Rasgai os vossos corações


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No início deste tempo quaresmal as leituras da liturgia da Missa de cinzas propõe-nos três práticas comuns a este período: jejum, esmola e oração. Além de nos convidar à conversão e ao arrependimento dos nossos pecados; a abandonarmos a hipocrisia, para que entremos por completo neste tempo.

Na primeira leitura o profeta Joel condena a hipocrisia daqueles que, assim como os fariseus, rasgam as vestes, no entanto o coração permanece impuro e não se compraz em Deus, mas nos desejos carnais e nos bens finitos da terra. “Pois agora, então – oráculo do Senhor – voltai para mim de todo o coração, fazendo jejuns, chorando e batendo no peito! Rasgai vossos corações, não as roupas!” (Jl 2,12-13). Mais que uma mera aparência é necessário despojar-se também no coração. Estas palavras do Senhor dirigidas a nós por meio de Joel, figuram hoje de uma forma não muito diferente a de outrora. Ao povo Deus ordena que façam jejum e batam no peito clamando por misericórdia. Ainda hoje este gesto tem grande significado, por isso na hora do Confiteor da Missa nós o repetimo-lo em sinal de arrependimento dos nossos pecados.

De maneira significativa somos exortados a “rasgar o coração”. Tal metodologia linguistica utilizada pelo profeta deixa clarividente que devemos usar as práticas penitênciais para que daí produza-se frutos concretos e sinceros de arrependimento. Estas devem, ao mesmo tempo, constituir o abandono da hipocrisia e o desapego carnal e material.

Mas pergunta-se ainda hoje se é possível que em uma sociedade consternada pelo caos do pecado, da imoralidade, das ambições terrenas, fazer com que os homens voltem-se a Deus com o coração contrito, abandonado completamente as barreiras que possam causar uma imediata reconciliação?
Parecer-nos-á, a princípio, que esta realidade seja impossível. E visto por outro lado que Deus e o pecado não podem “coabitar”, o homem entra em profundo dilema, dado que muitas vezes ele buscar conciliar os dois. Tal fato poder-se-ia comparar ao de Santo Agostinho que, antes de sua conversão, não querendo perder a Deus, tentava conciliá-Lo com o pecado da mentira. Mas, eis que no fim ele abandona Deus, pois Ele, como recorda o Santo Bispo, “não aceita ser possuído juntamente com a mentira” (Confissões, X Livro, 66). Assim acontece com o pecado.
Na segunda leitura Paulo “complementa”, assim digamos, a leitura do profeta Joel. “Em nome de Cristo, vos suplicamos: reconciliai-vos com Deus. Aquele que não cometeu pecado, Deus o fez pecado por nós” (2 Cor 5,20-21).

Em primeiro lugar desejo ressaltar o desejo do apóstolo de convidar-nos à reconciliação. Pergutarmo-nos-emos se o homem já não é, mediante a morte de Cristo, reconciliado com Deus? São Paulo responde-nos que “sim, foi o própeio Deus que, em Cristo, reconciliou o mundo consigo, não levando em conta os delitos da humanidade” (Idem v. 19). Mas desencadear-se-á várias perguntas: Qual a necessidade desta outra reconciliação? E se é necessário outra reconciliação, seria desnecessário o sacrifício de Cristo, uma vez que esta era a sua finalidade reconciliar o homem com Deus? E que reconciliação seria esta?
Para tais perguntas devemos debruçarmo-nos sobretudo nas Sagradas Escrituras.

O convite à reconciliação com Deus, feito por Paulo, é drigido a cada um e os atingirá de maneiras diveras mas com uma única finalidade. Antes os laços de Deus com a humanidade estavam rompidos devido o pecado original de Adão e Eva. Então, no sacrifício da cruz, Jesus promove esta libertação da humanidade, “a fim de que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça” (1 Pd 2,24). Mas para isso ele teve que se submeter à condição de maldito (cf 3,13).
Diante disso somos reconciliados da parte de Deus. Mas há aqueles que não se abrem à Boa Nova do Reino e não se reconciliam com Deus. Não é Deus, neste caso, que deve reconcilia-se com o homem, mas o homem que deve reconciliar-se com Ele. O sacrifício de Cristo, como um todo, já é sinal figurativo e concreto da unidade do Pai com o homem. Não seria o sacrifiício de Cristo desnecessário, mas torna-se mais necessário ainda.

Neste tempo de ascese Jesus convida-nos a abrirmo-nos à conversão por meio de tais práticas. No entanto, repudia veementemente a atitude dos fariseus de se exporem para manifestar suas práticas. Ele exorta-os: “Cuidado! Não pratiqueis vossa justiça na frente dos outros, só para serdes notados. De outra forma, não recebereis a recompensa do vosso Pai que está nos céus” (Mt 6,1).
Desta forma respode-se a pergunta, até então não respondida: Todos podem unir-se a Deus, e nesta união ninguém é repudiado. E esta união só se dará com a penitência sincera de coração.
Não devemos exaltar nossas ações penitênciais para mostrar a outros. Não. As práticas devem ser feitas para nossa disciplina, não para provarmos resistência. A oração, jejum e caridade (esmola) devem convergir para um fim bem objetivo, ou seja, a conversão para Deus. Como escreveu São Leão Magno:

“Mas que a nossa maneira de viver esteja de acordo com a nossa abstinência. O jejum não consiste apenas na abstenção de alimentos; de nada aproveita subtrair os alimentos ao corpo, se o coração se não desviar da injustiça, se a língua se não abstiver da calúnia [...]. Este é um tempo de doçura, de paciência, de paz [...]; uma altura em que a alma forte se habitua a perdoar as injustiças, a contar em nada as afrontas, a esquecer as injúrias [...]. Mas que a moderação espiritual não seja triste; que seja santa. Que não se oiça o murmúrio das queixas, porque àqueles que assim vivem nunca faltará o consolo das santas alegrias”.
(IV Sermão para a Quaresma, 1-2).

Que estes quarentas dias possam conduzir-nos a Deus.
Que a Virgem Mãe nos auxilie nesta caminhada.
Boa Quaresma a todos!

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1 Comentário

  1. Sandrinha disse:

    Rasgai o coração não as vestes, porquê Deus quer mais o amor do que o sacrifício.

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