Resposta:
Dom José Cardoso teve comprovações de que estes órgãos ensinavam e difundiam entre os padres, freiras, seminaristas e leigos, os ideais da TL, Teologia da Libertação que altera os ensinamentos de Jesus Cristo usando as palavras do Evangelho distorcendo-as em prol dos temas sociais com viés marxistas, para provocar confusão e litígio entre pobres e ricos, com o objetivo de tirar proveito e alcançar o poder político com o caos estabelecido na sociedade.
Dom Helder Câmara não se submetia as ordens do Vaticano que muitas vezes reprovou suas ações e ensinamentos no Movimento da Juventude Operária Católica, na Legião Cearense do Trabalho, entre outros.
Dom Helder adorava ouvir musica clássica, era por demais inserido nos movimentos sociais, dizia buscar uma união entre o socialismo e o capitalismo com as idéias do Integralismo, movimento fascista italiano. Com ideais mais comunistas do que evangélicos dom Helder trabalhou para que a questão da pobreza e miséria fosse um motivo para se fazer uma reforma interna na Igreja. O Papa João Paulo II foi o grande opositor da disseminação das doutrinas marxistas dentro da Igreja.
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João Paulo II ao visitar o Brasil, avisou aos Bispos latino-americanos que não aprovava a mistura de teologia com política.
Católico! Se um Bispo ou um Padre desobedece ao Papa, de que lado você fica? Eu fico do lado do Papa.
DA REPORTAGEM QUE VOCÊ PODE LER MAIS ABAIXO TIREI AS SEGUINTES FRASES:
“A Teologia da Libertação é uma teoria falsa” (João Paulo II).
“Se se começa a politizar a teologia, já não é mais teologia. Trata-se de uma doutrina social, um tipo de teologia, mas não de doutrina religiosa” (João Paulo II).
“…Há a tendência de se politizar todos os problemas, inclusive os de religião e os de moral. As tarefas da Igreja, porém, são muito mais claras” (João Paulo II).
“Não tenhamos a ilusão de servir ao Evangelho se temos de diluir nosso carisma sacerdotal num exagerado interesse pelo vasto campo dos problemas temporais, se desejamos laicizar o nosso modo de viver e sentir, se cancelamos até os sinais exteriores de nossa vocação sacerdotal” ((João Paulo II).
Quando o padre brasileiro João Batista Libânio apresentou a teoria de que as comunidades de base eram o embrião de um futuro partido popular, o papa disparou contra a idéia num documento – “Evangeli Nutiandi 38″ – que ressalvava: “Podem ser comunidades de base, mas não comunidades eclesiásticas de base” (João Paulo II).
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DEPOIS QUE SE MORRE SE VIRA SANTO, SE É APLAUDIDO E ELOGIADO, MESMO QUE SE TENHA VIVIDO EM DESOBEDIÊNCIA AS ORDENS DA IGREJA?
O que revelam no coração, os homens e mulheres que elogiam depois de sua morte, aqueles que em vida iam contra a autoridade do Papa?
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Leia essa reportagem de jornal.
TRAJETÓRIA DE LUTA
Uma vida de dedicação à causa dos pobres
A vida de dom Helder Câmara, que hoje completaria 100 anos, é pontuada pela luta incansável contra a miséria, que não foi bem vista durante a revolução militar, valendo-lhe a alcunha de ´Bispo Vermelho´. Sem abandonar esses princípios, originários da Teologia da Libertação, respeitou a hierarquia da Igreja Católica, mesmo vendo seu trabalho de 22 anos na Arquidiocese de Olinda e Recife desmoronar. O empenho em aproximar a Igreja do povo resultou no fim das missas em latim e também na criação da CNBB
O 11º filho do casal João Eduardo Torres Câmara, guarda-livros da Casa Boris Frères, e Adelaide Rodrigues Pessoa Câmara, professora. Nasceu no Centro de Fortaleza, em casa localizada onde hoje está o Mercado Central. A família contou que a mãe desejava o nome José, mas o pai abriu um atlas aleatoriamente e achou bonito o nome de uma cidadela ao norte da Holanda, Helder, cujo significado — limpo ou pensamento claro — bem o resume.
Helder Pessoa Câmara cedo demonstrou interesse pela vida religiosa. Tanto que, aos quatro/ cinco anos, brincava de celebrar missas. O sonho de tornar-se sacerdote resistiu aos discursos do pai maçom; ao tifo, que faz a irmã, Nair, por promessa, passar anos sem dançar; e também à epidemia de crupe, que levou seis dos 13 filhos do casal Câmara.
Aos 14 anos, ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza e, em 1931, aos 22 anos, com autorização especial da Santa Sé, por não ter a idade mínima exigida, ordenou-se.
Dedicado inicialmente ao Movimento da Juventude Operária Católica, fundou, em 1931, a Legião Cearense do Trabalho. Buscando meio termo entre socialismo e capitalismo, simpatizou com o Integralismo, movimento com bases no fascismo italiano.
A simpatia ao movimento, no entanto, não durou muito. Nos anos 1930 — quando o Brasil se industrializava e a população migrava do campo para a cidade — cresciam outras religiões. O ambiente, favorável ao pensamento católico democrático, influenciou a mudança de pensamento do então padre Helder. Em 1936, foi transferido para o Rio de Janeiro e viu, na Ação Católica, forma de organização que poderia contribuir para a renovação das práticas da Igreja, com a preocupação, também, de criar uma ordem social mais justa.
Os anos de 1950 são dedicado à mobilização dos bispos do Brasil e das Américas, esforço bem sucedido que resulta na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1952; e no Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), em 1955. Sagrado bispo, no Rio de Janeiro, em 1952, assume, durante 12 anos, a secretaria geral da CNBB. Em 1964, torna-se arcebispo de Olinda e Recife.
De 1962 a 1965, no Concílio Vaticano II, dom Helder faz um trabalho silencioso e eficiente, com o desejo de por em pauta a questão da miséria e incentivar uma reforma interna na Igreja Católica. Para começar, defendeu a substituição do latim em celebrações, catequeses, orações e cantos pela língua viva em cada país, incentivando a participação dos fiéis.
No início da revolução militar, é bispo de todos, acima de direita e esquerda. O clima entre a Arquidiocese e militares é de camaradagem. Dom Helder prega para militares, com a pretensão de “converter” a revolução. Aos poucos, porém, seu discurso passa a ser visto como “vermelho”.
Após o Ato Institucional Nº 5, cai em desgraça. Em artigos anônimos, é chamado de comunista, difamador do Brasil, falso profeta, político demagogo; em pichações, de mentiroso, infiel, antipratriota; em denúncias oficiais, é acusado de promover guerrilhas, financiar entidades comunistas, ser amigo de Fidel Castro.
Entre 1970 e 1975, houve muita perseguição, prisão e tortura entre as pessoas mais próximas ao pastor. A residência oficial do bispo foi metralhada; além disso, telefonemas anônimos, ameaças de morte, insultos e palavrões nos muros do Palácio Episcopal. Indicado ao Nobel da Paz em 1970, 1971, 1972 e 1973, enfrentou campanha difamatória da revolução militar que provavelmente impediu a titulação.
A partir de 1985, viu seu trabalho de 22 anos à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife desmoronar, a partir da posse do seu sucessor, dom José Cardoso Sobrinho, que fechou o Instituto de Teologia do Recife (Iter) e o Seminário Regional Nordeste II (Serene II), mas silenciou em respeito à hierarquia da Igreja Católica.
CINEMA E LITERATURA
O santo rebelde
A pesquisadora e cineasta mineira Érika Bauer, radicada em Brasília, responsável pelo documentário “Dom Hélder Câmara: o Santo Rebelde”, contou que dois fatores principais a influenciaram a querer contar a história do religioso: o primeiro foi perceber o carisma que dom Helder apresentava diante das câmeras e o segundo foi perceber que a maioria das pessoas que já ouvira falar dele desconhecia sua trajetória.
Ela partiu, então, para uma longa pesquisa de imagens que abrangeu, além do Brasil, França, Alemanha, Itália e Holanda. Érika captou logo a essência de dom Helder, homem que enxergou na mídia, antes de todos, o caminho para difundir os ideais da “Teologia da Libertação”, que alia os ensinamentos do Novo Testamento a questões sociais, com viés marxista.
Sua história de vida, densa e complexa, com ações inúmeras vezes desaprovadas pelo Vaticano, levaram Érika a optar por um documentário de linguagem tradicional, sem experimentalismos.
Dispensando depoimentos de personalidades, preferiu centrar-se, nas mais de 60 horas de imagens e nas gravações que captou com aqueles que conviveram estreitamente com o arcebispo.
O filme contém relatos do arcebispo sobre sua escolha, ainda na infância, pelo caminho clerical; a ordenação; a rápida passagem pelo Integralismo, atraído pelo caráter nacionalista do movimento; a transferência para o Rio, onde se tornou nacionalmente conhecido e começou a colocar em prática, de maneira mais efetiva, seus idéias de justiça e paz social. Durante este período, o religioso conheceu o futuro papa Paulo VI, abrindo caminho para sua mobilização que resultou na implantação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Segue mostrando que, numa tentativa frustrada de abrandar seu discurso e esvaziar suas ações na então politizada ex-capital federal, uma manobra militar levou-o ao Recife, onde dom Hélder não só continuou sua missão evangelizadora, marcada pela “Teologia da Libertação”, como atingiu projeção internacional.
No auge da perseguição política do governo militar, a Suécia o indicou quatro vezes consecutivas ao “Prêmio Nobel da Paz”, entre 1971 e 1974, que, afinal, nunca recebeu.
Documentos indicam uma ação secreta do governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), embora nem o documentário de Erika, nem a biografia “Dom Hélder Câmara: entre o Poder e a Profecia”, dos professores Nelson Piletti e Walter Praxedes, publicada em 1997, e “bússola” do documentário, tenham conseguido comprovar esta interferência de maneira categórica.
Maristela Crispim
Repórter
LINHA DO TEMPO
1909
Nasce, no dia 7 de fevereiro, no Centro de Fortaleza, Helder Pessoa Câmara, 11º filho dos 13 do casal João Eduardo Torres Câmara e Adelaide Rodrigues Pessoa Câmara
1931
Ordena-se padre, aos 22 anos, com autorização especial da Santa Sé, por não ter a idade mínima exigida. No dia seguinte, celebra sua primeira missa, na Igreja da Sé
1931
Dedicado inicialmente ao Movimento da Juventude Operária Católica, funda, com amigos, a Legião Cearense do Trabalho, já simpatizante do Integralismo
1936
É transferido para o Rio de Janeiro, onde ingressa na Ação Católica com o intuito de contribuir para a renovação das práticas da Igreja e passa a ser conhecido nacionalmente
1952
É eleito bispo no Rio de Janeiro e ajuda a constituir a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual é secretário-geral por 12 anos consecutivos
1964
Torna-se arcebispo de Olinda e Recife, posição que ocupa durante 21 anos, período em que sofre perseguição da revolução militar e projeta-se internacionalmente
1970 a 1973
Indicado quatro vezes ao Prêmio Nobel da Paz, indícios levam a crer que companha de difamação movida por setores conservadores influenciou o resultado
1985
Dom José Cardoso Sobrinho assume o arcebispado de Olinda e Recife, fechando o Instituto de Teologia do Recife (Iter) e o Seminário Regional Nordeste II (Serene II)
1989
Uma grande festa reúne dom Helder Câmara, dom Aloísio Lorscheider e a então secretária de Cultura do Ceará, Violeta Arraes, em Canindé, para comemorar seus 80 anos
1999
Após completar 90 anos, dom Helder morre, dia 27 de agosto, na Casa Paroquial da Igreja das Fronteiras, em Recife, onde passou anos ouvindo música clássica e rezando
2006
Em 10 de setembro, Dia Mundial da Paz, o Diário do Nordeste publica uma edição especial da série ´Os Pacifistas´, destacando, como personagem, dom Helder
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=613178
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Memória (13/4/2008)
Dom Hélder Câmara: centenário de um santo
Dom Hélder Câmara foi alfabetizado por sua mãe a professora Adelaide Rodrigues Pessoa Câmara e por D. Salomé; teve 12 (doze) irmãos, dos quais cinco (05) morreram num período de 29 dias, de difteria, em Fortaleza. Sobreviveram, os irmãos Gilberto, jor-nalista, bacharel em direito, ex-delegado do Instituto de aposentadorias e pensões dos Industriais (I.A.P.I.), Presidente, por muitos anos, da Associação Cearense de Imprensa, casado com Zuleika Stael Catunda Câmara; Dr. Eduardo Câmara, engenheiro agrônomo, casado com Elisa Rocha natural de Camocim; Maria Câmara (Maroquinha), religiosa Irmã Estefânia da ordem das capuchinhas; Mardonio Câ-mara, funcionário da IFOCS (Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas), depois atingiu o comando na Companhia de Navegação Costeira Loyd Brasileiro, terminando como comandante da Petrobrás Petróleos do Brasil, casado com Norma Dias da Rocha e Silva natural de Fortaleza; Nair Câmara, inupta, residente no Rio de Janeiro, auxiliava seu pai no exercício de contabilidade; e, João Câmara que muito jo-vem faleceu (afogado no mar do Poço da Draga início da Praia de Iracema, antiga Praia do Peixe).
O santo padre, Hélder Câmara, nasceu em Fortaleza, no dia 07 de Fevereiro de 1909, na casa da rua da Misericórdia n.º 243, hoje rua Dr. João Moreira, de frente para o Passeio Público Praça dos Mártires, entre as ruas Major Facundo e Barão do Rio Branco, casarão antigo de 5 (cinco) portas tendo porta principal separada por varandas abalaustradas, duas de cada lado, de propriedade da Família do Dr. Gustavo da Frota Braga (seus parentes), onde nasceram quase todos os seus irmãos.
Fez a Primeira Comunhão em 29 de Setembro de 1917 e estudou, de 1923 a 1931, no Seminário da Praínha, em Fortaleza, onde se ordenou com vinte e dois anos e seis meses, no dia 20 de Abril 1931. Nessa ocasião, o padrezinho Hélder aderiu ao Integralismo e, ao mesmo tempo, exercia, também, em Fortaleza, suas primeiras atividades sacerdotais entre intelectuais e operários, sem, contudo, ocupar o posto de vigário. Ocupou, com relevância, junto à Liga Eleitoral Cató-lica, o cargo de diretor do Departamento de Educação do Estado do Ceará (equivalente a secretário de educação).
As revelações
Padrezinho já nasceu consagrado a Deus e por isso sempre quis ser padre, demonstrou sempre forte inclinação para a vida eclesiástica, escolhendo como fonte de prazer, armar altar, brincar de celebrar missas, numa inequívoca visão para as coisas legadas pelo Divino. Bem a propósito do centenário do nosso Dom Hélder Câmara, sua cunhada, Norma Câmara, citava o primeiro milagre do padrezinho: Quando a família se transferira para o Rio de Janeiro, alugou uma casa em Botafogo que deveria abrigar a todos; Dom ou simplesmente padre Hélder passou a celebrar na Escola de Enfermagem de Ana Nery por determinação do episcopado. Certa vez, após terminar o ato de celebração da missa, quando de sua saída da capela, foi abordado por um cidadão que, ao identificar-se para pedir auxílio e contarlhe todo o estado de penúria que em que se encontrava, a ponto de vir a esmolar, para conseguir algo e satisfazer compromissos inadiáveis causadores dos maiores vexames. Por isso obrigava o vir a sua presença, para sair daquele estado de necessidade que já o desanimava levando, assim, quase ao desespero.
O padre Hélder compungindo-se do que ouvira, fez ao pedinte essa ponderação: Olhe meu caro irmão, eu sou padre e pobre, não tenho dinheiro.
Vivo de um pequeno ordenado do Ministério da Educação e ajudo na manutenção da nossa casa. Assim lamento não poder lhe ser útil.
Mas vejo que meu irmão está aflito, e, a única coisa que posso lhe oferecer agora são estes trocados que, por certo, não vão lhe servir em nada, mas, como o vejo fumando, talvez, vá abrandar seu desalentado estado de preocupação adquirindo um maço de cigarrilhas, que ,segundo por ouvir dizer, está premiando fregueses que deles se utilizam…!! Agradecido despediu-se e poucos dias depois voltou ao local para nova conversa com santo padre. E ao aproximar disse-lhe: Voltei, não para pedir, mas para agradecer o que o senhor fez por mim. Por você? – indagou padre Hélder.
Sim por mim! Pois sabe, comprei uma carteira de cigarros que estava oferecendo prêmios e, fui contemplado…
Surpreso, perguntou Dom Hélder: Quem disse que o senhor foi premiado? Fui, e com o fruto da dádiva, quitei todos alugueres atrasados da minha casa, paguei mensalidades dos colégios dos meus filhos, paguei outras dívidas e agora estou aqui para lhe agradecer este grande milagre… que o senhor me proporcionou…
- Por certo você mereceu e Deus concedeu-lhe… Disse padre Hélder.
O ilustre Mário Souto Maior, poeta, contista, pesquisador, colaborador em jornais, autor de inúmeras obras literárias escreveu: ´Um menino chamado Hél-der Câmara´; trocando algumas linhas de seu perfil, acrescenta o seguinte:
´Assim como era um menino diferente dos outros, o padre Hélder Câmara também foi um padre diferente dos outros padres que se limitavam a rezar missa, fazer sermões, confessar os pecadores, fazer novenas no mês de maio, fazer festa da padroeira, caridade e preocupado com os problemas de suas paróquias. O padre Hélder Câmara tinha outros planos.
Queria resolver problemas da pobreza, das crianças que não tinham o pão nem teto, nem o que vestir e não freqüentavam a escola, tamanha era a miséria em que viviam aqueles desafortunados e da sorte por demais desprezados´.
Afirma, ainda, que, quando eleito bispo sua fama cresceu mais ainda diante do grande trabalho, principalmente quando começou a luta pelos Direitos Humanos, combatendo os ricos que queriam escravizar os pobres, negando-lhes os direitos básicos a que têm todos os seres humanos´.
ZENILO ALMADA
*O colaborador é advogado
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CRIAÇÃO DA CNBB (7/2/2009)
Um caminho, muitos legados
Pela dedicação aos irmãos sofridos, dom Helder passou a ser chamado também de ´Dom da Vida´
Uma vida inteira dedicada à Igreja Católica e, nela, ao combate às injustiças, faz de dom Helder um marco na história e resulta num legado que não permite que seu nome seja esquecido. “Quando dou de comer aos pobres, chamam-me santo, quando pergunto porque é que os pobres têm fome – chamam-me comunista”. Foi assim que dom Helder resumiu suas dificuldades com as autoridades políticas e religiosas, quando era contestado a propósito de sua obra social e profética em favor de uma maior igualdade e justiça no país e na Igreja.
Sua batina branca era surrada, celebrava suas missas sem pompas, morava numa casa modesta na periferia da cidade do Recife. Sua obra, de fato, não o apresenta como teólogo, filósofo ou revolucionário teórico, mas como um pastor, no sentido mais amplo da palavra, preocupado com o bem-estar social e religioso do povo. Ele desejava uma Igreja mais participativa, orientada para a defesa dos pobres e a favor dos movimentos sociais e, por isso, é considerado precursor da Teologia da Libertação.
Militância católica
Em 1952, sua dedicação à mobilização dos bispos do Brasil e das Américas, resultou na criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual foi secretário-geral 12 anos; e também no Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), três anos depois. Por meio da CNBB, os bispos exercem funções pastorais em favor dos fiéis e procuram dinamizar a missão evangelizadora, para promover a vida eclesial, responder mais eficazmente aos desafios contemporâneos, por formas de apostolado adequadas às circunstâncias e trabalhar na edificação de uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.
Paralelamente às atividades religiosas, dom Helder criou projetos e organizações pastorais, destinadas a atender às comunidades do Nordeste, que viviam em situação de miséria. Uma pesquisa com o nome “dom Helder Câmara”, no site de procuras Google, apresenta 250 mil resultados. Entre os primeiros está o site www.domhelder.org.br, do Serviço de Notícias Dom Helder Câmara. Lá também está presente o site www.projetodomhelder.gov.br.
O Projeto Dom Helder Camara é um acordo de empréstimo entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrário (Fida) que, além de desenvolver ações estruturantes para fortalecer a Reforma Agrária e a Agricultura Familiar no Semi-Árido nordestino, investe efetivamente na articulação e organização dos espaços de participação social. O Projeto investe no protagonismo, o que significa construir e exercitar cidadania, aprender a construir pluralidade na diversidade.
LIVRO, SELO E EXPOSIÇÃO
Homenagens pelo centenário
Comemorações estão sendo realizadas, em várias cidades do Brasil e do mundo, pelo centenário de dom Helder Câmara. As homenagens iniciaram em 2008 e seguem até o fim deste ano.
Em Fortaleza, hoje, às 19 horas, na Igreja de Santo Afonso (Redonda) haverá missa de ação de graças, seguida pelo lançamento do livro “O peregrino da paz”, lançamento do selo comemorativo “Pastor da paz”, pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) e coquetel, “preparado com muito amor pela comunidade da Parquelândia”, declara o pároco, padre Geovane Saraiva.
Sobre a publicação, ele explica que não é mais um livro sobre dom Helder, mas o livro comemorativo de seu centenário. “Nele está inserida minibiografia, depoimentos de pessoas que o conheceram ou o admiram, coletânea de mensagens e pensamentos e acervo fotográfico. Tudo para torná-lo ainda mais conhecido e admirado”, informa.
O lançamento nacional do Selo do Centenário será hoje, às 15 horas, no terraço da Igreja da Fronteiras, no bairro da Boa Vista, em Recife.
A imagem vencedora do concurso, da artista Silvania Branco, apresenta o perfil de dom Helder em frente aos dois elementos que marcaram a sua trajetória: a Igreja das Fronteiras, em Recife, onde viveu e morreu; e a sombra de alguns pobres, pessoas mais assistidas pelos seus trabalhos sociais.
Hoje, também, a Prefeitura de Recife e o Instituto Dom Helder Camara (IDHeC), inauguram escultura de dom Helder, às 16 horas, no pátio da Igreja das Fronteiras.
Faz parte das comemorações a exposição “Dom Helder – Memória e profecia no seu centenário: 1909-2009”. Montada inicialmente na França, a mostra foi organizada pela Associação Dom Helder – Memória e Atualidade, sob a curadoria de José Broucker.
Segundo o coordenador geral do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (Cesep) e um dos curadores no Brasil, padre José Oscar Beozzo, na exposição há painéis que relatam atuação de dom Helder na política, na Igreja, no campo social, na relação com os jovens, nos conflitos, como lutador pela paz, na relação com outras religiões, na espiritualidade e na poesia.
Maristela Crispim
Repórter
OPINIÃO DO ESPECIALISTA
Dom Helder, antes de tudo, um místico
PADRE GEOVANE SARAIVA
Pároco da Igreja de Santo Afonso (Igreja Redonda)
O místico é profundamente marcado pela graça de Deus com dons e talentos colocados a serviço do próximo. É alguém totalmente voltado para Deus e para a realidade com os pés firmes no chão, com grande capacidade de perceber, de modo lúcido, os desafios, as exigências e as dificuldades de seu tempo, com enorme vontade de superá-las.
Karl Rahner, sacerdote jesuíta, nascido na Alemanha, que viveu de 1904 a 1984 e foi um dos maiores e mais importantes teólogos do século XX, marcou forte presença, nem sempre bem compreendido, com os seus dons e inteligência privilegiada, como assessor do Concílio Vaticano II. Desempenhou, também, papel de destaque, incentivando a Igreja Católica para que se abrisse ao mundo e às diversas tradições e dizia, com a coragem profética que lhe era peculiar, que o cristão do futuro será um místico ou não será nada.
O místico é aquela pessoa que sabe conviver e dialogar com todas as pessoas do mundo. Numa palavra, místico é o cidadão do Planeta, o cidadão universal, consciente de que o diálogo é uma arte que deve ser cultivada com sinceridade e paciência através da palavra, da conversa, do colóquio e da comunicação.
Dom Helder Câmara era, antes de tudo, um místico. Assim o definiu o nosso grande teólogo, Padre José Comblin. Como místico, tornou-se conhecido no Brasil e no mundo inteiro por sua luta em favor da humanidade, especialmente, dos desafortunados da vida, dos empobrecidos e dos “sem voz e sem vez”.
Sua vida foi uma obra de arte, pela simplicidade de viver, conviver e dialogar, indo ao encontro de todos e amando-os indistintamente. Assim dizia Mahtma Gandhi: “A arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte”. Certamente Dom Helder teve suas contradições, suas limitações e seus erros, mas, segundo Roosevelt, “o único homem que não erra é aquele que nunca fez nada”. Deus foi mais forte e sua bondade sem limites fez dele um belo instrumento de amor e paz.
Místico é alguém que sabe experimentar o amor de Deus Pai e Criador, que inicia bem as atividades, que é perseverante e que vai até o fim… Dom Helder, profeta e místico, foi assim e sintetiza a vida com o seguinte pensamento: “É graça divina começar bem, graça maior é persistir na caminhada, mas a graça das graças é não desistir nunca…”
DEPOIMENTOS
Muito a dizer sobre esse apóstolo da liberdade e da justiça social
Profeta para o mundo, tinha no coração uma sensibilidade quase ontológica, humana, evangélica, para todos os irmãos. Não foi apenas o homem simples, humilde, foi a força para aprovar a grande autocrítica da Igreja. E ele continua sendo forte inspiração para os que lutam por um mundo novo.
Padre Haroldo Coelho
Religioso
Escrever ou falar sobre dom Helder é fácil ou difícil em decorrência do ponto de partida ou do ângulo de quem pretende assumir essa tarefa. É fácil porque ainda resta muito que dizer ou escrever. Difícil, porque vida, pessoa, personalidade, gestos e atitudes, ideais e intuições se projetam.
Dom Manuel Edmilson da Cruz
Bispo emérito de Limoeiro do Norte
Aquela figura minúscula conseguia se agigantar, era um eco na luta pela liberdade. Na luta pela anistia, sabíamos que podíamos contar com ele, que colocava todo o seu compromisso naquilo que acreditava. Por isso hoje, na luta em nome da verdade e da memória, ele ainda se faz presente.
Maria Luíza Fontenele
Socióloga
Ele sempre foi contra o establishment, onde, na escala social, o pobre nunca tem aceso a nada; o pobre será cada vez mais pobre e o rico, cada vez mais rico. Se vivo hoje estivesse, o padre Helder estaria contestando do mesmo jeito porque as coisas ainda não mudaram em nada nesse sentido.
Christiano Câmara
Pesquisador
Ele é o maior apóstolo da liberdade e da justiça social que a Igreja Católica produziu no século XX. E, como a liberdade ainda não é plena e a justiça social ainda não se efetivou no Brasil, cultivar sua memória é exercício de cidadania política e cultural. Daí a Secult apoiar a programação do centenário.
Francisco Auto Filho
Secretário da Cultura do Ceará
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=613182
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Brasil
A fé do brasileiro
Um retrato completo da Igreja no maior país católico do mundo
O precisamente auto-proclamado “maior país católico do mundo” – que em épocas de patriotismo exacerbado, como quando obtemos alguma grande conquista esportiva, costuma reivindicar para si a nacionalidade de Deus – nunca esteve exatamente no centro das atenções dos sacerdotes do Vaticano. No entanto, o aparente papel periférico que a Igreja brasileira exerce dentro do mundo católico não reflete a importância que ela tem dentro das fronteiras do país. Pelo contrário – se há instituição que rege a vida da maioria dos brasileiros, mais até do que as entidades políticas, que parecem apenas trabalhar em proveito próprio, é a Igreja Católica. O crescimento – especialmente midiático – de algumas seitas evangélicas, por mais alardeado que tenha sido, ainda não faz frente à massa de católicos do país – mais de três quartos da população, segundo o último censo do IBGE.
A Igreja Católica abriga hoje três vertentes principais no Brasil: o clero tradicionalista, os remanescentes da Teologia da Libertação (que desde os anos 70 formam uma espécie de esquerda eclesiástica) e os adeptos da Renovação Carismática (movimento mais vigoroso e recente). Como o braço mais conservador do clero – que mantém as ligações mais estreitas com as autoridades de Roma – sempre foi a corrente mais forte do catolicismo brasileiro, se há alguma das vertentes que pode ser considerada “o passado” (recente) da Igreja em terras tupiniquins, é o grupo da Teologia da Libertação.
Também denominada de “ala progressista”, a esquerda eclesiástica experimentou dias de prestígio nas décadas de 1960 e 1970, quando adaptava conceitos marxistas à doutrina católica e servia de justificativa para o engajamento político de padres e bispos. Por florescer num tempo de ditadura e repressão, a Teologia da Libertação chegou a influenciar boa parte do clero brasileiro – até o início da década de 1980, desfrutou de certa hegemonia, ao menos do ponto de vista ideológico.
Entretanto, o papa João Paulo II – juntamente do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI – varreu do mapa brasileiro, aos poucos, os líderes do movimento progressista, dentro do espírito da cruzada anticomunista que levou aos quatro cantos do planeta. A exemplo do que vem fazendo Bento XVI, João Paulo II tratou de combater toda e qualquer associação entre a doutrina católica e alguma ideologia política. Na primeira vez que esteve no Brasil, em 1980, rezou missa para centenas de milhares de fiéis em Brasília, onde declarou que “a missão da Igreja não pode ser reduzida a aspectos sociopolíticos, mas consiste em anunciar o que Deus revelou sobre si mesmo e sobre o destino do homem”.
Partindo das palavras para a ação, o Vaticano substituiu bispos e líderes brasileiros e lançou uma série de críticas formais à Teologia da Libertação, até deixá-la como se encontra hoje, um pálido resquício que sobrevive somente na figura de alguns de seus membros ainda ativos. Em sua dissolução, pesou também a redemocratização do país, aliada ao fim do “socialismo real” no Leste Europeu.
A perda de espaço do clero esquerdista não significa que a Igreja brasileira tenha abolido de seu rol de preocupações as injustiças sociais que grassam no país. No entanto, o tom das críticas políticas do clero brasileiro, na maioria das vezes dirigidas aos governos “neoliberais”, é o mesmo dos derradeiros pronunciamentos do papa João Paulo II. Ou seja, piedoso, caritativo, ancorado na miragem de um mundo organizado segundo as virtudes teologais. Os sermões ideologizados contra as desigualdades deram lugar a reflexões de caráter eminentemente místico, que abriram espaço para o movimento da Renovação Carismática, a face emergente do catolicismo brasileiro.
A Renovação Carismática – da qual o padre Marcelo Rossi é a estrela mais saltitante – vem se mostrando a resposta mais eficiente da Igreja para combater o avanço dos evangélicos e de outras religiões no país. Com uma liturgia especialmente coreografada para provocar a catarse pessoal dos fiéis, além de pregações contra o demônio que lembram os rituais exorcistas dos evangélicos, as missas promovidas pela Renovação atraíram de volta para o catolicismo parte do rebanho que se havia desgarrado em busca de uma visão mais mística e menos politizada da religião. O movimento congrega hoje cerca de 10 milhões de pessoas, e a tendência é que esse número aumente.
Nada mal para um país que, apesar de sua essência católica, concentra, especialmente em suas cidades mais ricas, um alto número dos chamados “não praticantes” – característica que marca o catolicismo no mundo como um todo, ainda que não ele seja a única religião detentora de tal qualidade. A maneira com que os padres carismáticos incorporaram o espetáculo às suas missas, com música alta e aeróbica, pode em breve constituir um ponto de atrito com o Vaticano. Quando cardeal, Bento XVI já se manifestou contra a “criatividade de certos sacerdotes” e tachou de profanas algumas músicas tocadas nas igrejas. Em um artigo de 1996, o papa denunciou as inovações litúrgicas que esquecem a tradição para satisfazer os anseios dos fiéis. “Hoje se demonstra cansaço diante de uma liturgia da palavra”, disse então.
Uma eventual discussão envolvendo as autoridades clericais e os padres midiáticos não será, entretanto, suficiente para abalar a fé que anualmente leva milhões de pessoas às Igrejas – e principalmente às ruas – do maior país católico do mundo. As populosas romarias para a Basílica de Aparecida do Norte, em São Paulo, o impressionante Círio de Nazaré, em Belém do Pará, a devoção pela figura do Padre Cícero no Nordeste, ou as inúmeras encenações da Paixão de Cristo que anualmente lotam praças de todo o país na Semana Santa continuarão a reafirmar a presença do catolicismo na vida do brasileiro ainda por muito tempo. Que o diga Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro da história, cuja canonização foi anunciada nos estertores de 2006.
Fonte: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/catolicismo/contexto_brasil.html
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Reportagem de VEJA
A primeira advertência
Antes mesmo de desembarcar nas
Américas, João Paulo II avisou aos
bispos latino-americanos que não aprecia
a mistura de teologia com política
31 de janeiro de 1979
O Papa João Paulo II chegou à América – e chegou falando, com franqueza, o que acha certo e o que acha errado na vasta, conturbada Igreja do mais católico dos cinco continentes. Foi uma surpresa. Antes mesmo de desembarcar no início da tarde da última sexta-feira no México, onde abriria o encontro de cúpula da hierarquia católica da América Latina – a III Conferência Episcopal Latino-Americana -, o papa deixou claro que não estava vindo de Roma apenas para presidir cerimônias e desfilar em carros abertos. Nada disso: ele veio para mostrar aos pastores do rebanho de 300 milhões de católicos latino-americanos que, aos três meses de pontificado, tem algumas idéias bem definidas sobre como deve agir a Igreja do continente – e fez sentir sua mão forte, desde logo, sobre a mais delicada das questões da Celam.
“A Teologia da Libertação é uma teoria falsa”, disse ele aos jornalistas, ainda a bordo do DC-10 da Alitalia que o levava de Roma para São Domingos, sua escala antes do México. “Se se começa a politizar a teologia, já não é mais teologia. Trata-se de uma doutrina social, um tipo de teologia, mas não de doutrina religiosa.” Ao dar uma entrevista a VEJA, João Paulo II fez algumas nuanças nessa posição, e já não se mostrou tão duro. Mas o recado estava lá claro: o clero latino-americano não seria estimulado a desenvolver sua militância político-social, e a Teologia da Libertação não é tudo na vida. Na verdade, o simples fato de dirigir reparos aos que exigem uma politização crescente nas atitudes da Igreja causou surpresa – sobretudo para os setores do episcopado latino-americano que, mesmo antes do início da conferência, se viram assim em situação incômoda. Mas há de se ressalvar que esta foi apenas uma pista – a primeira e única pista deixada por João Paulo II antes de iniciar sua maratona por terras americanas. A bem da verdade, nos dois dias subseqüentes à sua chegada, não houve mais oportunidade para maiores considerações. Quase todo o tempo ele esteve cercado pelo júbilo popular.
De fato, João Paulo II encantaria a todos já em sua chegada a São Domingos, na quinta-feira. Assim que desceu a escada de seu avião, o papa ajoelhou-se e, imitando o gesto de Cristóvão Colombo ao chegar na América em 1492, beijou o solo dominicano. No dia seguinte, sexta-feira, o papa repetiria o gesto no Aeroporto Benito Juarez, no México – e, ao som de um bando de mariachis, travaria um rapidíssimo diálogo com o presidente mexicano José López Portillo. E assim, sem qualquer manifestação eloqüente de carinho ou servilismo – quase todo o povo mexicano é católico mas o Estado mexicano não reconhece a Igreja nem o Vaticano -, Portillo desincumbiu-se de sua missão e João Paulo II ficou livre para entregar-se ao entusiasmo do povo mexicano.
DIFICULDADES - Antes do triunfal desembarque na Cidade do México, no entanto, o papa e seus auxiliares mais diretos tiveram de lutar semanas a fio contra uma rede de dificuldades que a todo momento parecia ameaçar o pleno sucesso da viagem. O problema mais melindroso resultava sem dúvida do fato de que o Vaticano e o México não mantêm relações diplomáticas. Pior que isso, o governo mexicano nem reconhece o Vaticano como Estado. Assim, como arranjar um passaporte ou um documento qualquer que permitisse ao cidadão Karol Wojtyla cruzar a fronteira mexicana? Uma dificuldade puramente formal que acabou sendo resolvida. Mas ela serviu para mostrar ao papa, um homem sabidamente interessado em visitar os católicos de outros países, o quanto é complicado sair do Vaticano em viagens oficiais.
No caso do México, as barreiras são quase que só legais. Desde 1860, num período conhecido na história como a época da “reforma”, estabeleceu-se constitucionalmente que o Estado mexicano não tem qualquer vínculo com a Igreja nem a reconhece como instituição jurídica. Ou seja: oficialmente, para o México, a religião não existe e a palavra “Deus” não pode ser citada em documento ou ato público. Daí decorrem conseqüências aparentemente inconciliáveis com os hábitos de uma das maiores nações católicas do mundo. Por exemplo, os padres estão proibidos de transitar pelas ruas de batina e de administrar escolas, no México um monopólio do Estado.
Mera manutenção de aparências, porém. O país está ocupado de norte a sul, de leste a oeste por escolas católicas, que os governantes fingem não ver. Apenas por tradição – implantada pelo legendário Benito Juarez há mais de um século – o rompimento do Estado com a Igreja no México continua sendo cotidianamente encenado pelos homens públicos.
NADA COMPROMETEDOR - Faz parte da tradição do homem público mexicano ostentar uma posição anticlerical e até soa vantajoso declarar-se ateu. Diante de tais imposições legais e sociais, entende-se por que o presidente José López Portillo se sentiu na obrigação de explicar ao país que não estaria incorrendo em deslize por cumprimentar o papa João Paulo II, um visitante ansiosamente aguardado pelos mexicanos.
“Não me esconderei para cumprimentar Juan Pablo”, declarou firme o presidente, “porque não estarei fazendo nada de mal, nem comprometedor.” Além do mais, como se sabe extra-oficialmente, a família do presidente – e da maioria dos homens de projeção no governo – é católica. E católicos são 61 dos 66 milhões de mexicanos.
O apego à fachada anti-religiosa é tamanho, como conta Waldir Dupont, correspondente de VEJA no México, que, dois meses antes do anúncio da visita, altos funcionários do governo já se debatiam com uma questão para eles da maior gravidade: onde hospedar o papa? Finalmente, decidiu-se por uma solução extremamente confortável para todos: durante as seis noites de sua estada no México, João Paulo II ficaria hospedado na sede da delegação apostólica que a Santa Sé mantém na capital mexicana – e, removido este último problema, pôde-se passar ao que realmente contava, ou seja, a festa de recepção.
Na semana passada, a grandiosidade da festa já se anunciava em alguns detalhes. Às vésperas da chegada de João Paulo II, por exemplo, as autoridades de trânsito calculavam que mais de trinta automóveis estavam entrando por minuto na Cidade do México, vindos de todos os cantos do país, muitos trazendo dependuradas bandeirinhas com as cores amarela e branca do Vaticano. Todas as bancas de jornais vendiam grandes posters coloridos do papa. E já se alugavam, antes da chegada do pontífice, lugares privilegiados para vê-lo passar. Os mais concorridos desses postos de observação situam-se em torno da basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, no bairro de La Villa. Ali, até os telhados das casas estão com sua lotação esgotada desde a semana passada. Os preços variam de 50 a 500 cruzeiros.
SEM TEMPO - Apesar de não tomar conhecimento oficial da visita, o governo mexicano adotou várias providências. Ao redor de João Paulo 11 estão vigilantes mais de 20.000 policiais, incluindo membros das polícias secreta e política. Toda vez que o papa sair, vinte helicópteros acompanharão o percurso do alto. “Na verdade, quem vai mesmo cuidar da segurança do papa é o povo mexicano”, proclamava o responsável pelo aparato de segurança, o general Arturo Donato.
De todo modo, o programa de João Paulo II é tão intenso que haverá pouco tempo para atividades imprevistas ou mesmo para o simples repouso. Mal refeita da viagem que começou em Roma às 8 horas da manhã de quinta-feira, a comitiva começou a cumprir compromissos imediatamente após o desembarque no aeroporto mexicano, às 13 horas da sexta. A inauguração solene da III Conferência Episcopal Latino-Americana realizou-se no sábado, ainda na capital, durante missa celebrada ao meio-dia por João Paulo II, na basílica de Guadalupe. Só no domingo a delegação partiu para Puebla, a 150 quilômetros de distância, para o início dos trabalhos da conferência.
A partir desta segunda-feira, enquanto os bispos continuam reunidos em Puebla (eles ficarão em conferência até o dia 13 de fevereiro), João Paulo II estará circulando incessantemente por hospitais, escolas, seminários, bairros pobres, igrejas e outros locais – e isso em quatro cidades diferentes: a Cidade do México, Guadalajara, Oaxaca e Monterey. Às 14h30 desta quarta-feira, finalmente, ele retornará a Roma, depois de ser visto e ovacionado por milhões de mexicanos. Não se meça, porém, a importância da viagem apenas pela comoção dos católicos mexicanos ou, ainda menos, pelo rebuliço causado nas ruas por onde desfilou o cortejo papal.
Um dado de aferição mais ponderável é, por exemplo, a duração da estada no México – praticamente seis dias. Com efeito, jamais neste século um pontífice romano passou tanto tempo num só país. De qualquer forma, não se trata primordialmente de uma questão de número de dias, mas do que se faz durante esses dias. Para sua primeira aventura apostólica, João Paulo II preparou cerca de quarenta discursos, homilias, saudações. No conjunto, umas 40.000 palavras ou o equivalente a quatro encíclicas. Segundo analistas, a expedição ao continente americano, marcada por uma tal quantidade de pronunciamentos, dará finalmente oportunidade aos católicos de todo o mundo de conhecer em detalhes os pensamento do papa que os governa de Roma.
TOQUE CONSERVADOR - A quais questões o papa dará mais importância em seus discursos? Em suas 175 páginas, o documento de trabalho da conferência oferece um rol imenso de assuntos, desde a situação da mulher na sociedade até a ideologia, regimes de força, sacerdócio, sexo, problemas de doutrina e de pastoral, aos quais o papa poderá ou não recorrer. Nos dias que precederam a partida de Roma, religiosos interessados em dar mais ênfase à atual linha de militância política da Igreja receavam que o papa pudesse frear a linha de ativismo social firmada há dez anos, na II Conferência, em Medellín, na Colômbia. Alguns discursos e decisões recentes de João Paulo II, com efeito, fazem pensar que um toque conservador poderá marcar a atuação do papa. Por exemplo, ele congelou todos os pedidos de sacerdotes e religiosas para passarem ao estado leigo, enquanto nos últimos tempos Paulo VI vinha deferindo uma média de oitenta desses pedidos por mês. Também vem demonstrando vivo interesse em negociar com o dissidente francês Marcel Lefebvre. As duras advertências que lançou em sua entrevista a bordo do DC-10 a respeito da Teologia da Libertação seria outro indício nesse sentido?
Sem dúvida, João Paulo II abriu fogo pesado – bem mais pesado do que se esperava – contra a parte do clero que se entusiasma crescentemente com a militância na área social e, por conseqüência, política. É de se prever, portanto, que não pretende abrir mais espaço para este tipo de ação – ao contrário, parece interessado em limitá-lo. De toda maneira, é prudente levar em conta que os altos dignitários da Igreja sempre criam fórmulas capazes de manter juntos cabeças e corações diferentes. Um exemplo disso foi dado na quinta-feira pela heterogênea delegação de bispos brasileiros, ao desembarcar no aeroporto da Cidade do México. As esperanças de pronunciamentos candentes se frustraram: os bispos brasileiros repetiram as mesmas coisas, em declarações escrupulosamente cuidadosas.
PELA VIOLÊNCIA - O interesse dos jornalistas, nesse dia, acabou recaindo sobre o verbo eloqüente de outro passageiro que também desembarcava, o arcebispo de El Salvador, Oscar Arnulfo Romero, de 61 anos. Dizendo-se partidário do que chama de “violência justa, aquela que não seja maior do que o mal que quer eliminar”, dom Romero afirmou que uma das missões básicas da Igreja “é denunciar a estrutura injusta e pecaminosa de nossos países, particularmente do meu, El Salvador”. Por aí se vê que haverá acesos confrontos durante a reunião de Puebla. Espera-se que de um lado se alinhem grupos de bispos que, como dom Romero, acham que “Puebla não deverá ser um retrocesso em relação a Medellín”. E, de outro, incentivados agora pelo severo recado antiesquerda disparado pelo papa, os que combatem a excessiva politização do clero católico.
Entre eles está o conservador cardeal Ernesto Corripio Ahumada, arcebispo primaz do México, para quem “os princípios básicos de Medellín foram desvirtuados por certos grupos”. O cardeal Ahumada aproveitou a véspera da III Conferência para criticar aqueles que, segundo ele, “se apóiam em prédicas proféticas do Evangelho para incursionar em outros campos” – e, com efeito, é difícil compatibilizar a tese da “violência justa”, defendida pelo cardeal Romero, com a expressa condenação de qualquer violência, feita pelo papa. Nesses casos, para quem quer continuar na Igreja, a solução é tratar de adequar-se ao pensamento do pontífice – o que pode não ser assim tão difícil. Na última quinta-feira, por exemplo, após uma reunião com vários bispos tidos como “ultraprogressistas”, numa casa de família do bairro de Navarte, dom Helder Câmara falou rapidamente a Waldir Dupont, de VEJA, sobre suas expectativas. “Puebla confirmará e reforçará Medellín”, previu. Mas, no mesmo instante, reafirmou seus melhores votos de fidelidade ao papa.
O que o papa espera de Puebla
Antes de embarcar no avião que levaria João Paulo II ao México, o correspondente de VEJA em Roma, Marco Antônio de Rezende, procurou um diplomata polonês. Queria saber como se diz, em polonês, a frase: “Ouça-me, Sua Santidade”. Era previsto que o papa se aproximasse dos jornalistas, durante a viagem, e Rezende queria estar preparado para obter uma entrevista exclusiva. E a abordagem, feita na língua natal de João Paulo II, deu resultado. Em seguida, já com o gravador ligado e falando em francês, o enviado especial de VEJA, único jornalista brasileiro a bordo, solicitou respostas exclusivas. A entrevista é a que se segue:
VEJA - Que importância Sua Santidade atribui à Igreja brasileira, no conjunto da Igreja latino-americana?
JOÃO PAULO II - Ela ocupa uma posição excepcional, sem dúvida. Sobretudo como país, como território, o Brasil é um continente. É uma Igreja com 300 bispos! Tem, também, todos os problemas do desenvolvimento contemporâneo. Por conseguinte, o Brasil tem problemas sociais. Há enormes diferenças entre ricos – uma minoria como classe social – e pobres. São problemas a resolver. A resolver de uma maneira que eu diria humana, conservando a dignidade de cada um, observando o direito de cada um. São problemas difíceis, mas eu espero que a Igreja no Brasil, tão amplamente difundida por ser tão identificável com o povo, seja capaz de dar luz e contribuição para tal solução. Não uma solução violenta, mas uma solução de persuasão, de convicção, de opinião pública.
VEJA - Sua Santidade aprova, então, uma reflexão teológica a partir dessa realidade social e de todos esses problemas concretos da América Latina.
JOÃO PAULO II – Mas sem dúvida! Não pode ser de outra maneira. Foi o Concílio Vaticano II que nos abriu essa possibilidade, não?
VEJA - Como Sua Santidade recebe as críticas que se fazem a essa reflexão teológica e, sobretudo, à Teologia da Libertação?
JOÃO PAULO II – Você sabe, a Teologia da Libertação é uma teologia verdadeira, mas pode ser talvez uma falsa teologia. Se se começa a politizar a teologia, a aplicar sistemas ou meios de análise que não são cristãos, então não é mais teologia. Teologia da libertação sim, mas qual?
VEJA - Existe uma certa preocupação nos meios católicos sobre uma possível politização excessiva da conferência de Puebla. Sua Santidade se preocupa com isso?
JOÃO PAULO II – É bem possível… A vida é tão politizada… Acho que é exatamente por isso que há a tendência de se politizar todos os problemas, inclusive os de religião e os de moral. As tarefas da Igreja, porém, são muito mais claras.
VEJA - Sua Santidade espera encontrar dificuldades no México?
JOÃO PAULO II – Sim, haverá dificuldades, certamente. Trata-se de um outro continente, com outro passado, outras condições. Mas eu intuo um pouco qual é o mistério do México e quais são as dificuldades dos países latino-americanos do ponto de vista social e econômico, bem como as soluções, ainda que não tenha uma experiência direta no continente.
VEJA - De certa forma Sua Santidade está percorrendo de novo o caminho da conquista católica do continente. Por quê?
JOÃO PAULO II – Acho que aqui devemos aplicar os princípios da História. Muitas vezes nós fazemos um juízo da História, do passado, segundo nossos critérios. Depois, aplicando esses critérios, nós não vemos bastante bem que as mesmas coisas feias que se faziam no passado se fazem ainda hoje.
VEJA - Sua Santidade alude aos regimes militares americanos?
JOÃO PAULO II – Sim, sim, mas não é este o problema. No passado as coisas eram como eram – havia aspectos positivos, aspectos luminosos e outros negativos, de trevas. Mas isto é humano. Em resumo: o evangelho e a Igreja levaram à gente americana realmente uma boa nova. Esses povos se identificaram mais com o cristianismo. E se identificaram de modo muito profundo afetivamente. Não se deve desprezar o afeto, a sensibilidade, o emocional, o humano.
VEJA - Quais os frutos que Sua Santidade espera desta viagem?
JOÃO PAULO II - Eu acho que o fruto primário consiste na própria viagem, na aproximação, na presença. Assim se vive a realidade da Igreja Universal e este é o destino do papa: o de fazer viver o mistério e a realidade da Igreja Universal nos mais diversos ambientes. E o que eu percebo na vontade dos mexicanos e outros povos de querer o papa, de ter o papa entre eles, é uma prova de sua fé, de sua eclesiologia, que é justa.
Viajando no avião de João Paulo II
Desde a partida, nesta viagem do papa ao México, percebeu-se um novo estilo, praticamente o oposto do conhecido até agora. Da pompa vigente sob Paulo VI, a rigor, notaram-se não mais que vestígios quando o DC-10 “Dante Alighieri” da Alitalia decolou do Aeroporto de Fiumicino, em Roma, às 8 da manhã de quinta-feira passada: a banda dos carabinieri, o corpo diplomático perfilado e alguns corazzieri da República italiana em uniforme de gala. O avião, que nas viagens de Paulo VI era todo pintado com as cores do Vaticano, tinha apenas um selo com as armas pontifícias aplicado na porta dianteira. “Paulo VI viajava como um chefe de Estado. João Paulo II viaja como o bispo de Roma”, disse a VEJA um veterano acompanhante de viagens papais.
Um comissário que funcionou a bordo em antigos vôos pontifícios lembra, também, que Paulo VI era muito distante: “Na viagem a Nova York, em 1965, ele foi até onde estavam os jornalistas. E estes ficaram quase petrificados diante dele, que cumprimentou um por um enquanto seu secretário distribuía medalhas de lembrança”. E uma comissária lembra a última viagem de Paulo VI, em 1971, para as Filipinas: “Ele estava tão cansado que prosseguia à custa de injeções que seu médico lhe aplicava regularmente”. Agora, com o comunicativo e robusto João Paulo II, tudo correu diferente.
80 MINUTOS - A bordo, o papa ocupou um compartimento logo após a cabina de pilotagem, onde se montaram duas poltronas do lado esquerdo – para ele e para seu secretário particular, dom Stanislao Dziwisz – e mais quatro poltronas em torno de uma mesa dobrável. Num compartimento seguinte alojaram-se os vinte membros da comitiva oficial. Por fim, ocupando o terço posterior do avião, estavam 62 jornalistas (31 repórteres e 31 fotógrafos) de vários países, separados da comitiva por quatro guardas suíços à paisana. Tal precaução desmoronou, porém, em minutos. Assim que se apagou o sinal de “apertar cintos”, quando o jato começava a sobrevoar o Mediterrâneo, João Paulo II apareceu na cabina dos jornalistas.
Alguns haviam tirado o paletó e afrouxado a gravata, outros procuravam dormir (a apresentação no aeroporto foi às 6 da manhã) e outros, ainda, serviam-se do café da manhã que as comissárias distribuíam. Todos se recompuseram, às pressas, e seguiram-se 80 minutos de conversação com o papa. A um repórter do canal 2 da televisão italiana, dirigida pelos socialistas, que se apresentou como representante do “canal leigo” (em contraposição ao canal 1, dirigido pela democracia-cristã), João Paulo II observou: “Você é leigo, mas eu sou religioso. E agora?” Quando lhe mostraram, pela janela, os Pireneus cobertos de neve, ele se inclinou: “Hum, ótimo para esquiar”.
Ao final das dezenas de perguntas e respostas, o papa despediu-se, não sem antes arrematar, olhando para o relógio: “Uma hora e 20 de entrevista. Vocês deveriam me pagar por isso”. De volta a seu compartimento, ele passou a maior parte do tempo trabalhando, com o substituto da Secretaria de Estado, monsenhor Caprio, ou com o secretário particular. Não assistiu ao filme (embora estivesse também à sua disposição) “The Goodbye Girl” nem usou os fones de ouvido (também à disposição de todos os passageiros), nos quais poderia escolher entre a ópera “Nabucco”, de Verdi, ou seleções de jazz e rock.
SOUVENIRS - No almoço, Sua Santidade serviu-se apenas de parte do nutrido cardápio oferecido: medalhões de lagostas, e presunto cru, de entrada, e lombo de vitela ao vinho Frascati com alcachofra e legumes, tudo regado a vinhos italianos (branco: Pinot Grigio 1977; tintos: Brunello di Montalcino 1971 e Barolo Marchesi di Barolo 1971) e champanha francês. Uma pequena concessão às tentações da mesa foi cometida na sobremesa: uma torta polonesa, feita de creme de castanha. Depois, o papa repousou por 10 minutos, reclinando a poltrona mas sem utilizar a máscara escura posta ao lado. Retomou, então, o trabalho com seus auxiliares até o desembarque na República Dominicana.
Na manhã de sexta-feira, ao iniciar a segunda etapa de sua viagem, João Paulo II não aparentava desgastes fisicos, apesar da veste branca estar um tanto amarrotada. Entre os membros da comitiva, porém, quase ninguém conservava a forma de 24 horas antes. Agora, ao contrário do inverno romano, enfrentava-se o tórrido sol do caribe. E um atraso de quase meia hora, na partida, afetou até monsenhor Paul Marcinkus, o gigantesco bispo americano que preside o Banco do Vaticano e que, nas viagens pontificias, faz as vezes de guarda-costas. Completamente banhado de suor, ao lado do presidente Antonio Guzman e do corpo diplomático, monsenhor Mareinkus implorava por uma toalha.
Durante o vôo de quatro horas e meia entre São Domingos e a Cidade do México, João Paulo II não confraternizou com os jornalistas. Seu almoço, diferente dos demais passageiros, foi um típico peixe mexicano – “Blanco de Patzcuaro” – seguido de “Carne a la Tampiqueña” e “Frijoles refritos” (um tutu de feijão). Os alto-falantes de bordo, mudos na primeira etapa da viagem, agora funcionaram para que a chefe de cabina desse as boas-vindas a Su Santidad e comitiva. Do vôo da Alitalia, todos os passageiros guardaram uma finíssima caneta com a data de 25 de janeiro gravada no prendedor. Do vôo da Aeroméxico, o souvenir foi uma fita cassete com uma orquestra de mariachis acompanhando uma cantora que louva, em ritmo de bolero, a ascensão de João Paulo II ao trono de São Pe~ dro. Terminava, assim, uma viagem dura, longa, à qual se seguiria o intenso programa papal em Puebla – e, depois, mais um comprido vôo de retorno. Mas nada disso, pelo menos na ida, parecia impressionar João Paulo II. Agora, é ver como ele se portará na volta.
Fonte: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/papa_pontificado/reportagem_310179.html
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Reportagem de VEJA
O viking de Deus Karol Wojtyla
O papa polonês que conquistou
Roma e passou as fronteiras do
catolicismo comanda dentro da
Igreja a renascença da disciplina
2 de julho de 1980
Marcos Sá Corrêa, de Roma
Não existe, neste mundo, popularidade como a de Karol Wojtyla. Ele é o avesso de todas as modas internacionais, do consumismo ao esquerdismo, e no entanto está na moda, urbi et orbe, desde sua primeira bênção como papa, em outubro de 1978. Aonde vai, reboca multidões, às vezes antípodas – na França, na Irlanda, na Polônia, nos Estados Unidos, na África ou na América Latina. Em Roma, passa toda semana pelo vestibular de comunicação de massa das audiências públicas, uma rotina do papado a que ele deu a medida espetacular de seu pontificado.
Pio XII escondia as audiências em salas internas do Vaticano. Paulo VI pretendeu acomodá-las num auditório moderno, projeto do arquiteto Luigi Nervi, que previu enchentes de até 7.000 pessoas mas não previu o fenômeno Wojtyla. Há mais de ano e meio a sala Nervi transbordou e, cada quarta-feira, às 5 e meia da tarde, é tal a quantidade de gente para ver o novo papa que se ocupou, sem a menor cerimônia, o cenário renascentista da praça São Pedro.
Neste começo de verão romano, pelas contas da Cúria, que é prudente em contas, há sempre – entre fiéis, romeiros poloneses, doentes em caravanas e os rebanhos tangidos por agências de viagens – pelo menos 50.000 espectadores para assegurar a infalibilidade desse show semanal de liderança, que a imprensa italiana, inspirada no filme de John Travolta ainda em cartaz na via Veneto, batizou como “A febre das tardes de quarta-feira”.
É como se o presidente Jimmy Carter enfrentasse, semanalmente, uma eleição primária na Geórgia. As audiências públicas de João Paulo II são mais do, que uma grande festa religiosa – são ao mesmo tempo o culto pagão de uma estrela que não brilha só para os católicos. Combina excitação de comício, onde podem aparecer faixas e cartazes celebrando a nova invasão de Roma por “Wojtyla, o Viking de Deus” com a fraternidade desinibida dos festivais de rock, quando no fundo do mar de cabeças moças começam a escalar os ombros dos companheiros para enxergar o palanque do Sumo Pontifice. No fim do ano passado, com o recato possível nas circunstâncias, a Polygram lançou na Itália o hino profano desse acontecimento. É um compacto em que “Freddy e Sua Banda Sistina” apresentam uma Wojtyla Disco Dance: “Ele é legal / ele é humano / o novo papa / no Vaticano”.
Os costumes mudaram no Vaticano e o maior sinal é a própria arquitetura da praça São Pedro. 0 conjunto de mármore travertido que Alexandre VII encomendou a Bernini em 1655, Sixto V em 1586 espetou com o obelisco de Nero e Júlio II coroou com o domo de Michelangelangelo, ganhou de João Paulo II uma espécie de curral. Uma heresia, de acordo com os arquitetos romanos. Porém, o cercado de madeira que retalha a praça em auditórios tornou-se indispensável às audiências de quarta-feira. É preciso abrir alas na multidão para o jipe branco do papa, o sucessor da ancestral liteira.
No jipe, de pé, seguido por uma procissão de fotógrafos e cinegrafistas, João Paulo II sempre dá duas voltas completas na praça São Pedro antes de iniciar propriamente a audiência. Parece o ensaio geral de suas grandes viagens. Ele aperta milhares de mãos. Beija crianças. Consola doentes. Estimula religiosos. Canta com uma voz que sempre sobe alguns decibéis acima do coro. E discursa com a segurança que aprisiona os auditórios até naquilo que eles não querem ouvir. Semanas atrás, na praça São Pedro lotada de turistas nórdicos, escolheu como tema “A Vergonha entre o Homem e a Mulher”.
O estilo de Wojtyla, que ainda não parou de surpreender a Cúria e assombrar os 250 vaticanistas da sala de Imprensa da Santa Sé, na prática já explodiu o protocolo ao redor do trono de São Pedro. Na década de 50, para passear no seu palácio de verão em Castelgandolfo, nas vizinhanças de Roma, Pio XII exigia jardins indevassáveis. João Paulo II abriu os portões da residência e, na temporada, centenas de jovens costumam invadi-la para cantar e dançar dentro dos muros. Às vezes, o papa chega, acende uma fogueira (com as mãos treinadas de guia de excursionistas na Polônia) e entra na roda. “Nunca vi coisa igual”, espanta-se o coronel Franz Pfyffer Altischoen, comandante da Guarda Suíça. “0 papa dançando com moças de blue-jeans!”
Motivo de espanto não falta. 0 papa ganhou de católicos americanos uma piscina na Villa Barberini, também em Castelgandolfo, e agora nada no verão. Usa tênis. Tem sempre convidados à mesa. Faz almoços de trabalho com os párocos de Roma. Fala na primeira pessoa do singular – “eu, o papa” -, abandonando o plural majestático, o “nós” que Paulo VI ainda empregava, embora com timidez. Reza missa cada manhã, como todo papa, mas, como papa nenhum antes dele, começa o expediente com a leitura dos jornais comunistas L’Unità e Paese Sera. Ele mesmo contou isso aos jornalistas Aldo Biscardi e Luca Liguori, cujo livro “Il Papa dai Volto Umano” tem uma atração inédita: dois capítulos por João Paulo II.
De um papa tão exposto é razoável pensar, como de resto se pensa, que na intimidade do Vaticano sua influência esteja roída pelos cardeais, maciçamente tradicionalistas em suas atitudes, que governam a Igreja. João Paulo II contudo, assumiu suas funções com apetite de atleta e, pouco depois da eleição, quando a Cúria romana percebeu, ele já ia longe na redação da encíclica “Redemptor Hominis”, sem qualquer consulta às congregações. O papa produziu o documento de próprio punho – em polonês, para o desespero dos encarregados de vertê-la depois para o latim, pois havia modernismos intraduzíveis -, cantando enquanto escrevia. E não é um texto simples. Começa com um verdadeiro lead teológico: “0 redentor dos homens, Jesus Cristo, é o centro do Cosmo e da História”. Nas 100 páginas seguintes, sustentam impressionados os especialistas, João Paulo II nada menos que revolucionou a visão antropológica da Igreja. É ela que está a serviço do homem, e não o contrário. Funções de remota tradição ressuscitaram depois de outubro de 1978. Tecnicamente, o papa é o bispo de Roma. João Paulo II, ao contrário dos antecessores, visita toda semana uma paróquia de sua diocese. Às vezes, de helicóptero.
O papa é igualmente o chefe universal da Igreja. João Paulo II está correndo o mundo. Nos últimos tempos, anda estudando chinês e se especula que estaria embalando o projeto de uma viagem à China. Refém da Cúria, portanto, ele não é. Escapou a um perigo do cargo que, tudo indica, foi fatal a João Paulo I. Agora mesmo está às voltas com a gestão financeira do Vaticano – que é sigilosa até para ele, o papa. Quer abrir as contas, que incluem um modesto déficit anual de 17 bilhões de liras, cerca de 20 milhões de dólares, e investimentos tão intrincados que, logo depois da encíclica “Hummanae Vitae”, descobriu-se que a Santa Sé tinha participaçao acionaria numa indústria química, a Serono, fabricante, entre outros produtos, de pílulas anticoncepcionais.
A biografia de Wojtyla é um filão editorial Em Roma, há cerca de quarenta títulos sobre este papa nas livrarias católicas da via della Conciliazione. Foi ator, operário, poeta, dramaturgo, filosófo, com seis livros e duas teses de doutoramento publicados, desportista e soldado de sorte: terminou o tiro de guerra no dia 31 de agosto de 1939. Em 1º de setembro a Polônia foi ocupada pelos nazistas.
Melhor, porém, é a maneira como a experiência múltipla de Wojtyla se arrumou na bagagem de João Paulo II – um caso singular de pontífice que tem passado pessoal, quando a praxe da Santa Sé era mostrar os papas como brotações da história coletiva da Igreja. Não houve maior correria, no Vaticano, quando a imprensa se pós à procura das pistas de uma suposta paixão de sua juventude, a atriz polonesa Halina.
Sua imagem atual não esconde, antes realça, as encarnações anteriores. João Paulo II fez teatro com um professor de dicção e empostação, Mieczyslaw Kotlarczyk, e isso transparece em seus inumeráveis discursos – 25 só na última viagem, de três dias, à França. A companhia de amadores de sua juventude – o grupo “rapsódíco” – queria o máximo de expressão corporal com o mínimo de equipamento cênico. João Paulo II introduziu no Vaticano o modo de abençoar com as mãos espalmadas e os braços estendidos – “uma grande cruz viva”, compara o vaticanista Vittorio Gorreso -, abolindo velho gesto hierático – um aceno do trono de Pedro com os dedos indicador e médio. É como se só agora, com a bênção à Wojtyla, os retratos oficiais do Vaticano tivessem finalmente passado o gótico, estreando a renascença nas fotografias do papa.
0 padre polonês Mieczyslaw Malinski, amigo pessoal de Wojtyla, comenta no livro “Il Mio Vecchio Amico Karol” que João Paulo II não fala como os outros papas. Eles aspergiam sermões impessoais sobre a cristandade. Wojtyla se dirige quase sempre a ouvintes determinados. E isso Malinski acha que acontece porque o papa debate com intelectuais, escritores, operários, teólogos e clérigos perseguidos por regimes hostis com a postura de quem já passou por essas coisas. “É um papa moderno culturalmente e humanamente”, diz o teólogo Giovanni Genaro. “João XXIII era humanamente moderno, mas culturalmente antigo.”
João Paulo II tem conversa para todo tipo de interlocutor. Na Itália, diante de platéias sindicais desconfiadas, fala como ex-operário da Cracóvia. “Uma coisa que me deixa intrigado em relação a este papa”, confessa o padre Alexandre Pastor, da Universidade Gregoriana de Roma, “é que tenho visto bispos das mais opostas correntes serem recebidos por ele em audiência e saírem do encontro dizendo-se muito satisfeitos. No entanto, ele não é pessoa de esconder o que pensa.” Endossa o marxista Giulio Carlo Argan, ex-prefeito de Roma: “No encontro com João Paulo II, tive imediatamente a impressão de me encontrar diante de uma forte personalidade política: grande cordialidade, nenhum formalismo, discurso direto e aberto. Nas manifestações de simpatia, foi além do protocolo”. Na Itália, pela primeira vez desde o fim de Mussolini, passou-se esse mês de junho por uma campanha eleitoral sem que os partidos de esquerda debitassem ao Vaticano a menor pressão em favor da Democracia Cristã. Foi-se o tempo das excomunhões para os católicos que votarem no Partido Comunista Italiano. “Me perguntam”, ele declarou a jornalistas, “como eu, o papa, considero aqueles católicos que militam nas fileiras da esquerda, em particular nas fileiras dos comunistas. E eu respondo: como católicos, seguramente, porque católicos eles serão enquanto não quiserem abandonar a Igreja, mesmo se a sua escolha política nem sempre se pode dizer coerente com os princípios da moral e da fé.”
Eis, para quem acha que já tinha visto tudo, um papa que o Partido Comunista Italiano considera tratável e a esquerda católica acha politicamente ameaçador. O nó não foi, certamente, João Paulo II quem atou. Ele sabe o que é ser padre em regimes hostis ao clero, mesmo porque foi padre em duas ditaduras – uma de direita, na ocupação alemã da Polônia, outra de esquerda, vinda com as tropas de libertação soviéticas que sua geração ajudou a recepcionar na Cracóvia. Na primeira teve de estudar em seminário clandestino. Na segunda foi bispo num regime que prendia bispos. Em ambas provou um fel que o clero latino-americano praticamente não conhece: na Polônia, a condição de padre não confere qualquer imunidade política, piora a situação.
“Tenho visto”, o papa declarou aos jornalistas Aldo Biscari e Luca Liguori, quando a imprensa ainda ruminava os resultados da conferência episcopal de Puebla, “as pessoas tentarem politizar o significado do grande encontro de que participei na América Latina. Não me espanta, porque eu creio que a vida se tornou ela mesma politizada, porque se difundiu a tendência a politizar todos os problemas, os religiosos e os morais inclusive. Mas devo dizer que a Igreja tem objetivos mais vivos e finalidades mais vastas.” E não é de hoje que ele pensa isso. Em 1976, já “papável”, esteve nos Estados Unidos para um congresso eucarístico e recusou, alegando que receberia interpretações políticas, o convite para um encontro com o ex-presidente Gerald Ford. E até hoje não se deu ao trabalho de conhecer direito os cardeais da Democracia Cristã italiana.
O ex-primeiro-ministro Giulio Andreotti, fundador da DC, tem uma teoria a respeito: “Quem ainda não entendeu, depois de mais de um ano e meio, que a preocupação religiosa é, mais que dominante, exclusiva, vai perder o rumo deste pontificado. Papa Wojtyla, polonês puro-sangue, não pode ser interpretado à mesma luz de Brzezinsky, de Begin e de outros expoentes políticos da diáspora daquele povo”. Andreotti, que durante trinta anos entrava e saía à vontade do Vaticano deve ter feito essa descoberta na primeira recepção de João Paulo II. 0 papa deu mais tempo e mais atenção ao presidente Sandro Pertini, um socialista, que ao primeiro-ministro democrata- cristão.
Andreotti concluiu que “nenhum fim terreno preocupa ou ocupa” Wojtyla. Às vezes, dão até a impressão de que o aborrecem: “Não tenhamos a ilusão de servir ao Evangelho se temos de diluir nosso carisma sacerdotal num exagerado interesse pelo vasto campo dos problemas temporais, se desejamos laicizar o nosso modo de viver e sentir, se cancelamos até os sinais exteriores de nossa vocação sacerdotal” – pregou o papa aos sacerdotes mimetizados em cidadãos comuns. “Não tenham vergonha de ser padres”, insistiu em outra ocasião, com mais contundência psicológica. E, quando o padre brasileiro João Batista Libânio apresentou a teoria de que as comunidades de base eram o embrião de um futuro partido popular, o papa disparou contra a idéia num documento – “Evangeli Nutiandi 38″ – que ressalvava: “Podem ser comunidades de base, mas não comunidades eclesiásticas de base”.
Wojtyla está conseguindo, com a pura transfusão de seu charme, reavivar a auto-estima do padre de extração tradicional. Na Polônia os seminários, há dois anos, fecham antes do tempo as inscrições, por excesso de candidatos. E a Cúria detectou em muitos países sintomas de renovação do interesse pela carreira eclesiástica. Nem por isso tem intenção de expulsar do templo os esquerdistas – como temem os próprios esquerdistas e sonham tantos governos, o brasileiro entre eles. Cassou-lhes só o mandato de modelo do padre pós-conciliar. João Paulo II também não vai condenar, inteiramente, a interferência da Igreja na última greve do ABC. Ele próprio, em 1976, interferiu como cardeal arcebispo da Cracóvia nas greves de Radon e Ursuss, para negociar a anistia dos operários varridos dos empregos, depois que a greve tinha seguido seu curso.
É conservador, sim. Seu pontificado deixou 6.000 padres esperando dispensa do celibato para casar (um deles, na Itália, com filho chegando), congelou a campanha para a ordenação de mulheres e estacionou, nas decisões, do Concílio Vaticano II, de quinze anos atrás, o surto de aggiornamento da Igreja. “Assim, papa Wojtyla parece ter definido a linha geral do Vaticano”, concluiu um balanço da revista “Critica Sociale”, do Partido Socialista Italiano. “Nenhuma interferência de caráter político fora da Igreja, e ao mesmo tempo o bloqueio de qualquer movimento interno ou externo que possa modificar seus regulamentos.” Mas, antes que a era pós-conciliar desenvolvesse afinidades entre uma parte do clero e as esquerdas laicas, era um dogma do esquerdismo o princípio de que a Igreja não devia se imiscuir no governo do mundo. Agora surge em Roma um papa alheio à política – e a esquerda berra como se sentisse na carne o calor das fogueiras da Inquisição. Foi assim com a notícia de que a Congregação para a Doutrina da Fé, no ano passado, estava processando os teólogos Hans Küng, suíço, francamente dissidente, e Leonardo Boff, brasileiro, um dos pais da Teologia da Libertação. Nos dois casos, tratava-se de depurar divergências sobre dogmas tão impenetráveis que, sem dúvida, a maioria dos que berravam não poderia explicar qual era a discussão. Porque uma coisa é inegável: para se incomodar com as providências conservadoras de João Paulo II é preciso submergir nas questões internas da Igreja. Senão, é melhor fazer como as 50.000 pessoas, católicas ou não, que toda quarta~feira disputam lugar na praça São Pedro apinhada – e aproveitam ao ar livre a pura alegria contida no espetáculo de uma liderança como há muito tempo o mundo não via.
Fonte: http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/papa_pontificado/reportagem_020780.html
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Só Frei Betto mesmo…
Faz tempo que não falamos na Teologia da Libertação…Os bispos brasileiros estão mais ativos, preocupados com o documento do CELAM. Não estão ociosos como antes da conferência, podendo pensar na velha libertação…
Para o desespero de Frei Betto, Che Guevara é agora objeto de consumo, adubando o capitalismo selvagem que destrói tudo…Não se preocupe Betto, pois ninguém esquecerá Che Guevara, afinal ele está em bonés, camisetas, canecas, agendas, fichários, campanhas publicitárias, novelas, cinema comercial…Tudo com um preço camarada, no seu cartão Visa ou Mastercard! Vocês não gostam do sarcasmo da vida?


Numa carta aberta ao guerrilheiro assassinado na Bolívia, publicada pelo jornal cubano Granma, Frei Betto destacou o fracasso dos que pensaram que eliminando Che fisicamente, condenavam ao esquecimento sua memória.
“A estrela de teu boné brilha mais forte, a força de teus olhos guia gerações pelas lutas da justiça, teu semblante sereno e firme inspira confiança nos que combatem pela liberdade”, apontou.
Betto relembrou, segundo citações da agência PL, que nos 40 anos transcorridos desde a morte do guerrilheiro se registraram mudanças radicais no mundo, incluindo o desaparecimento do socialismo europeu, e afirmou que outra seria a história se as pessoas tivessem escutados as críticas feitas pelo guerrilheiro em 1962 às ‘gretas’ do sistema.
“Alguns de nós, Che, abandonaram o amor aos pobres que hoje se multiplicam na Pátria Grande latino-americana e no mundo para ser absorvidos por estéreis disputas partidárias, e às vezes se fazem de amigos dos inimigos e dos verdadeiros inimigos, aliados”, acrescentou.
Ressaltou que o coração do combatente desaparecido batia ao ritmo dos povos oprimidos e expoliados e por isso pode afirmar que “é preciso ter uma grande dose de humanidade, de sentido de justiça e que seja verdadeiro para não cair em extremos dogmáticos, em escolasticismos frios”.
Frei Betto evocou pronunciamentos de Che nos que explicou que o ser humano é o ator desse estranho e apaixonado drama da construção do socialismo, em sua dupla existência de ser único e membro da comunidade.
Apesar de tantas derrotas e erros tivemos conquistas importantes nestes 40 anos: os movimentos populares irromperam no Continente todo e em muitos países estão melhor organizados os camponeses, as mulheres, os operários, os índios e os negros, disse.
Evocou, aliás, que entre os cristãos, uma parte significativa optou pelos pobres, engendrou a Teologia da Libertação, e se propaga pela América Latina a primavera democrática com eleitores repudiando a oligarquias e elegendo aqueles que são feitos à sua imagem e semelhança.
Em seu artigo, afirmou que o espírito internacionalista e a Revolução cubana se apresentam hoje como um símbolo só.
Comandada por Fidel Castro a Revolução cubana resiste ao bloqueio imperialista, à queda da União Soviética, à carência de petróleo e aos meios de comunicação que pretendem satanizá-la, com toda sua riqueza de amor e de humor, salsa e merengue, defesa da pátria e valoração da vida, concluiu.
Chavez, cada vez mais contra a Igreja
Venezuela, a Nova Cuba
“Não conseguimos entender a atitude dos bispos, porque agem como se fosse um partido político e acusam usando mentiras, e eles sabem disso“, disse Chávez.
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