Sobrevivente de Auschwitz pesava 28 kg ao fim da Segunda Guerra; leia entrevista


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ERNANDO SERPONE
da Folha Online

A libertação do campo de concentração nazista de Auschwitz por tropas russas completa 63 anos neste domingo. O dia 27 de janeiro foi instituído como o Dia Internacional de Recordação das Vítimas do Holocausto em 2005, pela Assembléia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas foram assassinadas no local.

“Em Auschwitz, todos os inaptos para o trabalho foram enviados às câmaras de gás e cremados. Enquanto eram cremados, as gorduras eram canalizadas para a fábrica de sabão, ao lado”, disse o polonês Ben Abrahan, um dos sobreviventes do campo, em entrevista à Folha Online. Sua mãe foi uma das vítimas da câmara de gás. O pai de Abrahan morreu de fome, no gueto.

Presidente da Associação Brasileira dos Sobreviventes do Nazismo, o polonês tinha 14 anos quando a Segunda Guerra Mundial (1939) começou. Quando o conflito terminou –quatro anos no gueto e seis campos de concentração depois– o polonês pesava 28 kg, estava com tuberculose, escorbuto e disenteria com sangue.

“E estou aqui, sobrevivi, e levei comigo a tarefa de contar ao mundo tudo o que aconteceu”, afirmou Abrahan, que tem 15 livros publicados sobre o Holocausto.

Outra vítima da perseguição dos alemães foi Henrietta “Rita” Braun. No entanto, documentos falsos e a ajuda de um alemão evitaram que ela fosse enviada com a sua família a um campo de concentração. Leia entrevista concedida à Folha Online.

Leia a seguir a entrevista com o sobrevivente de Auschwitz:

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Folha Online – Como foi o início da guerra?

Ben Abrahan – Eu avistei os alemães pela primeira vez em 6 de setembro, quando eles entraram em nossa cidade, Lodz. Então, começaram perseguições. Os religiosos tiveram sua barbas cortadas, os judeus eram colocados em trabalhos forçados sob chicotadas.

Os judeus eram obrigados a usar uma braçadeira com uma estrela de David. Os alemães, não achando isso humilhante o suficiente, mandaram pregar nas costas uma estrela de David com a inscrição “juden” (judeu).

No bairro mais miserável, foi instituído o gueto, onde foram aglomerados cerca de 162 mil judeus. Só no primeiro ano, durante o inverno rigoroso, com parcas rações, sem lenha, morreram mais de 20 mil pessoas.

Folha – Uma vez no gueto, vocês eram obrigados a trabalhar?

Abrahan – Os alemães instalaram fábricas no gueto, para os seus utensílios de guerra, onde todos eram obrigados a trabalhar –desde os 12 anos até os 70. Os que não podiam trabalhar eram enviados a um local que diziam se tratar de um cidade próxima. Eram levados em caminhões, e diziam que iam trabalhar na roça. Ledo engano. Quando aglomerados dentro do caminhão, as portas eram fechadas, os gases de escapamento eram canalizados dentro da carroceria, e o trajeto –que demorava cerca de dez minutos até as valas comuns– era o suficiente para que todos chegassem asfixiados.

Com a aproximação das forças russas, no verão de 1944, os judeus foram retirados, e diziam-lhes que iam trabalhar nas fábricas na Alemanha.

Folha – Aonde vocês foram levados?

Abrahan – Chegamos a Auschwitz [no sul da Polônia], onde passamos por uma seleção rigorosa. Crianças, velhos e inválidos eram retirados de imediato, e nós passamos na frente –no meu caso, na frente do famigerado [Joseph] Mengele [apelidado de "Anjo da Morte", fez experiências com presos, entre elas a de injetar substâncias químicas nos olhos de crianças para ver se mudariam de cor. Após fugir para a Argentina, Mengele veio ao Brasil, onde morreu de infarto quando nadava em Bertioga, em 1979].

Ele (Mengele) só mexia o dedo para a esquerda e direita e enviava as pessoas para trabalhos forçados ou para a câmara de gás.

Folha – O sr. foi levado a Auschwitz de trem?

Abrahan – Sim. Um trajeto que hoje demora quatro horas, demorava um, dois dias –sem água, com 170 pessoas no vagão, fechado, onde muitos morriam asfixiados. Em Auschwitz, todos os inaptos para trabalho foram enviados às câmaras de gás e cremados. Enquanto eram cremados, as gorduras eram canalizadas para a fábrica de sabão, ao lado.

Antes, as pessoas eram despojadas de todos os bens de valor –dentes de ouro, anéis, etc. As mulheres tinham os cabelos cortados. As cinzas eram enviadas à Alemanha para serem usadas como fertilizante. Quem duvida disso, basta ir a Auschwitz hoje, que permaneceu intacto.

Folha – O senhor ficou com quanto tempo em Auschwitz?

Abrahan – Duas semanas. Diretores de fábricas da Alemanha compravam os prisioneiros para suas fábricas. Eu fui enviado a uma fábrica de caminhões, onde trabalhei até a primavera de 1945.

Com a aproximação das forças aliadas, fomos levados de um campo a outro. Na noite de 1º para 2 de maio, fui libertado pelos americanos, na noite em que Hitler se suicidou.

Eu pesava naquela época 28 kg, com tuberculose, escorbuto e disenteria com sangue. E estou aqui, sobrevivi, e levei comigo a tarefa de contar ao mundo tudo o que aconteceu. Escrevi em meu primeiro livro, “E o mundo silenciou”, toda a minha odisséia, 24 edições, todas esgotadas.

Folha – O que aconteceu quando o senhor foi libertado?

Abrahan – Passei meses nos hospitais americanos, curando-me de minhas doenças. Eu sou o único sobrevivente da minha família. Meu pai morreu de fome no gueto em 1942, e minha mãe foi retida por Mengele em Auschwitz e enviada à câmara de gás.

Folha – Depois do período no hospital, aonde o sr. foi?

Abrahan – Fui a Israel e, depois de um tempo, vim ao Brasil, em janeiro de 1955.

Folha – O sr. tinha parentes?

Abrahan – Tinha parentes em Israel –um tio e um primo que sobreviveram, e parentes que emigraram antes da guerra.

Folha – Por que o sr. veio ao Brasil?

Abrahan – Quando pequeno, ouvia conversas de meu pai, ele tinha aqui um tio e descrevia que é um país bondoso, tolerante, sem discriminação, principalmente aos judeus, e dizia que gostaria de emigrar ao Brasil. Isto ficou gravado em minha memória.

Folha – O que o sr. fez quando chegou aqui?

Abrahan – Fui trabalhar em uma fábrica como ferramenteiro. Depois, abri uma pequena indústria no Brás. Fui comentarista internacional, trabalhei oito anos na “Folha da Tarde”, escrevia artigos para jornais do Brasil e para jornais internacionais.

Hoje, dedico-me a palestras em escolas e universidades, a conscientizar as novas gerações aonde um regime totalitário e inescrupuloso pode conduzir os destinos do mundo e, inclusive, da própria nação.

Folha – Qual é a proposta da associação dos sobreviventes?

Abrahan – De início, era de ajuda aos carentes ou doentes. Atualmente, ajudamos os sobreviventes a receber indenizações da Alemanha.

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u367402.shtml

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7 Comentários

  1. Renata Panza disse:

    Bom,achei terrivel o que aconteceu.Preciso estudar um pouco mais da II guerra mundial pois vou fazer uma palestra.E lá vão ter sobreviventes da guerra.Prometo que ah entrevista saira no meu blog.www.renatapanza.wodpress.com.br.

  2. Jair Netto disse:

    Que sirva de exemplo do que não se deve fazer com o próximo. Se um povo com o nível de cultura do povo alemão foi capaz de ser dominado mentalmente por tamanha maldade, acompanhando o raciocínio cruel e desenroso de seus líderes, o que dizer de civilizações menos providas de estrutura, as quais, com alguma frequência, são governadas por ridículos totalitaristas?

  3. Andressa disse:

    As pessoas do mundo inteiro nunca devem esquecer dessa trajédia, nunca devemos pensar q se esquercermos das coisas ruins o mundo vai ser melhor. Devemos lembrar de tudo e repassar para os q ainda não sabem para q essa crueldade não se repita nunca mais.

  4. Isac Rocha Jr. disse:

    Deixo com muita dor no meu coração meus sinceros sentimentos a todas as vitimas do holocaustro, que Deus nos livre de presenciar algo parecido com este mesmo que em escala menor. Somos todos irmãos negros, brancos, judeus, alemães, todos…

  5. diego silveira disse:

    OI, gostaria de saber se o entrevistado tem alguma palestra a fazer em santa Catarina, sou um estudioso da II guerra e gostaria muito de assistir uma palestra dele. Obrigado

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