- “Resisti em face”
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O relato que fizeram de sua viagem repercutiu muito, mas não suprimiu a resistência dos cristãos judaizantes com relação aos cristãos de origem pagã: deveriam estes seguir as prescrições do Antigo Testamento e os mil detalhes com que os fariseus oneravam os fiéis? Queriam os judaizantes que Tito fosse circuncidado.
Ora, “fazer a admissão daqueles na Igreja depender da circuncisão e da lei ritual, significava reduzir a Igreja à estreiteza da sinagoga, e negar a universalidade da redenção”.(4) E era exatamente isto que queriam os judaizantes, como diz São Paulo: “Os falsos irmãos, que secretamente se intrometiam para espiar a liberdade que temos em Cristo Jesus, queriam reduzir-nos à servidão” (Gal. 2, 4)”.
Tanto São Paulo quanto São Barnabé eram contrários a isso. Resolveu-se que eles iriam a Jerusalém decidir a questão com os Apóstolos. Pois a questão consistia, em última análise, em saber se a Igreja deveria ser independente da Sinagoga, ou se esta deveria absorver a Igreja nascente; ou mesmo, como queriam muitos, aniquilá-la.
São Pedro deu razão a São Paulo com relação aos vindos do paganismo, e também São Tiago Menor, contanto que “se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação, das carnes sufocadas e do sangue” (Atos 15, 6-21). Foi o primeiro Concílio da Igreja.
Mas depois ocorreu um fato do qual os Atos não falam, que mostra como a situação continuava ainda crítica por causa dos judaizantes. É o próprio São Paulo quem narra aos Gálatas esse penoso conflito:
“Quando Cephas [Pedro] veio a Antioquia, resisti-lhe em face, porque ele se tornara repreensível. Pois, antes de virem alguns dos de Tiago, ele comia com os gentios; mas, quando aqueles chegaram, ele se retraía e se afastava, por medo dos da circuncisão. E os outros judeus o acompanharam na mesma simulação, tanto que até Barnabé se deixou arrastar à simulação deles”. Palavras duras de um santo com relação a outro, ainda mais sendo um Papa! É bom notar que não se tratava de erro doutrinário, mas tático, se bem que com repercussões muito sérias para o futuro da Igreja.
Continua São Paulo: “Mas, quando eu vi que eles não caminhavam com retidão segundo a verdade do Evangelho, disse a Cephas diante de todos: Se tu, sendo judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a adotar costumes judaicos?” (Gal. 2, 11-15).
A aludida conduta de São Pedro e dos judaizantes ofendeu muito os cristãos originários dos gentios. Separando-se deles, os Apóstolos pareciam relegá-los injustamente a um grau inferior da comunidade.
Por isso São Paulo protestou. Como Apóstolo dos Gentios, cabia a ele elevar a voz. É claro que não foi para humilhar São Pedro, mas sim para manter os princípios. Sentia que essa “simulação”, em vez de acalmar as dissensões possíveis, podia levar ao cisma. Assim, para que seu ato tivesse todo alcance, e muito provavelmente seguindo uma inspiração divina, interpelou São Pedro publicamente.
Essa atitude de São Paulo em relação a São Pedro ajudou a explicitar para toda a Igreja, dezenove séculos depois, no Concílio Vaticano I, que a autoridade do Papa, em matérias que não tratem diretamente de fé e costumes, não goza do carisma da infalibilidade. O que em nada diminui a excelsitude do Papado, mas ajuda a compreender a natureza da autoridade que Nosso Senhor quis lhe conceder. Ao longo da História da Igreja, a fidelidade do Apóstolo neste episódio brilha como uma luz para a conduta de todos os fiéis.
Humildemente São Pedro recebeu a admoestação, reconheceu seu erro e estendeu a mão a São Paulo, alegrando a todos que havia escandalizado com sua conduta. Este nobre reconhecimento de seu erro, por parte de São Pedro, é o último episódio da vida do primeiro Papa que encontramos narrado no Novo Testamento.
No fundo, essa polêmica tinha o seguinte alcance: “Se as obras da Lei (Antigo Testamento) justificavam o homem, de que serviam os bem-aventurados sofrimentos de Cristo? A justiça que Ele nos mereceu tornar-se-ia uma falsa justiça, uma transgressão. Cristo seria ‘ministro do pecado’! [...] Bendito seja o erro de Pedro, pois que ele desencadeou essa sublimidade”.(5)
- Segunda viagem apostólica
Quando São Paulo e São Barnabé, de volta a Antioquia, planejaram a segunda viagem apostólica, São Barnabé queria levar outra vez seu sobrinho, São Marcos. Mas São Paulo, em vista da defecção deste na primeira viagem, não quis consentir. “Produziu-se certa dissenção” entre eles, e se separaram. Barnabé partiu só com João Marcos para a Selêucia; e Paulo, levando consigo Silas ou Silvano (1 Ped. 5, 12), da igreja de Jerusalém, partiu para a Cilícia. Várias igrejas se desenvolviam nessas duas províncias, e aparentemente foi Paulo quem lhes deu o impulso.
Essa divisão não teve futuro, pois mais adiante vemos o Apóstolo reclamar a presença de Marcos: “Traze-me Marcos contigo, pois ele me é muito útil para o ministério” (II Tim. 2, 11).
São Paulo reviu as igrejas de Derbe e Listra. Nesta última, conheceu um jovem discípulo, Timóteo, predestinado a se tornar, entre todos, seu “verdadeiro filho na fé” (1 Tim 1, 2). Ele seguiu fielmente São Paulo a Corinto, Éfeso, Jerusalém e Roma: “Porque nenhum outro é tão unido a mim. [...] Vós conheceis a sua provada fidelidade, e que, como um filho a seu pai, ele me serviu no Evangelho” (Fil. 2, 20-22).
São Lucas, para resumir a viagem, diz que “atravessando as cidades, comunicava-lhes os decretos dados pelos Apóstolos e anciãos de Jerusalém. [...] As igrejas, pois, firmavam-se na fé e cresciam em número de dia para dia” (Atos 16, 4-5). O que mostra que, contrariamente ao que alguns poderiam pensar, São Paulo era cioso em pregar as diretrizes de Jerusalém.
O Apóstolo dirigiu sua marcha para o Ocidente e fez alto em Troade, porto para o qual Júlio César teria querido transportar a capital do Império.
É nessa cidade que aparece pela primeira vez “Lucas, o médico bem-amado” (Col. 4, 14). Autor dos Atos, ele passa então a usar o plural “nós” no relato. Testemunha dos atos e gestos de São Paulo, São Lucas estava bem qualificado para tornar-se seu historiador.
Ainda em Troade, São Paulo teve a visão do macedônio que lhe pedia que passasse à Macedônia e os ajudasse. O que inclinou o Apóstolo para lá ir, pois compreendeu que o Ocidente precisava também de ajuda.
- Em Filipos da Macedônia
Em Filipos, primeira cidade da Macedônia, São Paulo, Silas e Lucas encontraram uma mulher chamada Lídia, de Tiatires, rica comerciante de tecidos de púrpura. Ao ouvir Paulo, “o Senhor abrira-lhe o coração para atender às coisas que Paulo dizia”. Ela foi batizada “com toda sua casa”, obreiros e escravos.
Foi em Filipos que uma jovem pitonisa passou a correr atrás deles gritando, com gestos convulsivos: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo, e vos anunciam o caminho da salvação”. Paulo indignou-se, vendo que os demônios que a possuíam reconheciam sua missão. Não querendo ser glorificado pelo espírito impuro, ordenou ao demônio que saísse da mulher. Com isso a pitonisa perdeu seus dons proféticos, que davam muito lucro aos seus donos. Estes apelaram para a justiça e excitaram a população. “Toda a multidão levantou-se contra eles”, e foram açoitados e levados ao cárcere.
São Paulo acabou convertendo o carcereiro, depois de um terremoto que abalou o cárcere, e liberto no dia seguinte. “Passando por Anfípolis e Apolônia, chegaram a Tessalônica” (capital da Macedônia), cidade livre apesar da dominação romana, ativa e comercial. Nela vemos o Apóstolo recomeçar seu ofício de fabricar tendas.
Certo dia, porém, novamente os judeus intervieram, “reuniram alguns arruaceiros, homens maus, e promoveram um motim na cidade”. Paulo teve que dirigir-se à vizinha Beréia, mas também lá os judeus insurgiram-se, partindo ele então para Atenas (Atos 17, 5-15).
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Fonte: Catolicismo
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