A sabedoria da Igreja em considerar o assunto e as imposturas diabólicas.
Nossa Senhora é nossa mãe. E não é de admirar que Ela queira aparecer, para ensinar e proteger seus filhos. De outro lado, porém, o inimigo de nossa salvação, que se apresenta por vezes como “anjo de luz” (II Cor 11,14), tem empenho em fabricar falsas aparições para desviar os fiéis. E há também charlatães que inventam aparições, com motivos escusos. A sapiencialidade da Igreja nesta matéria deve ser nosso modelo.* Yves Chiron, Enquête sur les apparitions de la Vierge, Ed. Perrin/Mame, França, 1995, 430 pp.
Tenhamos cuidado e analisemos cautelosamente as múltiplas notícias sobre aparições de Nossa Senhora hoje em dia. Posso acreditar no que ouço falar de tais aparições?
Perguntas como esta são apresentadas com certa freqüência aos que divulgam a devoção à Santíssima Virgem. Nossa revista já tem tratado dos critérios que utiliza a Santa Igreja para reconhecer se aparições merecem fé (ver Catolicismo, nº 560, agosto de 1997; e nº 572, agosto de 1998, “A Palavra do Sacerdote”). Não falaremos, portanto, especificamente dessa questão. Nossa intenção aqui é apenas apresentar alguns dados para auxiliar o meritório labor de pessoas dedicadas a responder tais perguntas.
Um primeiro ponto a ser considerado é a seriedade com que a Igreja encara essa matéria. Divinamente inspirada, e com a experiência de 20 séculos de História, Ela analisa com muito cuidado todas as manifestações supostamente sobrenaturais. Depoimentos são tomados, analisados, revisados. Verifica-se se não há algo que deponha contra a aparição e se nenhum detalhe desabonador foi esquecido. E só após cuidadoso exame a Santa Igreja reconhece a autenticidade desta ou daquela aparição. Mais precisamente: declara-as “dignas de crédito”, sem impor aos fiéis a sua aceitação.
Para avaliar a seriedade desse trabalho, alguns dados estatísticos poderão ser de utilidade para nós.
Aparições em números
Tenho em mãos um livro intitulado “Enquête sobre as aparições da Virgem”,* que procura fazer uma análise, com rigor histórico, das diversas aparições marianas ocorridas no século XX. O autor não toma posição nas controvérsias, não se manifestando a favor ou contra esta ou aquela aparição. Limita-se a registrar os fatos. A parte que nos interessa no presente artigo encontra-se no final da obra: uma tabela registrando as aparições desde 1900 até 1993; portanto, durante quase todo o século XX. No total, são 362 aparições analisadas.
Ao lado de cada uma encontra-se uma descrição do seu status. Ou seja, se as aparições foram aprovadas — e, portanto, solenemente reconhecidas, no sentido acima explicado — pelo bispo local; se tiveram algum culto autorizado pelas autoridades competentes, portanto algo de muito menos peso do que a aprovação, mas que representa, em todo caso, um bom sinal; se foram desautorizadas total ou parcialmente; ou se inexiste, até o presente, qualquer decisão das autoridades eclesiásticas a respeito do ocorrido.
O primeiro aspecto que chama a atenção é o baixíssimo número de aparições aprovadas: apenas quatro. Ao que saibamos, mais uma foi aprovada posteriormente — totalizando cinco, portanto — mas isto representa pouco mais de 1% das aparições analisadas. Outras 11 tiveram algum culto autorizado, sendo a maioria destas anteriores a 1950.
Em sentido contrário, há 79 aparições desautorizadas, ou seja, pouco mais de 20%.
Traduzidos estes números em linguagem mais simples, eles significam que a Igreja, das aparições do século XX, aprovou uma em cada 100 e desautorizou uma em cada 5. Tais dados são significativos para exprimir o rigor da Igreja Católica ao examinar os fatos. E também revelam como os fiéis devem igualmente ser sérios e agir cautelosamente nesta matéria, não se deixando levar por ondas e sensacionalismos.
Ardis do demônio
Chama a atenção que, das cinco aparições aprovadas no século XX, duas ocorreram na Bélgica: uma em Beauraing, no ano de 1932, e outra em Banneux, em 1933. Pouco depois começou uma onda de “aparições” naquele mesmo país. Até 1936 — portanto, quatro anos depois da primeira aparição reconhecida como verdadeira — surgiram ali nada menos que 15 “aparições”, sendo 10 destas condenadas pela Igreja; e a respeito das outras cinco, ainda não houve nenhuma decisão.
Não constam falsas aparições em Portugal, após os acontecimentos de Fátima. Como explicar tal diferença?
Duas táticas diabólicas
Parece-nos que o demônio, pai da mentira, utiliza duas táticas diferentes, segundo a diversidade de situações. Num primeiro caso, tenta ele desprestigiar as manifestações sobrenaturais, multiplicando de modo desmesurado o número de “aparições”. Desta forma, normalmente as pessoas, tomando conhecimento delas — que, em muitos casos, comportam “profecias” rapidamente desmentidas pela realidade ou atitudes francamente reprováveis por parte do “vidente” ou “videntes” — ficam desconfiadas se a aparição verdadeira não fará parte dessa avalanche de manifestações tidas como sobrenaturais. Igualmente, conhecendo o demônio o bem que produz nas almas tíbias ou indiferentes um acontecimento bom inesperado, procura desvirtuá-lo, pela multiplicação de outros eventos semelhantes, o que tende a tornar qualquer aparição um fato banal. Se chegam ao nosso conhecimento duas aparições verdadeiras cercadas por 10 falsas, poderá pairar uma dúvida terrível acerca das duas verdadeiras até a Igreja estudar todos os casos e se pronunciar sobre eles, o que tirará às verdadeiras aparições muito de sua eficácia. Sem falar dos charlatães…
Autenticidade X embustes
No caso de Fátima, a situação é completamente diferente. Nossa Senhora enviava uma mensagem de transcendental importância para o mundo todo, anunciando o fim de uma era histórica revolucionária e, após castigos e provações — se os homens não se arrependerem — o início do reinado de seu Imaculado Coração. Tudo isso apresentava um porte universal, e não apenas vantagens locais para os videntes ou outros. Lembremos que na última aparição teve lugar o milagre do sol, testemunhado por milhares de pessoas. Sua repercussão foi enorme, e Fátima constitui um tema polêmico até hoje. Nesse caso, para o demônio conseguir realizar fato semelhante, teria que operar um grande e autêntico milagre, o que lhe é de todo impossível.
Seria difícil ao príncipe das trevas misturar um acontecimento do magnífico porte de Fátima com várias pseudo-aparições ridículas, minguadas e até contraditórias. Então, o que faz ele? Utiliza a tática do silêncio. Procura evitar que se fale da verdadeira aparição. Se ele inventasse outras “aparições”, elas não fariam sombra aos portentos realizados por Nossa Senhora em Fátima. Pelo contrário, fariam com que o denso conteúdo das aparições fosse lembrado e comentado. Assim sendo, a tática melhor para o maligno é tentar lançar sobre elas o véu do esquecimento.
Castigo e prêmio silenciados
Nessa ordem de idéias, compreende-se que o diabo procure desvirtuar a mensagem de Nossa Senhora em Fátima. Oblitera-se o lado trágico da mensagem, o apelo materno a uma humanidade chafurdada no pecado, a advertência sobre os castigos que se aproximam. Por isso, nota-se um duplo jogo, que favorece o demônio: é melhor que não se fale dos eventos de Fátima; mas, sendo imperioso falar, procurar apresentá-los como acontecimentos sem maiores conseqüências para a humanidade, como que neutros, sem a idéia de castigo e de prêmio.
Muito haveria a dizer sobre as diversas aparições de Nossa Senhora e suas contrafações, inventadas ou instrumentalizadas pelo maligno. Aparecendo a oportunidade, iremos exibindo fatos e argumentos para ajudar os católicos fiéis, desejosos de uma maior segurança doutrinária nesse tema, a formar sua opinião. Assim, contribuiremos para difundir uma verdadeira devoção à Mãe de Deus, “interior, terna, santa, constante e desinteressada”, segundo as palavras de São Luís Maria Grignion de Montfort, em seu famoso Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem.
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Fonte de referência: * Yves Chiron, Enquête sur les apparitions de la Vierge, Ed. Perrin/Mame, França, 1995, 430 pp.
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