Morte, o que ama a Deus, nada tem a temer.


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O acontecimento que a será narrado não sofreu as alterações da imaginação,  como sucede com as lendas. É fato real, ocorrido numa pequena localidade do interior do Estado do Paraná.

Um casal convida um sacerdote para um almoço familiar, no qual também está presente o filho único, de seus vinte e cinco anos de idade.

Às tantas, de maneira um tanto insólita, o jovem pergunta ao religioso se uma mulher de má vida vai para o Céu. O padre respondeu como devia, segundo a doutrina católica: “Não, meu filho, se ela não se converter e mudar de vida, não irá para o Céu”.

“Então, padre –– responde o rapaz ––, quero ir para o inferno com as prostitutas”.

Diante dessa resposta, a mãe do rapaz põe-se a chorar e faz-se na sala uma atmosfera tensa e pesada, não havendo clima para continuar qualquer conversa.

Pois bem, na manhã seguinte, o jovem morre terrivelmente esmagado no interior de seu carro, que colidiu com uma carreta em alta velocidade, numa rodovia próxima à cidade. A notícia da conversa do dia anterior espalha-se pela localidade, e ninguém pôde furtar-se à lembrar do terrivel desejo do rapaz!

“A morte é certa e todos os nossos demais bens e males são incertos”, dizia Santo Agostinho. É incerto, por exemplo, se o recém-nascido terá boa ou má saúde, se morrerá moço ou velho e mesmo se será rico ou pobre. Tudo isso é incerto, mas é indubitavelmente certo que ele um dia irá morrer. E nunca existiu um homem tão néscio que se julgasse isento da morte.

Tanto para mim que postei esta matéria, e para ti, que  lês, está decretado ano, mês, dia e instante, em que eu não poderei mais escrever nem tu ler.

O que sucedeu a nossos antepassados, também sucederá a nós. Deles não resta senão um pouco de pó resguardado por lajes sepulcrais. É necessário, pois, que a finalidade de nossa vida não seja a procura da fortuna perecedora dos bens deste mundo, mas a da que não tem fim, já que nossas almas são imortais.

Reflitamos que cedo teremos de deixar todos esses bens para nosso corpo perecivél apodrecer numa cova… Não vale a pena, pois, estarmos apegados a eles, mas sim usá-los com desprendimento, para o progresso do Evangelho e glória de Deus.

Contemplemos, no dia de Finados, as sepulturas de nossos parentes e amigos, cuja sentença já foi executada. Elas ali estão como que a nos evocar a frase do Eclesiástico: Ontem, a mim; hoje, a ti (38, 22). O mesmo nos repetem todos os dias, os retratos de nossos parentes já falecidos, os livros, as casas, os leitos, as roupas que deixaram.

ETERNIDADE DE FELICIDADE OU DE TORMENTO

Quanta loucura em não pensarmos em acertar logo as contas da alma e não aplicarmos os meios necessários para alcançar uma boa morte, sabendo que temos de morrer, que depois da morte nos está reservada uma eternidade de felicidade ou de tormento. E não haverá nisto nenhum meio termo. É verdade ensinada pela Igreja, que um ou outro destino nos espera.

Nós católicos, como todo mundo, sabemos e vemos que a morte é certa. Entretanto, vivemos no esquecimento dela como se nunca tivéssemos de morrer! Se depois desta vida não houvesse nem glória nem inferno, seria admissível pensar menos na morte do que pensamos. Daí procede a vida talvez não tão boa que levemos… Leitor, se quisermos viver bem, procuremos passar o resto de nossos dias sem perder de vista a morte!

Foi pensando na morte que os santos sempre utilizaram os bens deste mundo para a maior glória de Deus. Ou mesmo os desprezaram inteiramente, sepultando-se em vida sobre a terra, para não serem sepultados no inferno depois da morte. Como podem, entretanto, os mundanos, sempre a correr atrás dos gozos, esperar morte feliz, vivendo como vivem, em pecados?

Deus preveniu os pecadores que na hora da morte O procurarão e não O hão de encontrar (Jo. 7, 34). Disse que, então, já não será tempo de misericórdia, mas de justa vingança (Dt. 32, 35). A razão corrobora esta mesma verdade, porque, na hora da morte, o mundano se achará fraco de espírito, obscurecido e duro de coração pelos maus hábitos que contraiu; as tentações manifestar-se-ão, então, mais violentas, e ele, que em vida se habituou a render-se e a deixar-se vencer, como resistirá na última chance? Seria necessária uma graça extraordinária e poderosa para lhe transformar o coração. Mas será Deus obrigado em lha conceder? Ou talvez a mereceu pela vida desordenada e pecaminosa que levou?. Quererá ele pedi-la? No entanto, trata-se, nessa ocasião, da agonia ou da felicidade eterna…

  ” VIREI COMO UM LADRÃO…”

Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de que cada homem esteja sempre bem preparado, nos advertiu de que a morte virá como um ladrão, oculto e de noite (I Tess. 5, 2). Outras vezes nos exorta a que estejamos vigilantes, porque, quando menos o esperemos, virá Ele mesmo a julgar-nos (Lc. 12,40). Deus nos oculta, para nosso bem, a hora de nossa morte, a fim de que estejamos sempre preparados para morrer.

Ninguém ignora que há de morrer; mas o mal está em que muitos vêem a morte a tamanha distância que a perdem de vista.

  MORTE DO PECADOR

O pecador empedernido afasta a lembrança e o pensamento da morte, e procura a paz (ainda que nunca a encontre), vivendo em pecado. Quando, porém, se vir em face da eternidade e nas agonias da morte, já não poderá escapar aos tormentos de sua má consciência, nem encontrar a paz que tanto procura.

O anúncio já recebido ou percebido da morte próxima, a idéia de se separar para sempre de todas as coisas do mundo, os remorsos da consciência, o tempo perdido, o pouco tempo que falta, o rigor do juízo de Deus, a eternidade infeliz que espera o pecador impenitente, todas estas coisas produzirão uma perturbação terrível que acabrunha e confude o espírito, uma “confusão sobre confusão” (Ez. 7, 26).

Com efeito, que confusão e susto não serão os do doente que se tenha descuidado de sua consciência, quando se vir opresso pelo peso dos pecados, do temor do juízo, do inferno e da eternidade!

Muitas serão as angústias que hão de afligir o miserável pecador moribundo. Nesse momento os demônios empregam todos os seus esforços para perder a alma que está prestes a sair desta vida. Não estará ali apenas um só, mas muitos demônios rodeando o moribundo para perdê-lo (Is. 13,21).

Um lhe sussurará: “Não temas, que te restabelecerás”. Outro dirá: “Tu, que durante tantos anos foste surdo à voz de Deus, esperas agora que Ele tenha misericórdia de ti?” Outro ainda: “Não vês que todas as tuas confissões foram nulas, sem contrição, sem propósito de emenda?”

Deus não cessa de ameaçar o pecador, para o bem dele, com o castigo de uma morte infeliz. “Virá um dia em que me invocarão e então já não os atenderei” (prov. 1,28). Esperam, porventura, que Deus dê ouvidos a seu clamor quando estiverem na desgraça? (Jó, 27, 9).

“A mim pertence a vingança, e eu lhes darei a paga a seu tempo, para que o seu pé resvale” (Dt. 32, 35). O mesmo repete o Senhor em outros lugares da Escritura, e, não obstante, há pecadores que vivem tão tranqüilos e seguros, como se Deus lhes houvesse prometido, sem mais, o perdão e o Paraíso na hora da morte. Nosso Senhor repetiu muitas vezes que aquele que permanece no pecado, em pecado morrerá (Jo. 8, 21-24) e que, se na morte O procurar, não O encontrará (Jo. 7, 34). É necessário, pois, procurar a Deus enquanto O podemos encontrar (Is. 55,6), porque virá um momento em que já não será possível encontrá-Lo.

Conta o cardeal São Roberto Belarmino que, assistindo a um moribundo e tendo-o exortado a fazer o ato de contrição, lhe respondeu o enfermo que não sabia o que era contrição. Tratou o cardeal de lhe explicar, mas disse-lhe o doente: “Padre, não compreendo, nem estou agora capaz de entender essas coisas. E nesse estado faleceu, “dando visíveis sinais de sua condenação”.

Você que está lendo esta matéria isso que se diz relativamente aos outros, aplica-se também a mim e a ti. Se te visses no momento da morte, abandonado dos médicos, privado do uso dos sentidos e já agonizando, quanto não rogarias a Deus que te concedesse ainda um mês, uma semana de vida para acertares as contas de tua consciência! Deus te dá agora esse tempo. Agradece-Lhe, pois, e remedeia sem demora o mal que eventualmente tenhas feito, aplicando todos os meios para te achares em estado de graça quando a morte vier, porque então já não será tempo de o fazer.

A MORTE DO JUSTO

Tertuliano afirma que “Deus abrevia o tormento de alguém, quando lhe abrevia a vida”. Ainda que a morte tenha sido imposta por castigo do pecado, são tantas as misérias desta vida, que, como disse Santo Ambrósio, o morrer mais parece alívio do que castigo.

Os tormentos que afligem os pecadores na hora da morte não afligem os Santos. “As almas dos justos estão nas mãos de Deus e não os atingirá o tormento da morte” (Sab. 3,1). Como a morte constitui uma violência para a natureza, pois separa a alma do corpo, é normal que uma pessoa, mesmo virtuosa, tenha medo desse momento. Mas, confiante em Deus, na intercessão da Virgem Santíssima, ela estará em paz, e não se deixará tomar por esse receio. Os Santos não temem morrer, nem se afligem por terem de deixar os bens da terra, porque nunca se apegaram a eles.

“Deus lhes enxugará todas as lágrimas dos seus olhos e não haverá mais morte” (Apoc. 21. 4). Na hora da morte, Nosso Senhor secará dos olhos de seus servos as lágrimas que derramaram na vida, em meio a trabalhos, temores e perigos contra o inferno. O maior consolo de uma alma que ama a Deus, quando percebe a morte aproximar-se, será o de pensar que em breve estará livre de tantos perigos de ofendê-Lo, de tanta tribulação espiritual e de tantas tentações do demônio. A vida presente é um bem que pode levar-nos ao Céu, mas é também uma guerra contínua contra o inferno, na qual corremos a toda hora o risco de perder a Deus e a nossa alma, se não perseverarmos no caminho que devemos andar que é o caminho de Jesus.

Grande favor faz Deus à alma em estado de graça, retirando-a deste mundo, onde poderia transviar-se e perder a amizade divina (Sab. 4, 11).

São Vicente Caraffa consolava-se ao morrer, dizendo: “Terminando minha vida, acabam minhas ofensas a Deus”. E Santo Ambrósio dizia: “Para que desejamos mais longa vida, se, quanto mais longa for, de maior peso de pecado nos carrega?”

Na verdade, nós devemos desejar viver tanto tempo quanto for a vontade de Deus, mas para amá-Lo e servi-Lo nesta terra, se necessário lutar e sofrer por Ele, e não para gozar a vida. Por isso, diz o Profeta Davi: “Não me leves na metade de meus dias” (Sl. 101, 25).

São João Crisóstomo usava a seguinte figura: imagine-se um rei que tivesse mandado preparar para alguém suntuosa habitação no seu próprio palácio, e, no entanto, o mandasse viver provisoriamente num estábulo; quanto esse homem não desejaria sair do estábulo para ir morar no palácio régio!… Assim, nesta vida, a alma do justo, unida ao corpo mortal, se sente como num cárcere, de onde há de sair para habitar o palácio dos Céus; é por esta razão que o profeta Davi dizia: “Livrai minha alma da prisão” (Sl. 141,8).

Segundo Santo Atanásio, “para o justo não há morte, apenas trânsito, porque, para ele, morrer não é outra coisa que passar para a eternidade feliz”. O pecador empedernido teme a morte, porque da vida passará à morte eterna, mas não aquele que, estando na graça de Deus, há de passar da morte à vida.

O demônio não deixará de tentar até na morte o justo.  Mas este não estará sozinho será acudido por seu anjo da guarda que irá confortá-lo; virão os santos protetores; virá São Miguel Arcanjo, destinado por Deus para a defesa dos servos fiéis, e acolhendo sob seu manto quem foi seu devoto, derrotará os inimigos; virá mesmo Nossa Senhora, a livrar das tentações a alma justa ou penitente, cuja salvação custou a vida de seu Divino Filho. E protegerá de modo especial seus devotos, que n’Ela confiaram durante a vida.

Nosso Senhor é fiel, e não permite que sejamos tentados além das nossas forças. São poucos os exemplos de pessoas que, depois de uma vida boa, tenham morrido com grande receio da sua salvação. Nosso Senhor permite às vezes que isso ocorra a alguns justos, a fim de, na hora da morte, purificá-los de certas faltas leves. Ademais, muitos servos de Deus morreram com o sorriso nos lábios. Todos tememos na morte o severíssimo juízo de Deus; mas, assim como os pecadores passam desse temor ao horrendo desespero, os justos passam desse temor à grande esperança.

Se na hora da morte vier a atormentar-nos a recordação de nossas muitas ofensas a Deus, lembremo-nos de que Ele prometeu esquecer os pecados dos penitentes (Ez. 18, 31-32). Alguém se perguntará talvez: como poderemos estar certos de que Deus nos perdoou? Essa mesma indagação se fez São Basílio, dando a ela a seguinte resposta:

“Não só odiei a iniqüidade, mas a abominei”. Quem detesta o mal e o pecado pode ter firme esperança de que Deus o perdoou. O coração do homem não vive sem amor: ou ama a Deus ou ama as criaturas. Ama a Deus aquele que observa os seus Mandamentos (Jo. 14, 21).

Portanto, aquele que morre observando os preceitos de Deus, morre amando a Deus; e o que ama a Deus, nada tem a temer.

 

Fonte: Revista Catolicismo

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