O Papel dos Leigos na Igreja Católica: a Exortação Apostólica ‘Christifideles Laici’ de 1987


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(Notas de conferência proferida em São Paulo, em 30-11-03,

para universitários do Projeto Universidades Renovadas).

Pe. João Sérgio Cury Lauand

Passados 20 anos do Vaticano II, o Romano Pontífice quis voltar-se para um tema que teve destaque no Concílio e dedicou o Sínodo dos Bispos de 1987 ao estudo de aspectos relativos aos fiéis leigos. O documento pós-sinodal, a exortação Christifideles Laici, apresenta temas dignos de estudo.

Dessa forma vai-se preenchendo uma lacuna de séculos na definição das atribuições dos leigos. Durante muito tempo, pouco ou nada se falou sobre isso. A título de exemplo, em seu conhecido livro sobre a História da Igreja, comentando os resultados do Concílio de Trento, Daniel-Rops afirma: “É de admirar que, entre tantas sessões, não tenha havido uma que traçasse o retrato do verdadeiro cristão leigo…como se tinham traçado os do bispo e do sacerdote”.

Logo no início, a Exortação que estamos considerando, afirma: “Ao longo dos seus trabalhos, o Sínodo fez constante referência ao Concílio Vaticano II, cuja doutrina sobre o laicato, à distância de vinte anos, se revelou de surpreendente atualidade e, por vezes, de alcance profético: essa doutrina é capaz de iluminar e de guiar as respostas que hoje devem dar-se aos novos problemas”. (n.2).

O Sínodo deu muitas graças pela atuação do Espírito Santo e por tantas iniciativas surgidas nesse período, que vão renovando a Igreja. Recordou por outro lado dois perigos: por um lado a tentação de que os leigos mostrem um interesse exclusivo pelos serviços e tarefas eclesiais, de forma a chegarem freqüentemente a uma abdicação prática das suas responsabilidades específicas no mundo profissional, social, econômico, cultural e político; e a tentação de legitimar a indevida separação entre fé e vida, entre a aceitação do Evangelho e a ação concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas. Voltaremos a isto mais adiante.

O trabalho do Sínodo, em palavras do Papa, esteve voltado a indicar caminhos para que a ‘teoria’sobre o laicato se converta em praxe na Igreja. O documento indica algumas questões de particular relevância: “Entre esses problemas contam-se os que se referem aos ministérios e aos serviços eclesiais confiados ou que deverão confiar-se aos fiéis leigos, a difusão e o crescimento de novos «movimentos» ao lado de outras formas associativas de leigos, o lugar e a função da mulher tanto na Igreja como na sociedade”.

Ao final do Sínodo os participantes pediram ao Papa um documento conclusivo sobre os fieis leigos, que foi a origem da Exortação.

Vocação e missão dos leigos

Logo a seguir à introdução o Papa começa a falar com grande força da vocação e missão dos fiéis leigos: “Que escutem o chamamento de Cristo para trabalharem na Sua vinha”. O Romano Pontífice faz uma leitura da parábola descrita em Mateus 20, a dos trabalhadores na vinha. Fala da voz de Deus e recorda que essa voz ressoa na alma de cada um e nos acontecimentos, e que neste momento histórico –em todos – pede uma resposta generosa. Pede a coragem de encarar este nosso mundo, que agora está –em palavras do documento – , em certo sentido, pior que nos anos do Concílio.

Vê-se portanto um apelo em sentido inverso ao que gerou a vocação religiosa. Este último, que continua válido, foi no sentido de que os religiosos adotassem o contemptus mundi, o abandono das preocupações do mundo, característico da sua vocação. Trata-se portanto de duas atitudes perfeitamente válidas – entrar de cheio no mundo ou afastar-se dele – , cabendo a cada um saber a que Deus lhe pede pessoalmente. Dessa forma fica respondida a pergunta sobre o local onde o leigo deve ser sal da terra e luz do mundo: no lugar que ocupa no mundo. Dentro do capítulo sobre a vocação e missão o Papa usa imagem muito bonita: são trabalhadores da vinha, mas são também a própria vinha.

Quanto à vocação individual –questão que cedo ou tarde todos se colocam – há um número próprio (58), recomendando a escuta pronta e dócil da Palavra de Deus e da Igreja, a oração filial e constante, a referência a uma sábia e amorosa direção espiritual, a leitura feita na fé dos dons e dos talentos recebidos, bem como das diversas situações sociais e históricas em que nos encontramos.

Quem são os leigos?

A quem se dirige o texto? O Papa diz que vai tentar uma formulação positiva. Implicitamente se reconhece que as anteriores eram algo negativas, quase como os ‘coitados’ que não são padres nem freiras. Recorda-se não somente que pertencem à Igreja mas que são a Igreja, vides radicadas em Cristo, e outras imagens. Mas é sobretudo nos efeitos do batismo que se deve encontrar sua essência: “só descobrindo a misteriosa riqueza que Deus dá ao cristão no santo Batismo é possível delinear a ‘figura’ do fiel leigo”. Nesta altura o documento refere-se a toda a força do batismo, com suas conseqüências: passar a ser filhos no Filho, formar um só corpo com Cristo e ser Templos vivos e santos do Espírito.

Os fiéis participam –ainda que de forma diferente que a dos presbíteros – do sacerdócio de Cristo. Os leigos possuem – não perdem! – a secularidade. Um fiel leigo tem características, modos de vida, etc., diferentes dos que têm os religiosos. É diferente seu modo de viver as virtudes. Sempre foi uma grande tentação, e um grande erro, identificar esses modos, de maneira a propor aos leigos as mesmas formas de viver as virtudes que se apresentam para os religiosos. Não pode ter as mesmas características a pobreza de um franciscano e a de um pai de família.

Panorama histórico

Este tema já foi abordado em muitos lugares e seria extenso tratar dele agora. Baste dizer que logo a seguir aos primeiros cristãos foi aparecendo na Igreja o chamado à vida religiosa, a princípio de forma espontânea, condensada depois nas diferentes regras (constituições) aprovadas pela Santa Sé.

Foi tomando diversas formas de acordo com a inspiração de Deus e as necessidades dos tempos. Em séculos sucessivos – em processo que não terminou – foram aparecendo, no Ocidente, os beneditinos, os frades mendicantes, os jesuítas, os clérigos regulares e tantos outros, sempre com a característica do afastamento do mundo, maior ou menor. Não houve um desenvolvimento paralelo de fórmulas para os leigos, até recentemente, com o Vaticano II e seus precursores.

Necessidade da vida interior

Na Exortação o Papa reitera a afirmação evangélica, tantas vezes esquecida na prática, de que todo apostolado fecundo deve apoiar-se na vida interior dos que pretendem efetuá-lo. O ramo não produz fruto se não estiver unido à videira, a Cristo. Todos os cristãos são chamados à santidade, à perfeição, a serem semelhantes ao Pai.

“Sobre a universal vocação à santidade, o Concílio Vaticano II teve palavras sobremaneira luminosas. Pode dizer-se que foi precisamente esta a primeira incumbência confiada a todos os filhos e filhas da Igreja por um Concílio que se quis para a renovação evangélica da vida cristã. Tal incumbência não é uma simples exortação moral, mas uma exigência do mistério da Igreja, que não se pode suprimir: a Igreja é a Vinha escolhida, por meio da qual as vides vivem e crescem com a mesma linfa santa e santificadora de Cristo; é o Corpo místico, cujos membros participam da mesma vida de santidade da Cabeça que é Cristo… Hoje como nunca, urge que todos os cristãos retomem o caminho da renovação evangélica, acolhendo com generosidade o convite apostólico de «ser santos em todas as ações». O Sínodo extraordinário de 1985, a vinte anos do encerramento do Concílio, insistiu com oportunidade sobre essa urgência: «Sendo a Igreja em Cristo um mistério, ela deve ser vista como sinal e instrumento de santidade… Os santos e santas foram sempre fonte e origem de renovação nas circunstâncias mais difíceis em toda a história da Igreja. Hoje temos muitíssima falta de santos, que devemos pedir com assiduidade». Todos na Igreja, precisamente porque são seus membros, recebem e, por conseguinte, partilham a comum vocação à santidade. A título pleno, sem diferença alguma dos outros membros da Igreja, a essa vocação são chamados os fiéis leigos: «Todos os fiéis, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade»; «Todos os fiéis são convidados e têm por obrigação tender à santidade e à perfeição do próprio estado». A vocação à santidade mergulha as suas raízes no Batismo e volta a ser proposta pelos vários sacramentos, sobretudo pelo da Eucaristia: revestidos de Jesus Cristo e impregnados do Seu Espírito, os cristãos são «santos» e, por isso, são habilitados e empenhados em manifestar a santidade do seu ser na santidade de todo o seu operar. O apóstolo Paulo não se cansa de advertir todos os cristãos para que vivam «como convém a santos»  (Ef 5, 3).

A vida segundo o Espírito, cujo fruto é a santificação (Rom 6, 22; cf. Gal 5, 22), suscita e exige de todos e de cada um dos batizados o seguimento e imitação de Jesus Cristo, no acolhimento das Suas Bem-aventuranças, na escuta e meditação da Palavra de Deus, na consciente e ativa participação na vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração individual, familiar e comunitária, na fome e sede de justiça, na prática do mandamento do amor em todas as circunstancias da vida e no serviço aos irmãos, sobretudo os pequeninos, os pobres e os doentes.”

Como se vê pelo longo texto que reproduzimos, o fundamento da exigência de perfeição é o próprio batismo, afetando portanto todos os que receberam esse sacramento.

Já foi dito que um dos motivos para João Paulo II promover tantas beatificações e canonizações é mostrar que a santidade é algo atual, possível, acessível.

Ação de Deus e do homem

Aqui se coloca uma questão prática interessante. Até que ponto devo atuar, ou abandonar a iniciativa nas mãos de Deus. É o tema da graça. A graça move os corações, mas, ordinariamente, alguém precisa falar. “Quem enviarei?” pergunta Nosso Senhor pela boca do profeta pensando na transmissão da sua doutrina.

Trata-se de tema muito comentado, mas nem sempre as soluções encontradas na realidade prática de cada um estão de acordo com a reta teologia. Sabe-se que mais de uma vez os Papas intervieram impondo silêncio aos dois lados, quando os ânimos ficavam exaltados. Sobre uma dessas ocasiões, comenta Daniel-Rops: “Vinte anos de discussões não serão suficientes para esgotar os argumentos dos dois campos nem para terminar num acordo”.

Um resumo rápido da solução poderia ser que cada um de nós procure fazer o que lhe corresponde –de verdade – e deixar para o Senhor aquilo a que não temos acesso. Remeto aqui a uma sugestiva observação do prof. Jean Lauand – falando precisamente a universitários católicos carismáticos num ENUCC – sobre a voz média.

As línguas antigas dispunham de uma fantástica terceira voz: a voz média. Emprega-se a voz média para ações que não se enquadram propriamente na voz ativa nem na voz passiva. Quer dizer que há ações que não são ativas nem passivas? É, é isto mesmo! O verbo nascer por exemplo não é ativo nem passivo: eu nasço ou sou nascido? Sim, certamente sou eu que nasço, mas não exerço ativamente esta ação; por isso o inglês fala do nascer na passiva: I was born in 1952…

O príncipe Paulinho da Viola trabalha muito com esse conceito de voz média; por exemplo, de sua canção “Timoneiro” é o maravilhoso verso:

“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar…”

“Não sou eu que me navega, quem me navega é o mar”. Seria tentar a Deus pedir-lhe que resolva problemas que eu posso solucionar: iluminar-me para que eu não necessite estudar, limitar-nos a rezar para que se solucionem os problemas de econômicos e sociais do país, etc.

Lembro-me, a propósito, de duas histórias que ouvi. Uma é a do homem que cuidava sacrificadamente de seu jardim quando passou uma senhora e candidamente comentou: “Que belo jardim! Que coisas bonitas Deus faz!”. Nosso amigo olhou bem para ela, enxugou o suor e disse: “A senhora precisava ver como era isto quando Ele cuidava sozinho!”.

A segunda é a do sacerdote que preparava só metade do seu sermão dominical e dizia que deixava a outra metade para o Espírito Santo. Certo domingo, quis conferir com o sacristão, como tinha saído sua prática. Este lhe disse: “Padre, a sua parte como sempre muito boa; a do Espírito Santo desta vez não foi aquelas coisas…!”.

Parece que a conclusão é clara. Como já se disse, sem transpiração não há muita inspiração. Para tirar boas notas é preciso estudar; para contratar um funcionário, mais do que consultar a Bíblia (excelente coisa para outros propósitos) será preferível comprovar seu currículo, fazer uma entrevista, etc.

Interesse exclusivo pelas tarefas eclesiais

Esse seria o primeiro erro, a que já nos referimos acima. Com freqüência ressurge a tentação de abandonar a procura de respostas para as dificuldades do dia a dia, ou a de  encontrar soluções ‘católicas’ para os problemas.

O Concílio Vaticano II definiu bem a autonomia das realidades terrenas: “Muitos dos nossos contemporâneos parecem temer que a íntima ligação entre a atividade humana e a religião constitua um obstáculo para a autonomia dos homens, das sociedades e das ciências. Se por  autonomia das realidades terrenas se entende que as coisas criadas e as próprias sociedades têm leis e valores próprios que o homem irá gradualmente descobrindo, utilizando e organizando, é perfeitamente legítima essa autonomia…e corresponde à vontade do Criador….Mas se com esse nome se entende que as coisas não dependem de Deus e que o homem pode dispor de tudo sem referência ao Criador, então todos os que acreditam em Deus compreendem como são falsas tais afirmações”.

É na seqüência desse texto da Gaudium et Spes que se situa uma sentença muito citada e que cada vez mais se revela profundamente sábia: “a criatura sem o seu Criador desaparece, não tem razão de ser”. É, portanto, mais um convite a não abandonar o mundo, a trabalhar com todos na procura de soluções justas para os problemas. Deve ter sido em parte em relação a isso que Cristo avisou que os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz. Um cristão está no mundo como em seu lugar próprio. Aí deve aprender a conviver com todos, a sofrer as dores de todos, a perseguir a resposta aos problemas que afetam seus semelhantes.

Separação entre fé e vida

Um cristão, como aliás toda pessoa, é chamado a manter a coerência entre aquilo em que acredita e sua vida. Não é possível separar nem em sua cabeça, nem em sua atuação as idéias da vida. O contrário seria vida dupla, hipocrisia, incoerência.

Ouvi contar, há tempos, uma história que se não é verdadeira, bem que poderia ser. Certo político, conhecido como católico, votou a favor de determinado tema contrariamente à doutrina da Igreja. Ao ser criticado por um bispo, protestou dizendo que votara como político e não como católico. O bispo lhe respondeu: “Pode ficar tranqüilo, eu não o critiquei como político e sim como católico!”.

Não se pode distinguir onde acaba o político e onde começa o católico, e isso vale para todas as ocupações e para todas as ocasiões. A fé e as convicções não são peças de vestuário, acessórios, que se possam utilizar ou não.

Estas foram algumas breves considerações sobre papel dos leigos na Igreja Católica de acordo com a Exortação Apostólica ‘Christifideles Laici’, um documento rico, claro, necessário.

Fonte: http://www.hottopos.com/videtur26/jscl.htm

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O Sacerdócio dos leigos e o Sacerdócio dos padres

PE. FILIPE LOPES

Hoje vamos aprender sobre a colaboração dos leigos no ministério (serviço) dos sacerdotes na Igreja. Todos, sacerdotes e leigos, são chamados ao serviço. A missão é de todos os baptizados.
Cristo Jesus, Sumo e Eterno Sacerdote, quis que a Sua Igreja fosse participante do seu único e indivisível sacerdócio. Ela, a Igreja, é o povo da Nova Aliança, no qual «pela regeneração e unção do Espírito Santo, os baptizados são consagrados para formar um templo espiritual e um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais, mediante todas as suas actividades, e dar a conhecer os prodígios d’Aquele que das trevas os chamou à Sua luz admirável (cf. 1 Pd 2, 4-10)»; «Um é, pois, o Povo eleito de Deus: “um só Senhor, uma só fé, um só baptismo” (Ef 4, 5), pela dignidade dos membros através da regeneração em Cristo. Assim é a vocação à perfeição cristã».
Existindo entre todos «verdadeira igualdade quanto à dignidade e acção comum a todos os fiéis na edificação do Corpo de Cristo», alguns são constituídos, por vontade de Cristo, «mestres, dispensadores dos mistérios e pastores em benefício dos demais». Tanto o sacerdócio comum dos fiéis como o sacerdócio ministerial ou hierárquico «ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na essência e não apenas em grau, pois ambos participam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo». Entre eles dá-se uma eficaz unidade, porque o Espírito Santo unifica a Igreja na comunhão e no serviço e a provê de diversos dons hierárquicos e carismáticos.
A diferença essencial entre o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial não está, portanto, no sacerdócio de Cristo — que sempre permanece uno e indivisível — nem tampouco na santidade à qual todos os fiéis são chamados: «O sacerdócio ministerial, com efeito, não significa um maior grau de santidade em relação ao sacerdócio comum dos fiéis; mas através dele é concedido aos presbíteros (padres), por Cristo no Espírito, um dom particular para que possam ajudar o Povo de Deus a exercer com fidelidade e plenitude o sacerdócio comum que lhe é conferido». Na edificação da Igreja, Corpo de Cristo, existe uma diversidade de membros e de funções, mas um só é o Espírito, que para a utilidade da Igreja distribui os seus vários dons com magnificência proporcional à sua riqueza e à necessidade dos serviços (1 Cor 12, 1-11).
A diferença está no modo de participação no sacerdócio de Cristo e é essencial no sentido de que «enquanto o sacerdócio comum dos fiéis se realiza no desenvolvimento da graça baptismal — vida de fé, de esperança e de caridade, vida segundo o Espírito — o sacerdócio ministerial está a serviço do sacerdócio comum, refere-se ao desenvolvimento da graça baptismal de todos os cristãos». Por conseguinte, o sacerdócio ministerial «difere essencialmente do sacerdócio comum dos fiéis porque confere um poder sagrado para o serviço dos fiéis». Para este fim, o sacerdote é exortado a «crescer na consciência da profunda comunhão que o liga ao Povo de Deus», para «suscitar e desenvolver a co-responsabilidade na comum e única missão de salvação, com a pronta e cordial valorização de todos os carismas e tarefas que o Espírito oferece aos crentes para a edificação da Igreja».
As características que diferenciam o sacerdócio ministerial dos Bispos e dos presbíteros do sacerdócio comum dos fiéis e que consequentemente delineiam os limites da colaboração destes no sagrado ministério podem ser assim sintetizadas:
a) O sacerdócio ministerial tem a sua raiz na sucessão apostólica e é dotado de um poder sagrado que consiste na faculdade e na responsabilidade de agir na pessoa de Cristo Cabeça e Pastor.
b) Esse sacerdócio torna os ministros sagrados servidores de Cristo e da Igreja, mediante a proclamação autorizada da palavra de Deus, a celebração dos sacramentos e o governo pastoral dos fiéis.
Colocar os fundamentos do ministério ordenado na sucessão apostólica, já que esse ministério continua a missão que os Apóstolos receberam de Cristo, é ponto essencial da doutrina eclesiológica católica. Portanto, o ministério ordenado é constituído sobre o fundamento dos Apóstolos para a edificação da Igreja: «ele existe totalmente em função do serviço da mesma Igreja». «Intrinsecamente ligado à natureza sacramental do ministério eclesial está o seu carácter de serviço. Com efeito, inteiramente dependentes de Cristo que confere missão e autoridade, os ministros são verdadeiramente “servos de Cristo” (Rm 1, 1), à imagem de Cristo que assumiu livremente por nós “a condição de servo” (Fl 2, 7). E porque a palavra e a graça de que são ministros não são deles, mas de Cristo que lhas confiou em favor dos outros, eles se farão livremente servos de todos».
O padre está ao serviço dos servos de Deus. Somos todos chamados a servir, a implantarmos e desenvolvermos o Reino de Deus, aqui e agora.
Fonte: http://luzevidacomunidade.blogspot.com/2007/01/o-sacerdcio-dos-leigos-e-o-sacerdcio.html
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IRMANDADES RELIGIOSAS LEIGAS, NAS MINAS GERAIS,
NO SÉCULO XVIII

Copyright ©1997, 2000, Jorge da Cunha Pereira Filho

NOTA: publicado originalmente no BOLETIM do Projeto “Pesquisa Genealógica Sobre as Origens da Família Cunha Pereira”, Ano 03, Nº 09, de 01/dez/1997, pags. 90-95. Na Internet no extinto e-Journal of Genealogy em junho/2000


As chamadas Sociedades Religiosas Leigas, mais conhecidas como Irmandades Religiosas (Leigas) são entidades de muitas facetas. Elas são também conhecidas pelas denominações genéricas de origem latina: confraternitas, sodalitas, sodalitium, confraternitas laicorum, congregatio, pia unio, societas, coetus, consociatio. Em português, as outras denominações mais comuns (além de Irmandades Religiosas) são: Confrarias Religiosas Leigas, Ordens Religiosas Leigas e Sodalícios [ver: BOSCHI, Caio Cesar, Os Leigos e o Poder: (Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais), Ed. Ática, São Paulo, SP, 1986, 254 pags., ISBN 85-08-01354-X, à pag. 14].

QUADRO 1 – CARACTERÍSTICAS DAS SOCIEDADES RELIGIOSAS LEIGAS

DENOMINAÇÃO

DESCRIÇÃO

REFER.

Pia União

Associação de fieis que tenham sido erectas para exercer alguma obra de piedade ou caridade. Não houve Pia União no Brasil colonial.

pag. 14

Irmandade

Mesmo objetivo da Pia União, porém constituída em organismo, ou seja, com organização.

pag. 15

Confraria

Irmandade que também tenha sido erecta para o incremento da prática do culto público.

pag. 15

Arquiconfraria

Confraria com poder de agregação, transferindo às afiliadas os privilégios e indulgências da “confraria-mãe”, embora a agregante não tenha nenhum direito sobre as agregadas.

pag. 17

Ordem Terceira

Associação Pia que, ao contrário da Confraria, onde o objetivo é o incremento do culto público, preocupa-se somente com a perfeição da vida cristã de seus membros, que seguem as regras da correspondente Ordem Primeira, adaptadas para os leigos, chamados de “Irmãos Terceiros”.

pag. 19

FONTE: BOSCHI, Caio Cesar, Os Leigos e o Poder: (Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais), Ed. Ática, São Paulo, SP, 1986, 254 pags., ISBN 85-08-01354-X. Essas Irmandades tiveram um papel muito importante na formação da cultura e da sociedade portuguesa, de traço marcantemente mutualista, e, por extensão, da colônia brasileira. Esse papel ainda é quase desconhecido. Só em Minas Gerais, do ciclo do ouro, fundaram-se centenas delas, ilustres desconhecidas, com raras exceções. Havia Irmandades não só em todas as Vilas, mas em todos os Arraiais e até mesmo em simples Povoados, absorvendo em todos os locais uma parcela considerável do tempo e da vida de toda a população, senhores ou escravos. Na realidade, é preciso observar que, conforme a denominação, essas Sociedades tem caráter inteiramente diferente, conforme consta do quadro 1. Os objetivos de algumas Sociedades Religiosas Leigas, todavia, ultrapassam de muito os constantes do quadro 1. Além de objetivos espirituais, muitas das irmandades destinam-se também a prestar assistência material aos seus associados e famílias ou até mesmo a não associados, como é exemplo o das Irmandades das Santas Casas de Misericórdia, que, até hoje, socorre a todas as pessoas, indiscriminadamente, prestando serviço totalmente ou quase gratuito. A primeira Ordem Terceira, no mundo, foi fundada pelo próprio São Francisco de Assis. Algumas dessas Ordens Terceiras, além dos seus objetivos que são comuns ás demais, prestam assistência material aos seus associados e famílias, como é exemplo a Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, do Rio de Janeiro, RJ. Todas, praticamente sem exceção, mantém cemitérios próprios, depois que foi proibido o sepultamento dentro das igrejas, a partir da década de 1850. Muitas mantém hospitais para assistir associados e familiares. Na Capitania de Minas Gerais, durante o ciclo do ouro, fundaram-se centenas de Sociedades Religiosas Leigas, dentre as quais se destaca a Arquiconfraria do Cordão Seráfico de São Francisco de Assis, a qual foi inicialmente estabelecida simultaneamente em: Vila Rica, Mariana, São João D’el-Rey e Sabará. Nos seus quadros só se admitiam pessoas pardas. A partir desse fato, ocorreu uma associação de idéias, em Minas Gerais, entre Arquiconfraria e pardos, mas que não pode ser estendida para outras regiões do Brasil [ver: BOSCHI, Caio Cesar, Os Leigos e o Poder: (Irmandades Leigas e Política Colonizadora em Minas Gerais), Ed. Ática, São Paulo, SP, 1986, 254 pags., ISBN 85-08-01354-X, à pag. 19].

QUADRO 2 – CATEGORIAS DAS SOCIEDADES RELIGIOSAS LEIGAS

CATEGORIA

DESCRIÇÃO

Eclesiástica (Religiosa)

fundada por autoridade eclesiástica ou com o consentimento do prelado.

Secular (Civil)

fundada por leigos subordinada à autoridade civil e apenas visitada pelo eclesiástico.

Fonte: http://www.gentree.org.br/artigos/irm-mg.htm

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LEIGO

[Do grego "laos", povo.] Membro do povo de Deus, batizado, fiel, cristão. Mais precisamente, aquele que não pertence ao clero. Esta distinção tem a ver com a separação bíblica entre pastor e ovelhas (At 20,28.31; IPd.5,3) mas não significa que os leigos seriam apenas objeto da ação doutrinal, organizatória e santificante dos padres. v. Sacramento. Todo cristão é testemunho da graça de Deus e tem função ativa na obra da salvação.   A partir da reforma da Igreja pelo Papa Gregório VII, no séc. XI, foi proibida aos leigos a pregação da palavra de Deus. Depois do surgimento do protestantismo no séc. XVI, aumentou na Igreja católica o desnível entre o clero e os leigos. O Papa  Gregório XVI, em sua Bula de 1834, declara: “Ninguém pode duvidar que a Igreja está fundada sobre a desigualdade de seus membros, na qual uns foram chamados por Deus para dominar e outros para obedecer; estes últimos são os leigos, aqueles são os eclesiásticos”.[1]

O Brasil-colônia, a Igreja começou como um catolicismo leigo. Havia poucos padres. Muitos leigos se organizaram em irmandades e ordens terceiras, construíam suas igrejas, santas casas. Eremitas faziam penitência e andavam a pedir esmolas. Pelo regime do padroado, o rei, grão-mestre da Ordem de Cristo, era o chefe da Igreja. A ele competia as tarefas da catequese, da promoção do culto e da sustentação dos ministros eclesiásticos.  w  O cenário mudou pela romanização (séc. XIX e XX). No tempo da República, vieram da Europa novas organizações religiosas como o Apostolado da Oração, marianos, vicentinos, Filhas de Maria, sempre sob forte orientação clerical. No começo do séc. XX, já existiram entre nós a Confederação Católica que incentivava os intelectuais, a Liga Eleitoral Católica (LEC) que formava o leigo político e a Ação Católica Brasileira.

Se antes do Concílio Vaticano II (1962-1965) o leigo na Igreja era problema para os teólogos e objeto de pastoral específica, depois do Concílio Vaticano II tornou-se problema o próprio clero. A Constituição Dogmática “Luz dos Povos” do Conc.Vaticano II., dedica aos leigos o Cap.4 que termina dizendo: “O que a alma é no corpo, isto sejam no mundo os cristãos”.

O Brasil tornou-se um pais católico pela fé dos leigos portugueses, dos quais muitos eram pobres. Eles viviam suas tradições em casa e na sociedade. A maioria dos santuários de romaria no Brasil foi fundada por leigos, principalmente por eremitas.
A religiosidade popular continua tendo um forte caráter leigo, nos moldes familiares. A parte coletiva é vivida em irmandades e toda sorte de grupos de base.

No tempo da romanização, centralizou-se o poder nas mãos do clero, nas paróquias.

Eixos do apostolado dos leigos hoje: vida familiar, comunidades carismáticas, Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), movimentos leigos dedicados aos mais variados setores da vida social e cultural. Sua ação no meio das realidades econômicas e sociais, junto com a transmissão da cultura à luz dos Evangelhos é um ponto chave do seu apostolado. A participação dos leigos nas decisões da Igreja é fundamental nas CEBs.

Alguns problemas teóricos: a diferença “essencial” entre o sacerdócio ministerial e e o sacerdócio comum dos fiéis (Lumen Gentium, 10) parece enfraquecer a igualdade fundamental entre todos os fiéis (LG, 32c); a definição da missão da Igreja como a evangelização, por sua vez inseparável da libertação integral do homem (Evangelii Nuntiandi), poderá aproximar o sacerdócio e o laicato. A nível prático, é preciso favorecer a participação dos leigos nas decisões; por isso, a informação e formação dos leigos é fundamental; a pluralidade dos ministérios leigos há de ser incentivada.[2]

O Projeto Rumo ao Novo Milênio, no capítulo sobre os sujeitos da nova missão, afirma: “A mudança ‘Rumo ao Novo Milênio’ exige, como vimos, o que Santo Domingo (1992) chamou ‘protagonismo dos leigos’, evitando toda forma de clericalismo e de redução ao intraeclesial (Cf. Doc.Santo Domingo, 97). Trata-se de abrir efetivamente as portas à participação de todos os fiéis, cada um de acordo com a graça recebida entre os multiformes dons de Deus à Igreja. A mobilização dos leigos, a criação de condições que lhes permitam ser adultos na fé e comunicadores do Evangelho, a diversificação dos ministérios, abrindo novos espaços de atuação organizada no serviço da Igreja, são todas exigências da Nova Evangelização (…)”.[3]

Leigos santos, encontramos alguns, entre os personagens bíblicos e alguns mártires dos primeiros séculos. Mas, entre os oficialmente canonizados há muitos membros do clero, como bispos, fundadores de Ordens religiosas, irmãs e padres milagreiros e há alguns reis e rainhas, mas poucos pais e mães de família ou trabalhadores. Santos índios, Santos negros, o povo os cultua sem a canonização oficial.

Mais sobre o assunto: BOSCHI, Caio Cesar. Os Leigos e o Poder. São Paulo, Ed. Ática, 1986.
[1] Apud: ZICO, José Tobias. Pe.  Ozanam e o Leigo na Igreja. Belo Horizonte, 1971. p.13.
[2] CNBB. Leigos e Participação na Igreja: reflexão sobre a caminhada da Igreja no Brasil. (Estudos da CNBB, 45) São Paulo, Ed.Paulinas, 1986. pp.133-136.
[3] CNBB. Rumo ao Novo Milênio. São Paulo, Ed.Salesiana, 1996. p.33.

Fonte: http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/leigo.htm

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