
Ao falar do matrimônio, São Paulo diz que ´ é grande este mistério ´( Ef 5,32). E o Apóstolo explica que é grande porque ´se refere a Cristo e à Igreja´. Jesus referiu´se a Ele como o Esposo, presente entre os convidados daquela bodas: ´o Esposo está com eles´ (Mt 9,15). Com esta imagem, Ele indicava quanto o amor de Deus para com o homem se reflete no amor de um homem e uma mulher, unidos em matrimônio. O Papa nos ensina, na Carta às Famílias, que a presença de Jesus nas Bodas de Caná, com a Mãe e os seus discípulos, realizando alí o ´primeiro´ milagre, ´pretende assim demonstrar quanto a verdade da família esteja inscrita na Revelação de Deus e na história da salvação´ (CF,18). S. Paulo ensina que o amor do casal é o reflexo do amor de Cristo para com a Igreja, e sua união sinaliza na terra, esta ´Aliança´ eterna e indissolúvel. Nesta lógica, o Apóstolo exige:´Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela, para santificá´la , purificando´a pela água do batismo com a palavra, para apresentá´la a si mesmo toda gloriosa, sem mácula, sem ruga, sem qualquer outro defeito semelhante, mas santa e irrepreensível´ (Ef 5,25´27).
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Essas palavras mostram que a Igreja é a Esposa de Cristo, objeto de todo o seu amor. Ele fez dela o seu próprio Corpo, que chamamos de Místico. Cristo tornou´se, então, ´uma só carne´ com a Igreja, fez´se a sua Cabeça. Isto levou o Apóstolo a dizer: ´As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o Chefe da Igreja, seu corpo , da qual ele é o Salvador.´ (Ef 5,22) Esta ´submissão´ só pode ser bem entendida quando se olha para a submissão da Igreja a Cristo. Longe de ser uma anulação ou escravidão, é uma cooperação amorosa com a cabeça que dirige o corpo. É, na verdade, uma submissão recíproca. Santo Ambrósio, bispo de Milão, que batizou Santo Agostinho, já dizia aos maridos no século IV: ´Não és o senhor, mas o marido; não te foi dada como escrava, mas como mulher… Retribui´lhe as atenções tidas para contigo e sê´lhe agradecido por seu amor.´ (Exameron, V,7,19) A experiência mostra que os casais e as famílias mais felizes, são aquelas em que a esposa coopera diligentemente com o marido na sua difícil tarefa de dirigir o lar. Aquelas mulheres que querem assumir o comando do lar, anulando o marido, muitas vezes experimentam a solidão e a insegurança. O perfil psicológico da mulher está muito mais para ser apoiada e protegida, do que para mandar. Só conseguimos entender bem o mistério do casamento à luz da Aliança de Deus com a humanidade, desde Adão, até a nova e eterna Aliança de Cristo com a Igreja. O matrimônio cristão tem estas três características: Indissolubilidade, Fidelidade e Fecundidade, exatamente porque essas são as características do amor de Cristo para com a Igreja. É uma Aliança indissolúvel, eterna, celebrada uma vez para sempre no sangue do Cordeiro; é uma Aliança que não admite traição de ambas as partes; e é uma Aliança fértil de onde renascem os filhos de Deus pelo Batismo. O Catecismo da Igreja mostra bem esta verdade: ´O amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todos os componentes da pessoa – chamada do corpo e do instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração do espírito e da vontade; o amor conjugal dirige´se a uma unidade profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, não conduz senão a um só coração e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a fidelidade da doação recíproca definitiva e abre´se na fecundidade´ (CIC, 1643). A aliança de Deus para com Israel apresenta´se sob a imagem de um amor conjugal exclusivo e fiel. Os profetas prepararam a mentalidade do povo de Deus para compreender com profundidade a unicidade e indissolubilidade do Matrimônio. Na Antiga Aliança, o Esposo é o próprio Deus, Javé, que se apresenta como o Esposo de Israel, povo eleito: um Esposo fiel e ciumento, terno e exigente. Todas as traições de Israel, deserções e idolatrias, dramaticamente descritas pelos Profetas, não conseguem acabar com o amor deste Deus´Esposo, que em Jesus Cristo, finalmente, ´ama até o fim´ (Jo 13,1), este povo que o rejeita e o leva à Cruz. ´Pois teu esposo é o teu Criador, chama´se o Senhor dos exécitos, teu Redentor é o Santo de Israel, chama´se o Deus de toda a terra. Como uma mulher abandonada e aflita eu te chamo; pode´se repudiar uma mulher desposada na juventude? Por um momento eu te havia abandonado, mas com profunda afeição eu te recebo de novo.´ (Is 54,6´7). O profeta Malaquias mostra bem a aliança de Deus com Israel, como no matrimônio: ´Eis ainda outra maldade que cometeis: Inundais de lágrimas, prantos e gemidos o altar do Senhor, porque o Senhor não dá atenção alguma a vossas ofertas e não se comprais no que lhe apresentais com vossas mãos. E dizeis: Mas, por que?! É porque o Senhor foi testemunha entre ti e a esposa de tua juventude. Foste´lhe infiel, sendo ela a tua companheira e a esposa da tua aliança… Tende pois cuidado de vós mesmos, e que ninguém seja infiel à esposa de sua juventude. Quando alguém, por aversão, repudia a mulher, diz o Senhor, Deus de Israel, cobre de injustiça as suas vestes, diz o Senhor dos exércitos. Tende pois cuidado de vós mesmos e não sejais infiéis´. (Ml 2,13´17) Jesus levou o casamento à perfeição quando disse aos fariseus: ´O que Deus uniu, o homem não deve separar´. (Mt 19,6)
Aos poucos vamos compreendendo melhor porque São Paulo disse que ´é grande este mistério´. A Igreja nos ensina no Catecismo que: ´O casamento não é uma instituição simplesmente humana, apesar das inúmeras variações que sofreu no curso dos séculos, nas diferentes culturas, estruturas sociais e atitudes espirituais´ (CIC,1603). O Código de Direito Canônico da Igreja, ao conceituar o matrimônio diz: ´A aliança matrimonial pela qual o homem e a mulher constituem entre si uma comunhão da vida toda, é ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à geração e educação da prole, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de sacramento, por Cristo Senhor´ (CDC, cân.1055,1). A História Sagrada é uma contínua procura de Deus pelo homem, para celebrar uma Aliança com ele. Por isso ´aliança´ é uma palavra chave para se compreender as Escrituras, que descrevem as duas Alianças, uma mostrada pelo Antigo Testamento, celebradas com Adão, Noé, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Josué, os Juizes, os Reis,…e a outra, mostrada no Novo Testamento, celebrada em Jesus Cristo, Nova e Eterna. Não é apenas a Igreja universal que é a Esposa de Cristo; mas também as igrejas particulares; e, de modo especial, a família, como diziam já os Santos Padres, ´igreja doméstica´. Na Carta às Famílias o Papa nos recorda esta verdade: ´A própria família é o grande mistério de Deus. Como ´igreja doméstica´, ela é a ´esposa de Cristo´… Somente se tomam parte em tal amor e nesse ´grande mistério´, é que os esposos podem amar ´até o fim´…´ (CF,19).

Ora, quando nós casados colocamos uma aliança no dedo, isto quer sinalizar aqui na terra esta eterna Aliança que Deus quer com o homem. Daí vem toda a profundidade teológica do sacramento do matrimônio. Quando ele é celebrado entre batizados, Cristo se insere na vida do casal para ajudá´los a reproduzir em suas vidas a mesma unidade e amor da Sua Aliança com a Igreja. Assim se expressa o Papa João Paulo II, sobre este grande mistério: ´… o matrimônio dos batizados torna´se assim o símbolo real da Nova e Eterna Aliança, decretada no Sangue de Cristo.´ (FC, 13) É muito importante notar que a Escritura abre´se com a criação do casal humano, chamados a serem ´uma só carne´, e fecha´se com as núpcias do Cordeiro com a Igreja. ´Alegremo´nos, exultemos e demos´lhe glória, porque se aproximam as núpcias do Cordeiro. Sua Esposa está preparada. Foi´lhe dado revestir´se de linho puríssimo e resplandecente. … Escreve: ‘Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro’ ´ (Ap 19,7´9). Assim será o fim da história da humanidade. Ora, Deus quer que em cada casal este mistério seja representado e vivido através do casamento. ´É grande este mistério´; por isso, cada casal cristão deve viver a sua vida conjugal e familiar nesta altíssima vocação a que foi chamado. Na vida de cada casal se concentra a história do amor de Deus por nós, e o amor de cada casal deve ser testemunho disto ao mundo. O Catecismo da Igreja diz que ´de um extremo ao outro, a Escritura fala do casamento e do seu ´mistério´, de sua instituição e do sentido que lhe foi dado por Deus, da sua origem e do seu fim, das suas diversas realizações ao longo da história da salvação, de suas dificuldades provenientes do pecado e de sua renovação ´no Senhor´, na nova aliança de Cristo e da Igreja´ (CIC, 1602).
Por causa do pecado original, o casamento foi afetado na sua harmonia; por isso Cristo o renovou transformando´o em sacramento. Por isso, São Paulo exigia que fosse realizado ´no Senhor´: ´A mulher está ligada ao seu marido enquanto ele viver. Mas se morrer o marido, ela fica livre e poderá casar´se com quem quiser, contanto que seja no Senhor´ (1Cor7,39). Este ´casar´se…no Senhor´, a Igreja interpreta como unir´se em casamento somente através do sacramento do matrimônio, a fim de participar das bênçãos do Senhor. Lamentavelmente, mesmo entre católicos, há muitos que se casam apenas diante do juiz, como se o sacramento fosse apenas uma mera tradição vazia dos seus pais. Que engano! Não casar´se na Igreja, é não casar´se no Senhor; isto é, não contar com a sua presença na vida conjugal. As desordens no casamento provêm do pecado, e para vencê´lo é preciso o auxílio da graça de Deus. Ora, o sacramento do matrimônio é uma ´graça especial´ para os casais poderem vencer as dificuldades do relacionamento conjugal, mostradas nos capítulos anteriores deste livro. Para curar as feridas do pecado no casamento (egoísmo, dominação, impaciência, orgulho, etc.), e chegar à unidade de vida que Deus deseja, desde ´o princípio´ , é preciso a graça de Deus. Jesus veio restabelecer a ordem inicial da criação, que o pecado abalou; por isso, Ele mesmo, pelo Matrimônio, dá ao casal a força e a graça para viver o casamento em nova dimensão, sem que as exigências cristãs se tornem um fardo pesado e impossível de ser carregado. Sem a graça do Sacramento, o que Cristo exige do casal (fidelidade, indissolubilidade, fecundidade, unidade, etc.) acaba se transformando em um peso insuportável para muitos. O próprio Senhor disse claro: ´Sem Mim nada podeis fazer´(Jo15,5). O salmista já tinha experimentado o mesmo: ´Se não é Deus que constrói a casa, em vão trabalham os seus construtores´ (Sl 126,1). Sem a graça de Deus, a presença do próprio Senhor, que acontece pelo Sacramento do Matrimônio, o casal não consegue enfrentar as dificuldades que fazem o casamento ruir. Eis porque são tantas as separações. Muitos, ao se casarem, jogaram a graça de Deus pela janela. A Gaudium et Spes diz bem claro: ´Como outrora Deus tomou a iniciativa do pacto de amor e fidelidade com seu povo, assim agora o Salvador e o Esposo da Igreja vem ao encontro dos cônjuges cristãos pelo sacramento do Matrimônio´ (GS,48). Permanecendo com o casal, Cristo dá´lhe a força de segui´Lo, de levar a cruz de cada dia, de levantar´se após a queda, de perdoarem´se mutuamente, de ajudar o outro a carregar o fardo e, sobretudo, de amarem´se com o amor sobrenatural que vem de Deus. Assim, as alegrias do amor do casal e dos filhos, faz com que a família, por Cristo, sinta já, aqui na terra, um antegozo do festim das núpcias do Cordeiro. Tertuliano, escritor cristão leigo, da igreja de Cartago, (†220), expressava com essas palavras a beleza do Matrimônio: ´Onde poderei haurir a força para descrever satisfatoriamente a felicidade do Matrimônio ministrado pela Igreja, confirmado pela doação mútua, selado pela benção? Os anjos o proclamam, o Pai celeste o ratifica… O casal ideal não é o de dois cristãos, unidos por uma única esperança, um único desejo, uma única disciplina, o mesmo serviço? Ambos os filhos de um mesmo Pai, servos de um mesmo Senhor. Nada pode separá´los, nem no espírito nem na carne; ao contrário, eles são verdadeiramente dois numa só carne. Onde a carne é uma só, um também é o espírito´ (CIC, 1643). Disse certa vez o Papa Pio XI que: ´Quando os fiéis prestam este consentimento sinceramente, abrem para si mesmos o tesouro da graça sacramental, onde podem haurir as graças sobrenaturais para cumprirem a sua missão e o seus deveres.´ Jacques Leclerq interpretou admiravelmente este pensamento de Pio XI: ´O Sacramento do Matrimônio não é, pois, simplesmente um ato religioso santificando um ato humano; é um germe depositado na alma e que frutifica através de toda a vida conjugal, animando de algum modo todos os atos da vida conjugal e todos os sentimentos conjugais.
O Sacramento do Matrimônio é possivelmente a conseqüência mais radical da encarnação. Depois da redenção, a vida divina, de que o cristão se torna participante, espalha´se nos homens, impregnando todo o seu ser, alma e corpo, inteligência, vontade, ação, de tal maneira que se pode dizer sem medo de errar que o homem está, também ele, de certo modo divinizado e que a sua ação se torna simultaneamente humana e divina. Nenhuma instituição humana manifesta mais que o Matrimônio esta impregnação do homem pelo divino´. Assim, Cristo torna´se presente de tal modo na vida do casal e da família que impregna todos os seus atos. Falando um dia com os discípulos de João Batista, Jesus falou´lhes de uma bodas e a presença do Esposo entre os convidados: ´o Esposo está com eles´ (Mt 9,15). Como nas Bodas de Caná, ele está presente em cada lar cristão. A família se torna assim uma verdadeira escola de santificação para os pais e para os filhos. Portanto, o preparo de uma refeição, a lavagem da roupa, o preparo do almoço, a limpeza do quintal, a tarefa dos filhos, as dores do parto, a arrumação da casa, o conserto do chuveiro, a troca da lâmpada queimada, a educação dos filhos, o ato sexual, a oração em família, etc., podem ser meios pelos quais os membros da família se santificam. Só com o auxílio da graça especial do Matrimônio é que o casal terá condições de construir um lar segundo o coração de Deus, seu Arquiteto. É por essa graça que o casal poderá chegar ao pleno ajustamento físico, moral, psicológico e espiritual. Por ela, conseguirá vencer o próprio egoísmo, e alimentar a própria fraqueza com a força de Deus. ´É Deus quem, segundo o seu beneplácito, realiza em vós o querer e o fazer´(Fl 2,13). ´Tudo posso naquele que me conforta´ (Fl 4,13). É pela graça do Matrimônio que cada um adquirirá o domínio de si mesmo; saberá calar na hora certa, falar na hora oportuna e de maneira correta, sem ferir e sem magoar; saberá dialogar; saberá aceitar o outro como ele é, e ajudá´lo a crescer; saberá suportar os defeitos do outro e perdoá´lo.

É pela graça de Deus que saberá deixar as críticas amargas, o mau´humor incômodo, as acusações destruidoras, a mágoa e o ressentimento, as infidelidades pequenas e grandes, os mutismos isoladores, as brigas, as comparações inconvenientes; enfim, cada um poderá ver mais as qualidades do outro do que os defeitos. Segundo ensina o Papa, no matrimônio dos batizados, ´… o Espírito, que o Senhor infunde, doa um ´coração novo´ e torna o homem e a mulher capazes de se amarem, como Cristo nos amou. O amor conjugal atinge aquela plenitude para a qual está interiormente ordenado.´ (FC,13) Os casais se separam um do outro, porque antes se separaram de Deus; pois Ele é que os une. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que apenas um, em cada mil casais religiosos, se separa. Na bela Carta às Famílias, o Papa anima os casais: ´Deste modo, caros irmãos e irmãs, esposos e pais, ´o Esposo está convosco´. Sabeis que Ele é o bom Pastor e conheceis a sua voz. Sabeis para onde vos conduz, como luta para vos providenciar as pastagens onde encontrar a vida e encontrá´la em abundância; sabeis como enfrenta os lobos devoradores, sempre prontos a arrebatar´lhes das fauces as suas ovelhas: cada marido e cada esposa, cada filho e cada filha, cada membro das vossas famílias. Sabeis que Ele, como bom Pastor, está disposto a oferecer a própria vida pelo rebanho (cf. Jo 10,11). Ele vos conduz por estradas que não são aquelas sinuosas e traiçoeiras de muitas ideologias contemporâneas…´ (CF, 18). ´Não tenhais medos dos riscos! As forças divinas são bem mais poderosas que as vossas dificuldades! Incomensuravelmente maior do que o mal que atua no mundo, é a eficácia do sacramento da Reconciliação… Muito mais incisiva do que a corrupção presente no mundo é a energia divina do sacramento da Confirmação… Incomparavelmente maior é, sobretudo, a força da Eucaristia´(idem).

´O bom Pastor está conosco em toda parte. Como estava em Caná da Galiléia, ´Esposo entre aqueles esposos´, que mutuamente se entregavam por toda a vida, o bom Pastor está hoje convosco, força dos corações, fonte de entusiasmo sempre novo e sinal da vitória da ´civilização do amor´, Jesus, o bom Pastor, repete´nos: Não tenhais medo. Eu estou convosco. ´Eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo´ (Mt 28,20).´(ibidem) Infelizmente existem situações que a vida matrimonial se torna impossível por razões diversas. Sobre este assunto o Papa João Paulo II ensinou com toda a clareza na Exortação Apostólica sobre a família Familiaris Consortio. Vamos transcrever em seguida os pontos mais importantes: ´Nestes casos, a Igreja admite a separação física dos esposos e o fim da coabitação. Os esposos não deixam de ser marido e mulher diante de Deus; não são livres para contrair uma nova união. Nesta difícil situação, o melhor seria, se possível, a reconciliação. A comunidade cristã é chamada a ajudar essas pessoas a viverem cristãmente sua situação, na fidelidade ao vínculo de seu casamento, que continua indissolúvel´ (FC, 83). ´São numerosos hoje, em todos os países, os católicos que recorrem ao divórcio segundo as leis civis e que contraem civilmente uma nova união. A Igreja, por fidelidade à palavra de Jesus Cristo (´Todo aquele que repudiar a sua mulher e desposar outra comete adultério contra a primeira, e se essa repudiar o seu marido e desposar outro comete adultério´: Mc 10,11´12), se mantém firme em não reconhecer válida uma nova união, se o primeiro casamento foi válido. Se os divorciados tornam a casar´se no civil, colocam´se numa situação que contraria objetivamente a lei de Deus. Portanto, não têm acesso à comunhão eucarística, enquanto perdurar esta situação. Pela mesma razão não podem exercer certas responsabilidades eclesiais. A reconciliação pelo sacramento da penitência só pode ser concedida aos que se mostram arrependidos por haver violado o sinal da aliança e da fidelidade a Cristo, e se comprometem a viver numa continência completa´. ´A respeito dos cristãos que vivem nesta situação e geralmente conservam a fé e desejam educar cristãmente os seus filhos, os sacerdotes e toda a comunidade devem dar prova de uma solicitude atenta, a fim de não se considerarem separados da Igreja, pois, como batizados, podem e devem participar na vida da Igreja. Sejam exortados a ouvirem a palavra de Deus, a frequentarem o sacrifício da missa, a perseverarem na oração, a incrementarem as obras de caridade e as iniciativas da comunidade, em favor da justiça, a educarem os filhos na fé cristã, a cultivarem o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus´ (FC, 84).

Em muitos casos, a celebração do Matrimônio pode não ter sido válida, por uma série de razões que reconhece o Código de Direito Canônico da Igreja. O Código atual foi revisto pelo Papa João Paulo II, em 1983, que alterou alguns desses pontos. Há em cada Arquidiocese, normalmente, um Tribunal Eclesiástico do Matrimônio que procede o exame dos casos, a fim de saber se um determinado matrimônio foi ou não válido. Precisa ficar bem claro que a Igreja não anula matrimônios que foram válidos, apenas declara a nulidade daqueles que na sua celebração não foram válidos, por razões conhecidas após a sua realização. Para se poder entender as causas que podem levar o Tribunal da Igreja a declarar que o matrimônio foi nulo, é preciso compreender que a aliança matrimonial só é válida, se assumida por um homem e uma mulher batizados, livres, e que expressem livremente seu consentimento. Já que o casamento tem enormes consequências na vida da pessoa, é preciso que ela o queira de fato, com toda a liberdade, sem constrangimentos, e informada do que está fazendo. Além disso não pode haver qualquer impedimento de uma lei natural ou da Igreja. O que ´produz o matrimônio´ é a troca de consentimento entre os esposos (CDC, cân.1057,1), livre de violência ou de medo grave externo (cân.1103). Este consentimento consiste num ´ato humano pelo qual os cônjuges se doam e se recebem mutuamente´(cân.1057, 2). É este consentimento que os torna ´uma só carne´. É por tudo isto que o sacramento do Matrimônio é o que apresenta a dimensão natural e visível mais rica. Não é o sacerdote quem os casa, são os próprios noivos que se casam na presença do ministro de Deus e da Igreja. Como este assunto é, hoje, de grande interesse, e, tendo em vista a sua complexidade, transcrevemos no final deste livro, com a devida autorização do autor, o esclarecedor artigo de D. Estevão Bettencourt, NULIDADE DE CASAMENTO, publicado na Revista Pergunte e Responderemos (Ano XXXIII, nº373, junho de 1993, pp 242´259). Sobre este mesmo assunto recomendamos também a leitura do livro do Pe. Jesus Hortal, S.J, especialista em direito canônico; Casamentos que nunca deveriam ter existido. Uma solução pastoral (Ed. Loyola, São Paulo, 1987).
Há hoje, muitas formas de ´casamentos´ no mundo; cada uma mais exótica do que a outra. Não é qualquer união de um casal que institui um matrimônio. Na Carta às Famílias o Papa deixou bem claro: ´O matrimônio, que está na base da instituição familiar, é estabelecido pela aliança com que ´o homem e a mulher constituem entre si a comunhão íntima de toda a vida, ordenada por sua índole natural ao bem dos cônjuges e à procriação e educação da prole´(CDC, cân.1055, 1; CIC,1601). Somente uma tal união pode ser reconhecida e confirmada como ´matrimônio´ pela sociedade. Ao contrário não o podem ser as outras uniões interpessoais que não obedecem às condições agora recordadas, mesmo se hoje, precisamente sobre este ponto, se difundem tendências muito perigosas para o futuro da família e da própria sociedade´ (CF, 17).
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Faço parte da pastoral dos noivos e gostei muito de ler esta reportagem.
Parabéns!!!