O Papa Leão XIII levou a Igreja às fábricas com uma encíclica sobre a questão social


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Isolados e indefesos, os trabalhadores estão entregues à mercê de patrões desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada.”Frases como esta, típicas da agitação socialista que de quando em quando percorre a Europa, estão foram redigidas em latim clássico no último lugar do planeta de onde se poderia esperar a propagação de idéias subversivas: os silenciosos corredores do Vaticano. Rodeado pelos cardeais de sua mais estrita confiança, o papa Leão XIII dedicou seu tempo a debater e a escrever um documento assinalou uma das viradas mais espetaculares na história da Igreja Católica. O assunto: as condições de vida dos trabalhadores no mundo de hoje.

Evidentemente, o papa não se converteu ao credo ateu e materialista de Karl Marx, o teórico alemão do comunismo. A encíclica – cujo nome é Rerum Novarum, ou seja, “Coisas Novas” – defende a propriedade privada e reforça a habitual condenação do Vaticano às doutrinas baseadas na luta de classes. A novidade está no enérgico aval da Igreja a reivindicações que só freqüentavam apenas os panfletos dos sindicatos europeus: salários justos, redução da jornada de trabalho, descanso remunerado. “O patrão não deve tratar o empregado como escravo, mas respeitar nele sua dignidade de homem e de cristão”, recomenda o texto. “Leão XIII ficará conhecido como o papa dos operários”, profetizou um cardeal, entusiasmado. A encíclica, na verdade, trouxe de volta ao catolicismo as levas de trabalhadores que, desesperançados com as promessas de boa vida somente depois da morte, se deixaram seduzir pelos grupos socialistas e anarquistas, que prometem o paraíso na Terra – na forma de revoluções igualitárias violentas.

Quando o cardeal italiano Vincenzo Gioacchino Pecci assumiu o trono de São Pedro com o título de Leão XIII, ninguém poderia prever que o novo papa abriria uma era de transformações na Igreja. “No curso dos séculos a Igreja nunca se amarrou a nenhum cadáver”, explicou Leão XIII numa conversa com um jornalista francês. Em seguida, ressalvou: “Exceto, é claro, um único: o que se vê na cruz”.

Fonte: Revista Veja na História

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