Os erros dos homens não provêm apenas da ignorância, mas principalmente da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras. Os olhos vêm pelo coração e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor assim as vistas se tingem dos mesmos humores, de que estão bem ou mal, afetos os corações´. Essas são palavras do Padre Antônio Vieira no ´Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma de 1669´. Pascal, um século após, repetiria o mesmo pensamento com exemplar concisão: ´O coração tem razões que a própria razão desconhece´. Dotado de personalidade riquíssima e de aspectos aparentemente contraditórios, Vieira, catequista de indígenas, pregador jesuíta, orador em cortes européias, missionário, professor de humanidades e de filosofia, homem de estado, pensador de larga visão, de enorme atividade epistolar e arguto ator em política externa, diplomata síntese de sua época o foi, igualmente, ´o mestre da prosa portuguesa clássica´, consoante a definição precisa do professor Rubem Queiroz Cobra.
Não se pode deixar de ressaltar como característica primordial do Padre Vieira a simbiose aparentemente contraditória do orador sacro com o político. Seus sermões, sobremodo, foram utilizados como veículo de propagação sacerdotal missionária dos preceitos evangélicos e coincidiam com a patriótica solução de problemas múltiplos, sócio-econômicos em especial, em favor de sua pátria-mãe e de suas colônias. A propósito, no instante em que se faz memória da passagem do quarto centenário do nascimento do Padre Antônio Vieira e no momento em que celebramos a passagem dos sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, impõe-se-nos dar ênfase ao obstinado papel que exerceu o Padre Vieira na defesa dos índios, negros, escravos, cristãos novos e judeus.
Vale salientar duas lúcidas constatações do embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, em suas ´Palavras liminares´, registradas no livro ´Traços marcantes da vida do Pe. Antônio Vieira´, de autoria do padre e professor da UnB José Carlos Aleixo: ´quando também agora se assinalam os 200 anos da presença da corte portuguesa, cabe lembrar que a idéia de deslocação da capital do Império para o Brasil havia sido aventada por Vieira bem antes de 1808, pelo que talvez também lhe deva caber parte do mérito de empreendimento fundacional da modernidade brasileira´; e ´Num tempo em que a ética pública atenta cada vez mais para as questões dos Direitos Humanos, mais notável se torna a presciência de Antonio Vieira ao adiantar, na humanidade de seu verbo, muitas das preocupações que agora nos são comuns mas que, à época, representavam uma nem sempre confortável visão antes do tempo´.
Clóvis Bulcão, historiador e escritor de romances históricos, ao se reportar à presença da comunidade judaica do Recife no período da ocupação holandesa, registra a atuação de Vieira entre os cristãos novos, então muito discriminados, e o inclui como o primeiro, à época, a falar da convivência dos cristãos e judeus.
Da mesma forma, anota o historiador, Vieira considerava a catequese dos índios como a única maneira de conquistar a região amazônica.
De 1652 a 1661, atuou Vieira como missionário no Maranhão, empunhando a defesa dos índios -e o fazia do púlpito que, segundo o padre e professor da UnB José Carlos Aleixo, era considerado por Vieira como ´a única tribuna independente, perante a autoridade civil, para expressar agravos populares´.
De lá foi expulso, juntamente com os demais jesuítas, pelos moradores que se sentiram prejudicados pela alforria dos indígenas daquele regime escravocrata que lhes vinham impondo.
Concluo com o poeta Fernando Pessoa: ´O céu estrela o azul e tem grandeza/ Este, que teve a fama e a glória tem,/Imperador da língua portuguesa,/Foi-nos um céu também´. Essas palavras, inseridas na ´Obra Poética´ do maior vate de Portugal no século passado, expressam o reconhecimento ao Padre Antônio Vieira, cidadão de dois mundos – autêntico luso-brasileiro – pois, nele se associam utopia e ação, e, em plena harmonia, fé e atividade missionária.
MARCO MACIEL
* Senador e membro da Academia Brasileira de Letras
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=601795
Mais Reportagens:
- A Resposta Católica: “Comunhão e sexo”
- Igreja terá cinco novos beatos.
- Peça de Teatro ofende a Igreja e a Eucaristia
- “Vida, Paixão e Glorificação do Cordeiro de Deus” – Parte 9
- A Tibieza – Santo Afonso de Ligório – PARTE 01
- Sambódromo recebe as bênçãos do Arcebispo do Rio de Janeiro e os passes da umbanda
- PAPA FALA DO BRASIL E ALERTA PARA ‘RISCOS DA DEMOCRACIA’
- Santa Margarida Maria Alacoque – Virgem


Tweet Isto
Compartilhar no Facebook
Salvar no delicious
Assinar Feed
