Maria e o pecado original


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Talvez nossa reação seja objetar: o que é que nos autoriza dizer que Ela foi concebida sem o pecado original?

Se os anglicanos soubessem o que nós entendemos por “pecado original”, não fariam esta pergunta. Nossa doutrina do pecado original não é a mesma dos protestantes. O “pecado original” como nós entendemos, não pode ser chamado “pecado” no sentido habitual, restrito, da palavra “pecado”. Trata-se de uma expressão significando o pecado de Adão, como nos foi transmitido, ou o estado ao qual o pecado de Adão reduz os seus filhos.

Os protestantes, por outro lado, parecem entender este termo no sentido de pecado, sendo esta palavra interpretada no sentido atual de pecado. Nós, com os Pais da Igreja, o consideramos como algo de positivo. Os protestantes pensam que existe uma enfermidade, uma mudança radical da natureza, um veneno ativo, corrompendo a alma desde o seu interior, infectando seus elementos essenciais e a desorganizando. Eles imaginam que nós atribuímos à Virgem Santa uma natureza diferente da nossa, diferente daquela de seus pais e daquela de Adão, caído no pecado.

Ora, não pretendemos nada parecido. Nós pensamos que Ela morreu em Adão assim como os outros; que Ela foi incluída, assim como toda a raça humana, na sentença que atingiu Adão; que Ela incorreu em sua dívida, assim como nós; excetuando-se que, por causa d´Aquele que devia, por sua vez, resgatar com o seu sacrifício na Cruz, a Ela e a todos nós, sua dívida foi remida por antecipação e que a sentença não foi executada sobre Ela.

Por pecado original, nós entendemos, como já declarei, algo de negativo, a saber: a privação da graça sobrenatural concedida gratuita e livremente a Adão e Eva, no momento de sua criação, a privação e as conseqüências de um fato íntimo por natureza.

Não mais do que eles, Maria não podia merecer a restauração da graça; esta foi restaurada nela, pela livre vontade de Deus, desde o primeiro momento de sua existência. Ela jamais se encontrou, então, sob o golpe da maldição original, que consistia na perda da graça.

Este privilégio lhe foi concedido com uma finalidade especial: prepará-la para se tornar a Mãe de seu Redentor, o Redentor d´Ela e nosso, e prepará-la sob o ponto de vista mental e espiritual, para que, auxiliada por esta primeira graça, pudesse crescer de tal forma na graça que, na chegada do Anjo e do Senhor, Ela estivesse “cheia de graças”, preparada, tanto quanto uma criatura possa estar, a recebê-lo em seu seio.


John Henri Newman
Lettre à Pusey (Carta a Pusey), 1866
(Lettre à un frère séparé sur la dévotion mariale des catholiques)
(Carta a um irmão separado sobre a devoção mariana dos católicos)

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