Era um belo convento, erguido sobre a planura. Os monges do convento eram, ao mesmo tempo, bons servidores de Deus, grandes sábios e excelentes lavradores. Havia, entre eles, um jovem religioso, de nome Norberto, que era um ótimo escultor (santeiro). Em madeira, pedra, ou até mesmo argila, que pintava com cores muito vivas. Ele sabia modelar (talhar, esculpir) lindíssimas estátuas de Jesus, de Maria e dos santos, tanto que os padres e as pessoas piedosas vinham de longe para defrontar-se com suas peças e as compravam, pagando caríssimo, para com elas ornamentar suas igrejas e seus oratórios.

Norberto era muito piedoso e devotava amor extraordinário pela Virgem Santíssima. Frequentemente, ficava horas e horas diante do altar da Virgem Imaculada, imóvel, prosternado sob seu capuchinho, tendo as pregas da roupa espalhadas atrás de si, sobre os ladrilhos do piso.
Os bons monges eram muito generosos e gostavam de dar esmolas e ajudar as pessoas; e, como eles eram bem providos, aconteceu que um belo dia, já não havia um só pobre nos arredores. Então, eles resolveram construir, às suas expensas, uma igreja magnífica, perto do convento. Logo, pedra sobre pedra, lentamente, a igreja foi erguida. Ficou decidido que o grande portal seria encimado pela estátua de São Gengoul. Um pouco mais acima, colocar-se-ia a Virgem Mãe Santíssima, e na extremidade mais elevada, na ponta da empena, Jesus crucificado.
Norberto ficou encarregado de esculpir as três figuras. Sem muito zelo, esculpiu a estátua de São Gengoul. Em seguida, num bloco de granito, Jesus em sua Cruz, cuja altura era de quatro toesas (quase 8 metros). Porém, mesmo tendo se empenhado, devotadamente, nesta obra, com muito carinho e zelo, sonhava, incessantemente com a Virgem Maria, da qual deveria, em breve, cinzelar uma imagem; e, sem nada dizer, reservava, para ela, todo o esforço de sua arte e de seu amor.
- E agora, meu filho, disse-lhe o Prior, que Deus possa conduzir vossa mão para que vós nos deis uma imagem análoga da Virgem Maria, com o Menino Jesus nos braços.
- Mas, disse Norberto, não seria melhor representá-la da forma que lhe seja a mais agradável?
- Muito bem! aceitou o Prior, o seu mais belo título não é o que a qualifica como a Mãe de Deus?
- Sim, respondeu Norberto, mas eu acho que a honraria melhor representando-a, não em sua glória, mas na atitude das virtudes que a mereceram… Se ela se mostra, levando um Deus, mesmo criança, como dirigiremos nossas orações para que cheguem até ela, sem nos atermos n´Ele? E quero representá-la tendo as duas mãos abertas para os homens. Ela não poderia lhes estender os braços se tivesse uma criança no colo!
- Meu filho, esses discursos são estranhos e denotam heresia. Ordeno que façais a estátua da Virgem Maria assim como eu vos disse.
Norberto não obedeceu. Durante todo o tempo em que trabalhou a estátua, não deixou que ninguém a visse, sob pretexto de que as reflexões de seus irmãos pudessem perturbar e confundir suas ideias. E, sozinho com o seu sonho, talhou a imagem da Virgem Maria, assim como havia imaginado. Longa, o manto drapeado com grandes pregas, rosto inclinado para os homens, a Imaculada estende-lhes as mãos abertas de onde escorre o perdão.
Assim que os monges a viram, emocionaram-se, em clamores de admiração; e o próprio Prior, entusiasmado, declarou a imagem maravilhosamente bela. Mas, castigando a desobediência de Norberto, condenou-o a jejuar durante um mês inteiro, a pão e água.
As obras do escultor Norberto, a santa Cruz, a estátua da Virgem Maria e a de São Gengoul foram colocadas em seus devidos lugares. A Igreja estava quase terminada. Duas altas torres flanqueavam o portal. Norberto, animado por fervoroso zelo pela casa de Deus, passava dias inteiros sobre os telhados, rodeado pela floresta aérea de pedras.
Nem mesmo à noite o escultor descia. Estava no cimo de uma das torres, sobre a plataforma, cuja balaustrada ainda não fora colocada. Tentava ver se conseguia divisar a estátua da querida Virgem Mãe que havia talhado, lá de onde estava. Inclinando-se, pôde distinguir, logo abaixo, as duas mãos estendidas de Maria, além do nicho onde fora colocada. Inclinando-se um pouco mais, seu pé escorregou e ele caiu. Ouviu-se um grande grito. Na queda, o corpo bateu no andaime, saltou sobre o soalho e voltou, num pinote, em direção à pontuda empena da fachada, onde se elevava a grande Cruz que ele havia talhado, igualmente.
Lá, face a face com o Cristo, cabelos arrepiados de pavor, Norberto suplicou, humilde e delirantemente que Jesus o salvasse. Em seguida, pôs-se a gritar, com todas as suas forças: os bons monges, entretanto, estando em paz com Deus, dormiam sono profundo, e nenhum deles ouviu os desesperados gritos do pobre escultor.
- Ah! Jesus, estás te vingando de mim! Socorro, Virgem Maria!
E caiu, novamente…
Caiu, mas sem se machucar, sob as duas palmas das mãos em mármore, da estátua da Virgem Maria, obra sua. As mãos misericordiosas da Mãe de Deus levantaram-se, ligeiramente, para melhor poder ampará-lo. Norberto adormeceu entre as mãos de Nossa Senhora, assim como uma criancinha, tranquila, em seu berço. Somente à hora da aurora, os monges o perceberam. Longas escadas foram erguidas. Quando chegaram perto de Norberto, para liberá-lo, ele ainda dormia.
- Por que os senhores estão me acordando? – perguntou.
Norberto não contou a ninguém o sonho que tivera, nos braços da Virgem Maria, nem o que Ela lhe havia dito. Porém, a partir daquela noite, passou a demonstrar perfeita devoção ao Cristo Redentor e a viver na mais alta santidade.
Fonte: Maria de Nazareth
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