e foi expulso o grande dragão, a antiga serpente” (Apocalipse 12:7,9).

Satanás e seus demônios são conhecidos pela discórdia que promovem, pelas guerras que provocam, pelo ódio que geram, pelos crimes que originam, pela oposição a Deus e Seus mandamentos. Estão entregues ao espírito de destruição. Por outro lado, os santos anjos obedecem ao seu Criador. Nenhuma voz discordante se faz ouvir entre os anjos do céu. Eles estão empenhados em cumprir os propósitos pelos quais rezam todos os verdadeiros filhos de Deus: “Venha o teu reino. Faça-se a tua vontade… como no céu”. (Mateus 6:10).

A Bíblia se refere a Lúcifer e os anjos decaídos como àqueles que pecaram e não mantiveram a sua posição inicial (Judas 6). Cometeram os pecados de orgulho e cobiça consumados. O pecado de orgulho em especial causou a queda de muitos homens. Se o orgulho pôde acarretar a queda de Lúcifer no céu, como não iria acarretar também a queda do homem mortal? Devemo-nos manter de sobreaviso contra o orgulho, do contrário estaremos destinados a uma queda nos moldes da de Lúcifer e seus anjos, que se transformaram em demônios.

Quereria Deus certificar-se de que os homens não poriam em dúvida a existência de Satanás e suas hostes de demônios? Talvez Ele tivesse isso em mente quando inspirou o texto de Ezequiel 28, que estabeleceu a tipologia de Satanás no sentido terreno. Esta narrativa do profeta Ezequiel se refere a um príncipe terrestre da cidade de Tiro. Ele parece ser um símbolo terreno de Satanás. Torna-se claro da leitura do trecho que o rei de Tiro tomou-se um demônio encarnado, uma ilustração terrena do Lúcifer celeste que se transformou no diabo.

Vivemos num perpétuo campo de batalha. A grande Guerra dos Séculos continua, feroz. As formações de batalha fazem pressão cada vez mais cerrada em tomo do povo de Deus. As guerras entre as nações na Terra são simples brinquedos comparadas com a ferocidade da batalha no mundo espiritual e invisível. Este conflito espiritual invisível é travado ao nosso redor de maneira incessante e incansável. Onde Deus opera, as forças de Satanás são estorvadas. Onde seres angélicos cumprem suas diretrizes divinas, os demônios vociferam. Tudo isso ocorre porque os poderes das trevas desfecham o seu contra-ataque para recapturar o terreno reservado à glória de Deus. [...] Paulo fala a verdade quando diz que as fortalezas das trevas são inexpugnáveis. No entanto, elas se rendem à guerra da fé e da luz, quando as milícias angélicas intensificam a guerra a fim de obter a vitória para nós (II Coríntios 10:4,5).

Satanás no Ataque

Em Apocalipse 12:10, Satanás é chamado “o acusador dos irmãos”, e Efésios 6:12 descreve os “principados e potestades… este mundo tenebroso… as forças espirituais do mal nas regiões celestes”. Embora Satanás e seus perversos sequazes desencadeiem sua guerra nos céus, parece que o seu empenho primordialmente consiste em destruir a fé no mundo.

Isaías 14:16-17 assinala claramente os objetivos de Satanás: ele trabalha para provocar a queda das nações, corromper os padrões morais e consumir os recursos humanos. Corrompendo a ordem da sociedade, ele deseja impedir a obtenção da ordem e abalar os reinos do nosso Deus. Ele utiliza o seu poder destruidor para criar devastação, incêndios, inundações, terremotos, tempestades, pestes, doenças e a destruição de povos e nações. A descrição do grande poder de Satanás termina com as palavras “que a seus cativos não deixava ir para casa” (Isaías 14: 1 7). Isso se refere, sem dúvida, à prisão de Satanás, Hades ou a morada dos mortos, tão claramente descrita em Lucas 16:19-31. Satanás tem grande poder. Ele é ardiloso e inteligente, tendo-se colocado contra Deus e Seu povo. Fará tudo que estiver em seu poder para manter as pessoas prisioneiras do pecado e arrasta-las para a prisão de separação eterna de Deus.

Desde a queda de Lúcifer, aquele anjo de luz e filho da aurora, não houve descanso na implacável Batalha dos Séculos. Noite e dia Lúcifer, o exímio artífice dos estratagemas das trevas, trabalha para frustrar o plano secular de Deus. Podemos encontrar inscritas em todas as páginas da história humana as conseqüências do mal realizado pelos poderes das trevas sob o comando do diabo. Satanás jamais cede um centímetro, nem detém a sua oposição ao plano de Deus de redimir o “cosmos” do controle do diabo. Ele tenta incessantemente pôr em dúvida a veracidade da Palavra de Deus, induz os homens a negarem a autoridade de Deus e persuade o mundo a chafurdar nos confortos ilusórios do pecado. “Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8 :44). O pecado é o fato assustador no nosso mundo. Assinala a sua ruína no vício e na concupiscência, nas convulsões da guerra, no egoísmo e na tristeza, nos corações partidos e nas almas perdidas. Continua sendo a tragédia do universo, o instrumento de Santanás para enfraquecer ou destruir as obras de Deus.

A Intriga Satânica

[...] Os ataques de Satanás, que começaram ao alvorecer da história, continuarão até que Deus comece a descer a cortina neste drama terrível em Armagedon… Através dos tempos, ele procurou desacreditar a Deus, tornando-O mentiroso aos olhos do homem. Ele nunca deixa de tentar depreciar as afirmações da Palavra de Deus e roubar à humanidade a força e o conforto da fé… Não é de surpreender que o decaído Lúcifer tenha tramado seu plano de usurpar a preeminência de Deus na Sua criação. Na primeira conversa no Paraíso, a serpente, que encarnava Lúcifer, indagou: “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gênesis 3:1). A isto veio a resposta: “Do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais” (Gênesis 3:3).

Lúcifer replicou que, se comerdes do fruto desta árvore “é certo que não morrereis” (Gênesis 3:4). Na verdade ele declara que Deus não sabe o que está dizendo. Satanás costuma operar interpondo uma pergunta a fim de levantar dúvidas. É fatal duvidar da Palavra de Deus! A estratégia de Satanás consiste em nos persuadir a racionalizar. Eva provavelmente começou a ponderar com o inimigo: Será possível que Deus seja tão injusto e cruel a ponto de proibir esta coisa aparentemente inocente? – “agradável aos olhos” (Gênesis 3:6). Eva parlamentou com o tentador… Se Adão e Eva tivessem resistido ao diabo, este teria fugido, derrotado para sempre. Mas eles caíram, e por isto a morte ocorreu a todos os homens (Gênesis 3:22). Foi aí que a morte teve início! O pecado funciona da mesma maneira junto a todos nós, não importa nossa condição, natureza ou ambiente. Somos corruptos por natureza porque esta foi a herança de nossos pais (Romanos 3:9)… O fétido da morte está por toda parte hoje! Assinala C.S. Lewis: “A guerra não aumenta a morte — a morte é total em cada geração”.

Extraído de:
GRAHAM, Billy. Anjos – Os Agentes Secretos de Deus. Trd. Cezar Tozzi. Rio de Janeiro, Record, 1999, p 79-89.

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