Stº Agostinho: “Somos felizes por possuirmos o que queremos?”


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Questão: somos felizes por possuirmos o que queremos?

Este é um trecho inicial de uma das primeiras obras escritas pelo Bispo de Hipona, Santo Agostinho. O Livro De Beata Vita (A Vida Feliz), traz como foco principal a  felicidade humana. O diálogo se passa é um retiro espiritual, do recém convertido Agostinho, sua mãe, Stª Mônica e varias pessoas proximas entre discípulos de Agostinho e familiares, incluindo seu filho Adeodato.

Retomando prossegui:
–Queremos todos ser felizes?
Apenas havia pronunciado tais palavras que a uma só voz e espontaneamente aprovaram.
– E que vos parece: quem não tem o que quer é feliz?
Minha mãe (Stª Monica), nesse ínterim, tomou a palavra:
– Sim, se for o bem que ele apetece e possui, será feliz. Mas, se forem coisas más, ainda que as possua, será desgraçado.
Sorrindo, e deixando transparecer a minha alegria, disse a minha mãe:
– Alcançaste, decididamente o cume da Filosofia. Pois, sem dúvida alguma, para exprimir teu pensamento apenas te faltaram as palavras de Cícero. Eis como se expressou ele no “Hortênsio”, obra composta para “louvor” e defesa da Filosofia:
“Há certos homens ,que pretedem ser felizes, todos aqueles que vivem a seu bel-prazer. Mas tal é falso, de todos os pontos de vista, porque não há desgraça pior que querer o que não convém. És menos infeliz por não conseguires o que queres, do que por ambicionar obter algo incoveniente. De fato, amalícia da vontade ocasiona ao homem males maiores do que a fortuna pode lhe trazer bens.”
(…)
– Portanto, está entendido, entre nós, que ninguém pode ser feliz, sem possuir o que deseja e, por outro lado, não basta aos que já possuem ter o ambicionado para serem felizes.
Todos concordaram.

Só quem possui a Deus é Feliz

–Pois bem, prosegui, admitis ser infeliz o homem que não é feliz?
–Sem a menor dúvida.
–Logo, é infeliz que não possui o que deseja?
Todos aprovaram.
– Então, o que o homem precisa conseguir para ser feliz? Eis talves aí um bom suplemento ao nosso festim(a festa de aniversário de Stº Agostinho), pois precisamos não esquecre o grande apetite de Licêncio. Imagino eu que tal homem desejoso da felicidade deva obter tudo quanto pode querer a sua vontade?
– Evidentemente, disseram eles.
– Isso significa ser necessário que se procure um bem permanente, livre das variações da sorte e das vicissitudes da vida. Ora, não podemos adquirir à nossa vontade, tampouco conservar para sempre, aquilo que é perecível e passageiro.
Todos se mostraram de acordo a esse respeito, exceto Trigésio que objetou:
– Há muitos homens afortunados que possuem em grande abundância de bens frágeis e sujeitos ao acaso, e, no entanto, levam vida muito agradável. Nada lhes falta de tudo quanto desejam.
– Na tua opnião, disse-lhe eu, achas poder ser feliz o homem sujeito a receios?
–Não me parece ser possível, respondeu ele.
– E poderá viver sem receio, quem pode vir a perder o que ama?
–Impossível, confirmou ele.

– Ora, todos esses bens sujeitos à mudança podem vir a ser perdidos. por conseguinte, aquele que os ama e possui não pode ser feliz de modo absoluto.
Não tendo Trigésio replicado, minha mãe tomou a palavra:
– Ainda que alguém tivesse a certeza de não perder tais bens frágeis, contudo, nunca viria a se contentar com o que já possui. Portanto, a pessoa seria infeliz pelo fato de querer sempre mais.
–Nesse caso, argumentei, aquele que possuísse bens em abundância, rodeado de benefícios sem conta, supondo que pusesse limite a seus desejos e que vivesse satisfeito com o que possuísse, no gozo honesto e agradável desses bens, a teu parecer seria feliz?
– Não seriam essas coisas que o tornariam feliz, mas a moderação de seu espírito.
– Muito bem! Não poderia haver melhor resposta à minha pergunta, nem outra poderia eu esperar de ti. Por conseguinte, estamos convencidos de que, se alguem quiser ser feliz, deverá procurar um bem permanente, que não lhe possa ser retirado em algummrevés de sorte.
– Já concordamos com isso, diz Trigésio.
– Então, qual a vossa opnião? É Deus eterno e imutável?
– Eis uma verdade tão certa que qualquer questão se torna supérflua, intarveio Licêncio.
Em piedosa harmonia, todos os outros disseram-se de acordo. Concluí então:
– Logo, quem possui à Deus é Feliz!

Fonte: Agostinho, Santo. De Beata Vita, A Vida Feliz. Capítulo 1. Ed. Paulus.

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